Padilha repudia distorção de Nikolas sobre fala de Lula: ‘É repugnante’
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, repudiou a tentativa de associar a abuso sexual e pedofilia uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre exames preventivos contra o câncer. A reação ocorreu após o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicar um vídeo nas redes sociais explorando um trecho isolado da fala do presidente, que tratava da resistência de homens ao exame de próstata e comparava esse comportamento à maior familiaridade das mulheres com exames ginecológicos.
Padilha classificou como “repugnante” a interpretação difundida por integrantes da campanha bolsonarista. A íntegra da declaração de Lula mostra que o presidente falava sobre prevenção ao câncer quando mencionou o “toque”, e não sobre abuso infantil.
“Preciso falar isso, eu acho repugnante uma tentativa que está sendo feita hoje de transformar uma fala do presidente da República de orientação para a prevenção do câncer, da importância do toque de próstata para os homens, da importância dos exames vaginais para as mulheres, do toque vaginal para as mulheres na prevenção do tratamento do câncer, é a tentativa nesse ambiente pré-eleitoral de tentar fazer qualquer relação disso com abuso sexual, com pedofilia, é repugnante”, afirmou Padilha.
O que Lula disse
A declaração que deu origem à controvérsia foi feita durante uma agenda de campanha em Belém, no Pará, na segunda-feira (28). Lula comentava uma cirurgia robótica para câncer de próstata realizada na região e passou a falar sobre a resistência de parte dos homens em procurar atendimento e realizar exames preventivos.
“O homem é covarde, ele não gosta de fazer teste de próstata. Ele não gosta de toque. As mulheres aprendem a tomar toque desde quando é pequena. O homem, não. Ele é cheio de trejeitos. Ele não sabe que quando ele tiver câncer próstata vão dar muito toque nele”, disse Lula na ocasião.
O contexto anterior e posterior da declaração mostra, portanto, que Lula abordava exames médicos e prevenção ao câncer. A frase sobre mulheres “aprenderem a tomar toque” foi posteriormente utilizada isoladamente nas redes sociais.
Nikolas Ferreira publicou um vídeo destacando justamente esse trecho e afirmou: “Meninas não são, Lula, tocadas desde cedo, não”. Em seguida, o deputado associou a declaração a pedofilia: “Imagina um pedófilo ouvindo uma declaração do presidente da República falando isso”.
A associação feita pelo parlamentar não corresponde ao tema que Lula discutia no discurso original. As publicações que apresentaram a frase como referência a abuso sexual enganavam ao retirar a declaração de seu contexto.
‘Faz muito mal ao debate político e à saúde pública’
Padilha afirmou que a distorção ultrapassa a disputa eleitoral e pode prejudicar campanhas de conscientização sobre prevenção e diagnóstico precoce do câncer.
“Alguém querer de forma maldosa, repugnante, querer distorcer uma fala dele sobre toque de próstata, toque vaginal, exame vaginal, como qualquer coisa de relação com abuso sexual, é repugnante e faz muito mal ao debate político do país e também faz mal à saúde pública”, declarou.
Segundo o ministro, tratar de maneira pejorativa exames preventivos pode atingir diretamente iniciativas destinadas a ampliar o rastreamento de doenças.
“Porque fala de forma pejorativa, as pessoas tentam destruir de forma pejorativa algo muito importante para a saúde pública, que a gente busca cada vez mais eliminar o câncer de colo de útero no nosso país”, acrescentou.
A campanha de Lula levou o caso ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A representação questiona publicações de opositores, com destaque para a postagem de Nikolas, e afirma que elas atribuíram conotação sexual a uma declaração relacionada exclusivamente a saúde pública. A ação pede a retirada das publicações e medidas contra a disseminação de conteúdos semelhantes.
Padilha cita experiência pessoal de Lula com o câncer
Na declaração, Padilha também lembrou que Lula perdeu a mãe, Dona Lindu, em decorrência de câncer, e que o próprio presidente já enfrentou a doença. O ministro usou o histórico para sustentar que o tema da prevenção aparece com frequência nas manifestações de Lula.
“Ele tem a experiência vivida de quem teve uma mãe que morreu de câncer de colo de útero, de quem enfrentou o câncer, então fala de forma permanente, eu agradeço porque ele fala o tempo todo sobre promoção à saúde, prevenção à saúde, a importância do rastreamento do câncer”, afirmou.
Lula também mencionou a morte da mãe durante o discurso em Belém ao defender a realização de exames e a prevenção.
HPV e novas formas de rastreamento
Padilha aproveitou a manifestação para defender a ampliação da vacinação contra o HPV e a adoção de novas tecnologias para detectar o vírus, apontando essas duas medidas como fundamentais para reduzir a incidência de câncer do colo do útero.
“Eu sou daqueles que acredita que nós vamos conseguir eliminar se a gente continuar ampliando a cobertura vacinal da vacina do HPV, como nós fizemos nesses três anos e meio, e a nova tecnologia de identificação do vírus do HPV através do PCR, inclusive desenvolvido pela Fiocruz, expandindo para o Brasil inteiro”, declarou.
O Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste molecular para detecção de DNA do HPV oncogênico. A tecnologia passa a ocupar o papel de exame primário no rastreamento do câncer do colo do útero, enquanto o exame citopatológico, conhecido como Papanicolau, assume função complementar em determinados casos. A previsão oficial é ampliar a disponibilidade do método na rede pública em todo o país até dezembro de 2026.
De acordo com o Ministério da Saúde, o novo rastreamento é direcionado a mulheres de 25 a 64 anos e utiliza o teste molecular DNA-HPV como exame primário. Quando o resultado é negativo, o intervalo entre os exames pode chegar a cinco anos.
Padilha afirmou que políticas desse tipo não deveriam ser atingidas por disputas eleitorais baseadas na descontextualização de declarações.
“A gente não pode de forma pejorativa, repugnante, como tentaram fazer, tentar distorcer uma fala do presidente da República sobre a importância desse exame preventivo, com qualquer tipo de alusão a abuso sexual, pedofilia, como estão fazendo por aí”, disse.
Ministro relaciona episódio à disputa sobre Nossa Senhora Aparecida
Ao final da declaração, Padilha relacionou a ofensiva contra Lula à controvérsia política envolvendo Nossa Senhora Aparecida, tema que também ganhou espaço na campanha eleitoral nos últimos dias.
“Eu acho que tem muita gente que está tendo a se explicar sobre as suas visões, sobre a Nossa Senhora da Aparecida, a Padroeira do Brasil, e fica tentando criar, através de uma fake news, uma distorção na fala do presidente, para tentar o foco daquele que tem que se explicar”, afirmou.
Reportagem do Metrópoles publicada nesta quarta-feira (30) apontou que aliados de Flávio Bolsonaro passaram a explorar a declaração de Lula sobre exames ginecológicos em meio ao desgaste provocado pela controvérsia relacionada à Padroeira do Brasil.
Padilha encerrou defendendo a manutenção das campanhas de conscientização sobre prevenção ao câncer.
“Então, quero reforçar como ministro da Saúde, que acho repugnante a postura dessas pessoas, e vamos continuar falando no Brasil da importância dos homens e das mulheres fazerem os exames de rastreamento ao câncer”, afirmou.
Fonte: Brasil 247