Por Cristóvão Feil — Brasil de Fato

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Uma expressão que está de moda no mundo do jornalismo ou crônica política no Brasil é “polarização“. Mas não só no Brasil, é uma expressão epidêmica na América Latina, nos Estados Unidos e na Europa. 

A expressão é sempre empregada no modo negativo e reducionista, ao se analisar a conjuntura política, social e cultural. Nada explica e a todos confunde. 

Ora, em sociedades capitalistas tudo é luta de classes, o tempo inteiro. 

Já se vê que estamos diante de uma fórmula – eu diria – eufemística, que evita as categorias marxistas e censura as divisões (ou seria mera desobediência?) na sociedade desigual e injusta.

Polarização virou palavra-chave do jornalismo político. O país estaria doente porque dividido em dois polos, dizem.  

O problema não é constatar que existem campos em disputa eleitoral. É transformar essa mera constatação em explicação definitiva. 

Aí a palavra passa a funcionar como eufemismo: em vez de nomear luta de classes, conflito distributivo, racismo estrutural, violência estatal, disputa por terra e por fundo público, fala-se de “polarização”.

A operação ideológica é sempre dupla. 

Primeiro, simetriza os polos, como se ambos fossem equivalentes, igualmente radicais, igualmente responsáveis. 

Segundo, patologiza o conflito. Quem denuncia desigualdade passa a ser tão “polarizador” quanto quem defende retrocessos. Isso esconde assimetrias de poder, de recursos, de violência e de legitimidade. 

Em sociedades capitalistas, a luta de classes é permanente, mas não se manifesta apenas como confronto direto entre burguesia e proletariado. Ela aparece em salário, moradia, saúde, educação, tributação, dívida pública, redes sociais, cultura. 

A “polarização” é uma forma fenomênica, superficial e deslocada desses antagonismos.

No Brasil, a polarização Lula–Bolsonaro expressa conflitos reais, mas não se explica por si mesma. Por trás disso existe desindustrialização, precarização, endividamento das famílias, dependência de commodities, rentismo, agronegócio, antipetismo, lavajatismo, racismo, religião e disputa pelo Estado. 

Chamar tudo de “polarização” evita nomear quem ganha e quem perde na organização da desigualdade. Não se trata de censura literal, mas de censura ideológica. Apaga-se o vocabulário classista, e a desobediência social é enquadrada como radicalismo que “polariza”.

A luta de classes é central, mas não é a única determinação, articula-se com racismo, sexismo, regionalismo, religião e outras contradições que têm materialidade própria. 

O bom uso do marxismo não é substituir “polarização” por “luta de classes” e parar. É perguntar: polarização entre quais classes e frações? Em torno de quais interesses? Quem lucra com esse enquadramento? Que divisões ficam invisíveis?

Portanto, “polarização” é sintoma, não conceito explicativo. Serve mais para administrar o conflito do que para compreendê-lo. 

A crítica correta é historicizar o termo, desnaturalizá-lo, revelar as assimetrias que ele iguala e traduzi-lo de volta para a linguagem dos antagonismos sociais. 

Sem cair no reducionismo inverso: a luta de classes é chave, mas não dispensa análise concreta.

No caso da esquerda, trata-se, muitas vezes, de uma escolha político-ideológica – consciente ou não – de abandonar o vocabulário classista e adotar o enquadramento do adversário.

Quando setores autoproclamados de esquerda usam “polarização” como categoria central, a expressão vira mesmo bengala. Mais grave: é uma expressão chula.  

Bengala porque dispensa o esforço de analisar quem disputa o quê, em torno de quais interesses, com quais frações de classe e sob quais determinações econômicas. 

Chula porque moraliza o conflito, como se o problema fosse a falta de moderação, o “excesso” de radicalismo, a incompreensão entre “os dois lados”. Isso iguala campos profundamente desiguais. 

Não é simétrico, por exemplo, defender direitos sociais e defender tortura, racismo, destruição ambiental ou entrega do patrimônio público.

Mas se podem verificar outras razões mais concretas, que podemos alinhar. 

Muitos setores trocaram mobilização popular por governabilidade, negociação parlamentar e busca da saída de “centro”. Nesse vocabulário, “polarização” é o que atrapalha a governança.

Falar em luta de classes afasta eleitor médio, falar em “polarização” permite posar de moderado, responsável, acima dos extremos.

O campo dominante pune a linguagem classista e recompensa o vocabulário do “diálogo”, da “estabilidade”, da “paz social”.

Depois de tantas derrotas (no mundo todo), parte da esquerda internaliza que o conflito explícito é perigoso e prefere administrar a ordem.

Uma análise de conjuntura materialista não ignora a polarização eleitoral. 

Ela pergunta: polarização entre quais classes e frações? Em torno de quais interesses? Quem lucra com a simetria? Que divisões – racismo, precarização, endividamento, dependência, rentismo – ficam apagadas quando tudo vira “polarização”? 

Sem isso, a esquerda fica presa ao vocabulário que a derrota e abdica de disputar sentido.

Portanto, a crítica é justa, mas deve ser feita como crítica política. O uso de “polarização” por setores de esquerda revela menos falta de inteligência e mais adaptação ideológica, capitulação teórica e prática revisionista. 

É uma forma de pedir licença ao Centrão e à mídia – e, muitas vezes, de não dizer o que precisa ser dito.

*Artigo de Cristóvão Feil é sociólogo.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Fonte: Brasil de Fato

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