A escolha política num prato de comida
umsoplaneta

A menos que você seja um caçador-coletor, presumo que tenha feito pelo menos uma refeição hoje, talvez duas ou três, e provavelmente boa parte do que você comeu foi produzido por agricultores em algum local distante de você. Antes de prosseguir com a leitura, proponho um desafio: recorde-se de quantas espécies de plantas e animais você comeu hoje e tente rastrear a origem de cada item de sua refeição. Se o seu último prato de comida tiver sido uma refeição típica do brasileiro, o clássico feijão com arroz, bife, batata frita e salada de alface e tomate etc., você certamente consumiu mais de 10 espécies de plantas e animais de uma só vez. Pare para pensar nisso um pouco. Não é algo trivial. Nenhum outro animal pode se dar ao luxo de consumir simultaneamente tantas outras espécies, com diversas origens, às vezes em uma única garfada. Isso é absolutamente um grande privilégio social e um luxo ecológico só “permitido” ao Homo sapiens.
Agora pense no custo do seu prato de comida. O que você pagou por ele foi provavelmente apenas o seu custo monetário, sem levar em conta os eventuais custos ambientais e sociais gerados pelos sistemas produtivos e pela logística de distribuição. Além disso, se você não optou por pagar mais caro por uma refeição com origem comprovada da agricultura regenerativa, certamente a comida que você comeu foi produzida em sistemas agrícolas degenerativos, os quais infelizmente ainda são a maioria no cenário agrícola global.
Além de trazer para reflexão o real valor político e ecológico da dieta humana e dos sistemas agroalimentares que a suportam, este texto tem dois propósitos. O primeiro é chamar a atenção das pessoas, especialmente dos agricultores, empresários do agro, legisladores e líderes políticos, sobre a urgência de se incluir a agricultura regenerativa na agenda política como uma prioridade de Estado, assim como a educação, saúde e segurança públicas, assistência social e combate à pobreza. O segundo propósito é reforçar que a agricultura global, e a brasileira em especial, pode sair da condição de vítima para se tornar um poderoso instrumento de combate às mudanças climáticas através da agricultura regenerativa.
O bicho homem atual faz uma agricultura “moderna” altamente suportada pela ciência e tecnologia, e está organizado em sociedades complexas e estratificadas cada vez mais urbanas, nas quais a dieta individual é tratada basicamente como um item do custo (monetário) de vida, e a agricultura é considerada um setor da economia, e não mais o lastro da sociedade. Além disso, o agricultor moderno é frequentemente tratado como “produtor rural”, como se a agricultura fosse apenas sobre produção. Esta perspectiva equivocada sobre a agricultura e os agricultores representa quase uma distopia ecológica, e é a essência dos problemas que estão por trás dos impactos ambientais que nossa dieta causa no clima global e nos ecossistemas que nós ocupamos para fazer agricultura e pecuária. Através de nossos sistemas agroalimentares estamos literalmente comendo o planeta, como se não houvesse amanhã.
Voltando ao prato de comida… O que mais ele pode significar? O que mais ele diz a seu respeito e sobre a sociedade atual? Além de representar muito bem a sua fome naquele momento e o caráter onívoro do ser humano, esta refeição materializa nossa óbvia dependência extrema da agricultura e ao mesmo tempo nos comunica o pouco óbvio peso cultural, político e ecológico de nossa dieta individual e coletiva. Em geral, a dieta de uma pessoa é reflexo de sua condição financeira, suas crenças, ideologias e seu status social, e tem pouca ou nenhuma relação com limitações e possibilidades ecológicas dos ecossistemas que ela habita. Por outro lado, a dieta de uma sociedade é reflexo principalmente de decisões políticas sobre agricultura e gestão de território. Isso significa que o que nós comemos atualmente pode determinar o que as próximas gerações poderão comer, e quanto essa dieta custará para essas pessoas e para a sociedade. E nosso voto também tem o poder de promover impactos na agricultura e na dieta do futuro. Ainda mais diante dos riscos que a agricultura global gera e sofre com as mudanças climáticas. Hoje, mais do que nunca, comer é um ato político.
A dieta de um animal é um dos aspectos mais importantes de seu comportamento, e por isso é um dos elementos centrais dos estudos zoológicos e zootécnicos. A dieta de um animal define sua identidade, seu nicho e o seu impacto na natureza, e também pode ser responsável por criar riscos e vulnerabilidades demográficas e ecológicas para si mesmo e para outras espécies com as quais interage direta ou indiretamente. Com o bicho homem isso não é diferente, ou pelo menos não deveria ser, mas a dieta humana é tratada em geral não pela perspectiva zoológica ou ecológica e sim pelo viés social e econômico, como se estivéssemos desconectados da natureza, absolutamente irresponsáveis pelos limites ecossistêmicos elementares que suportam a agricultura no mundo.
Muitas sociedades colapsaram por causa dos efeitos resultantes do desmatamento e da degradação de terras pela agricultura e pecuária. Algumas regiões do Brasil já sofrem estes tipos de problemas, pelas mesmas causas, e isso não pode mais ser tratado apenas como uma externalidade negativa das atividades agropecuárias. A sociedade em geral, mas especialmente os políticos, os legisladores e os gestores públicos devem enfrentar a necessidade de dedicarmos esforços políticos para combater a agricultura degenerativa e promover a agricultura regenerativa como uma prioridade de Estado. E isso passa necessariamente pela imperiosa necessidade de tratarmos a agricultura e os agricultores(as) com a devida relevância que esta atividade e esse ofício têm. É preciso lembrar e repetir aos quatro ventos que há pelo menos 11 mil anos a agricultura é a base das sociedades humanas, e não há perspectiva de que essa realidade mude, e os agroecossistemas (sítios agrícolas e pastos) fazem mais do que exportar alguma biomassa útil para um determinado fim, assim como o agricultor faz mais do que produzir algum produto para alguém.
Considerar a agricultura apenas como um setor produtivo da economia e negligenciar a boa gestão de território e de seus recursos naturais usados na agricultura é um erro estratégico já fartamente comprovado pela história. Isso não funciona simplesmente porque toda a sociedade depende da sustentabilidade e do êxito produtivo da agricultura lato sensu (produção vegetal, animal, fibras e madeiras), inclusive os demais setores da economia e as pessoas que ainda não nasceram.
Em escala global, a agricultura e a pecuária modernas são marcadas por uma dinâmica produtiva degenerativa, depauperando paisagens inteiras e as condenando à inaptidão produtiva ou à degradação extrema. No Brasil isto já ocorreu em algumas regiões no século XIX e início do século XX (ex: Vale do Paraíba), e continua ocorrendo hoje em maior extensão nos demais biomas, com destaque para a Amazônia e o Cerrado. Mesmo regiões agrícolas prósperas, como o Matopiba, já sofrem efeitos negativos da agricultura extensiva mais preocupada com produção (lucro) do que com resiliência e manutenção da capacidade produtiva. Além das consequências ambientais que geram perda de resiliência e potencial produtivo, as paisagens agrícolas degradadas ou mal manejadas amplificam os efeitos das mudanças climáticas porque emitem mais carbono e outros gases do efeito estufa do que podem sequestrar. Este é um resumo do legado da agricultura dita convencional, baseada na degeneração de recursos e ambientes naturais para produzir biomassa e lucro. A agricultura regenerativa é exatamente o reverso dessa abordagem, pois é baseada em princípios e métodos agroecológicos que permitem produzir enquanto criamos e mantemos a saúde do solo e criamos resiliência ecológica para que o agroecossistema não apenas suporte os distúrbios, mas também siga produzindo.
No cenário brasileiro, a maior parte das emissões de gases do efeito estufa vêm das mudanças do uso do solo, notadamente para atividades agrícolas ou pecuárias. E nossa maior vulnerabilidade diante das mudanças climáticas enquanto país, numa perspectiva socioeconômica, vem justamente de nossa dependência da agricultura de exportação (grãos e carnes) praticada no Centro Oeste, Amazônia e no Sul do país, as regiões mais afetadas pelas mudanças climáticas e pelos fenômenos El Niño e La Niña. É justamente nesse aspecto que mora uma grande oportunidade que já está sendo percebida e aproveitada por grandes players do agronegócio de grãos, algodão e pecuária e também por empresas inovadoras que trabalham com agroflorestas e restauração produtiva. A agricultura empresarial de larga escala já está convencida de que deve ir além da regeneração do capital investido no negócio, e já começou efetivamente a implementar a agricultura regenerativa em suas operações. Seja no uso de bioinsumos, no manejo do solo ou no combate aos problemas fitossanitários, grandes empresas já estão fazendo a transição para uma agricultura mais resiliente e com menores custos de produção. Isso está ocorrendo por forças das circunstâncias que estão afetando o setor (clima cambiante, elevados custos de insumos, pragas e doenças etc) e porque o mercado está começando a valorizar e a valorar estes esforços, mas poderia ser resultado de políticas agrícolas e incentivos públicos. Isso poderia ocorrer através de crédito bancário, isenções tributárias, compras públicas de alimentos , fortalecimento das agências de assistência técnica e extensão rural e outras medidas de incentivo e subsídio.
Vale destacar também que o Brasil é um dos líderes globais em produção científica na área de agricultura regenerativa. Há grupos muito produtivos em universidades e na Embrapa, principalmente, com publicações de alto impacto nas melhores revistas do mundo. Enfim, na condição de agricultor e empresário do setor agrícola, concluo esse texto com otimismo e esperança de que estamos diante de uma grande mudança de paradigma na agricultura mundial, e o Brasil pode ser o líder na transição para uma agricultura que vá muito além da produção, e que possa ser um poderoso instrumento de combate às mudanças climáticas. De causadora e vítima das mudanças climáticas a instrumento de combate. Essa é uma grande mudança de paradigma que a agricultura regenerativa precisa encarar. Sua posição política e seu voto podem nos ajudar nessa missão. Pense nisso na próxima refeição!
*Gilberto Terra é cofundador e diretor técnico da Courageous Land e membro do comitê fundador da Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (FERA).
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Fonte: umsoplaneta