Entre drones e fuzis: o simulacro das políticas públicas da direita
Por Larissa Melo — Brasil de Fato
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Doutora em Ciência Política e pesquisadora com foco em políticas públicas. Professora, militante feminista e dirigente sindical.
No audio source provided.
Em sua definição clássica, políticas públicas são ações coordenadas do Estado, fundamentadas em diagnósticos da realidade e estruturadas em leis, orçamentos e instituições, visando garantir direitos e transformar a vida da população. Nas últimas décadas, porém, esse conceito passou por um processo contínuo de desgaste retórico no debate brasileiro, culminando no esvaziamento completo que testemunhamos nas eleições presidenciais de 2026.
A expressão, repetida à exaustão por marqueteiros de todos os matizes, transformou-se em um jargão oco para conferir uma falsa seriedade ao fato de que a direita e a extrema direita, simplesmente, não têm um projeto confessável para o país. Opera-se aqui o que Jean Baudrillard chamaria de simulacro: uma encenação que finge ter substância para disfarçar a ausência absoluta de propostas reais.
O primeiro grande sintoma dessa falência crônica ficou escancarado no debate inaugural dos presidenciáveis na TV Band, marcado pela escassez propositiva e recheado de agressões. Logo em seguida, a sabatina do Jornal Nacional elevou a distorção ao nível da caricatura.
Vimos a bancada abdicar de questionar o atual presidente e candidato do campo progressista sobre suas novas propostas e planos de governabilidade em meio a um Congresso sem maioria. Em vez disso, os entrevistadores gastaram boa parte do tempo tentando emparedar Lula com ilações não comprovadas a respeito de seu filho, criando uma pauta puramente moralista.
Por outro lado, a mesma engrenagem midiática, ancorada em uma falsa simetria, ofereceu um salvo-conduto inaceitável aos candidatos da extrema direita, em especial a Flávio Bolsonaro. Embora questionado sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso pelo maior golpe financeiro do país, a abordagem foi complacente diante de um candidato com um histórico assombroso.
Sua trajetória inclui o escândalo dos áudios vazados em que pede milhões ao próprio Vorcaro, investigações e suspeitas que vão desde o caso das rachadinhas e da lavagem de dinheiro em loja de chocolate, até laços umbilicais com milícias. Como se não bastasse, é herdeiro político do pior presidente da nossa história, hoje condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. Ainda assim, a bancada do JN não se importou em cobrar explicações mais profundas, muito menos em desmascarar a farsa de suas propostas.
A tragédia ganha contornos macabros quando lemos o que está escrito nos planos de governo dessa direita. Atrás da suposta gestão técnica, reside a barbárie institucionalizada. No plano de Flávio, a segurança pública, rebatizada ironicamente de “Brasil sem Medo”, propõe um complexo carcerário de segurança máxima sob o bizarro nome de “Treva”. O texto oficializa o extermínio como política de Estado ao prometer que “bandido armado com fuzil na mão vai ser abatido pelas forças de segurança”.
Uma ironia surge em meio ao lamaçal recente. Entre o dinheiro de Vorcaro e o suposto desvio de emendas para bancar “Dark Horse”, filme cujos fundos eram operados pelo advogado de Eduardo Bolsonaro nos EUA, a Polícia Federal fez uma busca e apreensão na casa do produtor da obra, o ator Mário Frias. A PF encontrou sete armas com o bolsonarista, incluindo um fuzil. Fica a pergunta: para o candidato Flávio, Mário Frias seria um “bandido armado com fuzil” a ser abatido? Sorte de Frias que a operação ocorreu sob o governo Lula.
A barbárie do plano de Flávio estende-se à juventude, ao defender a redução da maioridade penal para 16 anos e a ampliação das Escolas Cívico-Militares sob o disfarce de uma educação “livre de doutrinação”. É a marca registrada da extrema direita em nomear o autoritarismo com o vocabulário da liberdade. Para fechar o pacote punitivista, tanto o plano de Flávio quanto o de Ronaldo Caiado propõem enquadrar facções locais, como o PCC e o Comando Vermelho, como organizações terroristas. Caiado propõe uma “Lei de Terrorismo Doméstico” e a construção de 40 presídios de segurança máxima.
O que se esconde sob essa retórica justiceira é uma grave ameaça à nossa soberania e o alinhamento ao imperialismo estadunidense. Em maio deste ano, após lobby do próprio Flávio junto ao governo Trump, o PCC e o CV foram declarados pelos EUA como organizações terroristas, revivendo tensões diplomáticas e ameaças de tarifas contra o Brasil ocorridas em 2025. Em vez de rechaçarem intervenções estrangeiras, os candidatos da direita adotam o entreguismo travestido de segurança pública.
Chegamos então a Augusto Cury e suas delirantes propostas tecnocráticas, um mix de autoajuda com pitch de startup. Na sabatina da Globo, Cury propôs um Ministério da Inteligência Artificial e o combate ao feminicídio com “drones com sirenes”. Desconcertado ao ser interpelado algumas vezes sobre a inviabilidade da medida, tentou voltar atrás.
Assistimos ao estágio terminal do que Vargas Llosa diagnosticou como a civilização do espetáculo: a banalização de dilemas humanos profundos transformados em pirotecnia ligeira, o que é percebido, tomando o plano de Cury como exemplo, no desmonte da saúde pública em nome de telemedicinas privadas.
Na mesma esteira do absurdo, o neófito Renan Santos camufla uma agenda neofascista sob uma estética ágil de internet. Seu plano traz metas higienistas, como o fim das cotas e um marco de “desfavelização”. Fora do papel, explicita que o Brasil deve fabricar uma bomba atômica e promete “banho de sangue” na segurança, erguendo um megapresídio com 500 mil vagas nos moldes autoritários de El Salvador.
Ao lado dessas bizarrices, Romeu Zema segue a toada da crueldade neoliberal velada como gestão. Seu “Plano Implacável” (título de seu plano de governo) propõe privatizar todas as estatais, incluindo Petrobras e Banco do Brasil, retirar o país dos Brics e criar uma “alternativa à CLT” que institucionaliza a desregulamentação absoluta do trabalho.
Para que esse compêndio de atrocidades não cause revolta imediata, a política precisa operar sob a lógica em que a imagem substitui a realidade material, fenômeno brilhantemente narrado por Guy Debord em “A Sociedade do Espetáculo”.
A crise do Supremo Tribunal Federal, estrategicamente estourada às vésperas do primeiro turno, também ramificação do caso Vorcaro, funcionou como perfeita cortina de fumaça. Um STF atuando como ator político, produzindo barracos transmitidos ao vivo e cortes em looping nas redes sociais, captura a atenção nacional.
O público desvia o foco para o “espetáculo da mídia”, conceito de Douglas Kellner, em que a transformação do jornalismo em um megaevento de entretenimento dramático desenhado serve para anestesiar a reflexão crítica. Enquanto a audiência consome o escândalo da semana, a boiada passa (isso lembra alguma coisa?), legitimando agendas de poder que seriam rechaçadas em um debate sério.
É contra essa terra arrasada que nosso campo progressista necessita resgatar o sentido material de política pública. Como bem ensina a tradição da educação popular de Frei Betto, a política pública só se torna verdadeiramente pública quando apropriada pelo povo. Ela é a materialização institucional de direitos conquistados pela classe trabalhadora. Não se trata de favor governamental; é uma conquista territorial, nascida das demandas populares, que precisa estar estruturada em um programa de governo real.
Precisamos furar a bolha da espetacularização. Cobrar por programas que apresentem políticas públicas plausíveis, expor as contradições da direita e pressionar para que a imprensa burguesa abandone o espetáculo em favor do debate qualificado são as tarefas centrais deste ano. Só assim faremos com que a eleição deixe de ser um reality show distópico e volte a ser a decisão soberana do povo sobre o futuro do país.
Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.
Fonte: Brasil de Fato