Por que a cidade tão rica é também tão pobre?

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Por Marcos Pędłowski — Blog do Pedlowski

Habito Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e tenho, inclusive, a honra de ter recebido o título de cidadão campista, em 2008, por iniciativa do então vereador Otávio Cabral. Como muitos dos que chegaram por aqui para ajudar a consolidar o projeto universitário da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), passei por muitos lugares antes de lançar âncora nestas terras. Ao contrário de muitos que vieram cumprir essa tarefa profissional, gosto de estar por aqui e aprecio as idiossincrasias desta terra. Aprecio, principalmente, a capacidade e a resiliência dos trabalhadores campistas que, historicamente, ficam com o bagaço da laranja, enquanto as elites locais ficam sempre com o melhor do suco.

Pois bem: como observador privilegiado de quase três décadas da história campista, não posso deixar de expressar minha frustração ao constatar que, muitos bilhões depois, esta cidade está cada vez mais segregada, suja e despreparada para arcar com o peso das mudanças climáticas em curso. Neste momento, quem andar pelas ruas com os olhos minimamente abertos verá muito lixo espalhado, uma infraestrutura viária em condições que beiram o sofrível e a inexistência de algo que se assemelhe ao que deveria ser o transporte público. Além disso, como quem acompanha o que escrevo neste blog sabe, a cidade está passando por algo inacreditável em relação ao seu já diminuto estoque de árvores, fruto de uma política de desmanche marcada por podas drásticas e pela remoção completa de milhares de árvores.

Quem ainda se der ao trabalho de observar os chamados conjuntos habitacionais de interesse social notará o aumento do isolamento social, o peso da violência decorrente das disputas territoriais entre os diferentes grupos que controlam o narcotráfico e a quase completa ausência de serviços essenciais, a começar pelas condições sofríveis em que se encontram hospitais e postos de saúde. Além disso, a educação municipal padece com condições degradantes, que afetam a saúde física e mental do profissionais da área e dificultam seus esforços para oferecer às crianças e aos adolescentes campistas um vislumbre de futuro digno.

A questão é que Campos dos Goytacazes não precisava estar nas condições que descrevo, marcadas por um grande fosso entre seus muitos pobres e seus poucos muito ricos. Com um orçamento bilionário, turbinado pela exploração do petróleo na Bacia de Campos, a vida por aqui poderia ser muito melhor, e a maioria pobre da população poderia ter, pelo menos, vislumbres de um futuro mais justo. Mas não é isso que se vê, qualquer que seja o montante investido em propaganda oficial.

E o pior é que temos visto uma piora, em vez de melhora, nos últimos anos, sem que sequer exista um projeto mínimo de futuro. Vive-se como se não houvesse amanhã, entre uma aposta fantasiosa e outra, sempre com o uso generoso de verbas públicas em iniciativas que não destinadas a tornar a cidade mais habitável,  e que claramente não beneficiam a maioria.

A atual campanha eleitoral espelha toda essa miséria intelectual, com candidaturas que nada dizem sobre a realidade dos campistas mais sofridos. É como se aqueles que pretendem representar o povo nem soubessem o CEP da sede da Prefeitura ou da Câmara de Vereadores. É tanta desconsideração pela realidade da cidade que não chega a surpreender a estimativa de que uma parcela significativa dos votos dos campistas irá para candidaturas de não residentes. Nesse caso, pode-se encontrar muitos culpados, menos entre os eleitores que não se reconhecem nos candidatos locais e preferem apertar o número de algum forasteiro.

Minha expectativa é que, uma hora dessas, a juventude e os trabalhadores campistas consigam se organizar para lutar por seus direitos, vencendo o entorpecimento que parece anestesiar vontades e impede a cobrança necessária para que a riqueza do petróleo chegue aos pobres antes que os poços se esgotem. É que, se depender dos ganhadores de sempre, nada vai mudar na terra de Benta Pereira. Isso me faz lembrar o ataque de uma praga que suga uma planta até deixá-la à beira da morte — e que, antes disso, parte para outra, como se a morte do hospedeiro não representasse também uma condenação mútua.

Nascido em Monte Alegre do Tibagi, atualmente parte do município de Telêmaco Borba (PR), Marcos Pędłowski é Bacharel e Mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Tech. Professor Associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense em Campos dos Goytacazes, RJ., com atuação no Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF. Pesquisador Colaborador Externo do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais da Universidade de Lisboa. Membro da Comissão de Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física e da Rede de Pesquisadores em Geografia (Socio)Ambiental. Pesquisador principal do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Transferência de Materiais Continente-Oceano, Fase III (2008-2028).


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Fonte: Blog do Pedlowski

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