Wałęsa, o operário que fracassou no poder e sempre serviu de alerta a Lula

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Lech Wałęsa, um dos mais famosos líderes sindicais do século XX, completa 83 anos nesta terça-feira (29). Eletricista dos estaleiros de Gdansk, fundador do movimento Solidariedade, Nobel da Paz e primeiro presidente da Polônia eleito depois da queda do regime comunista, o polonês construiu uma trajetória que durante décadas esteve presente no pensamento político de outro líder sindical que chegaria à Presidência: Luiz Inácio Lula da Silva.

Para Lula, porém, Wałęsa representou simultaneamente inspiração e advertência.

Os dois saíram do trabalho industrial e do sindicalismo para disputar o poder em seus países. Wałęsa tornou-se presidente da Polônia em 1990. Lula chegaria ao Palácio do Planalto 12 anos depois, em 2002.

Foi justamente o que aconteceu depois da ascensão de Wałęsa que marcou profundamente Lula.

O líder do Solidariedade governou a Polônia entre 1990 e 1995, durante a traumática transição da economia socialista para o capitalismo. Ao tentar a reeleição em 1995, foi derrotado por Aleksander Kwaśniewski. Quando voltou a disputar a Presidência, em 2000, recebeu pouco mais de 1% dos votos.

Lula mencionou diversas vezes essa trajetória para explicar o peso que sentiu quando chegou à Presidência em 2003.

Em entrevista oficial concedida em 2009, afirmou que se considerava um presidente que simplesmente “não podia falhar”.

“Eu era o único candidato no Brasil que não podia falhar. Eu não podia me dar ao luxo de cometer erros. Não podia fazer o que [Lech] Walesa fez na Polônia, ou nunca mais um trabalhador poderia ser eleito presidente novamente”, disse Lula.

A preocupação reapareceu em seus discursos ao longo do segundo mandato.

“Eu trabalhava muito com a ideia do fracasso do Walesa, na Polônia”, afirmou Lula em 2010.

Na mesma ocasião, explicou por que enxergava naquela experiência algo maior do que o destino individual de um governante.

“Eu trabalhava sempre com a certeza de que eu não podia fracassar, porque se eu fracassasse, nunca mais um trabalhador poderia pleitear a Presidência da República”, afirmou.

Para Lula, uma eventual administração malsucedida não seria atribuída apenas a ele ou ao PT. Poderia ser utilizada como argumento de que trabalhadores e pessoas provenientes das classes populares não teriam capacidade para governar.

“Eles iriam dizer: ‘Não sabe governar. Peão de fábrica não sabe governar’”, recordou.

A comparação acompanhou Lula por décadas. Em entrevista concedida à Folha de S.Paulo em 2019, quando estava preso em Curitiba, voltou ao assunto: “Eu tinha muito medo do [Lech] Walesa na Polônia. Olhava para o fracasso do Walesa […] e falava: ‘Deus me livre, não quero ser isso’.”

Duas trajetórias operárias

As semelhanças biográficas eram evidentes.

Wałęsa nasceu em 29 de setembro de 1943 em uma família pobre da Polônia. Trabalhou como eletricista nos estaleiros de Gdansk e transformou-se em uma das principais lideranças da resistência sindical ao regime comunista.

Lula nasceu dois anos depois, em 1945, também em uma família pobre. Migrou do Nordeste para São Paulo, tornou-se metalúrgico e comandou as grandes greves do ABC no final dos anos 1970.

Os dois foram presos por sua atividade política e sindical. Os dois se tornaram símbolos internacionais do movimento dos trabalhadores. E ambos acabariam chegando à Presidência.

Havia, entretanto, diferenças políticas profundas. Wałęsa construiu sua trajetória em oposição ao regime comunista polonês e contou com forte apoio da Igreja Católica. Lula surgiu do novo sindicalismo brasileiro durante a ditadura militar e participou da criação do Partido dos Trabalhadores.

Os dois chegaram inclusive a se encontrar no Vaticano no início dos anos 1980, quando ainda eram líderes sindicais.

Lula recebe o prêmio Wałęsa

A história produziria uma curiosa inversão décadas mais tarde.

Em 29 de setembro de 2011, já depois de deixar a Presidência com elevada popularidade, Lula esteve justamente em Gdansk para receber o Prêmio Lech Wałęsa.

No discurso da cerimônia, Lula tratou o polonês com respeito e ressaltou as semelhanças entre suas origens.

“Nossas biografias têm vários pontos em comum. Nascemos ambos de famílias pobres, em regiões distantes da sede do poder. Não concluímos todos os níveis da escola formal, e começamos a trabalhar cedo”, afirmou.

Lula lembrou ainda que Wałęsa havia trabalhado como eletricista nos estaleiros de Gdansk enquanto ele próprio se tornara metalúrgico em São Bernardo do Campo.

Era uma fotografia simbólica de duas trajetórias que haviam começado em lugares semelhantes e seguido caminhos políticos muito diferentes.

Wałęsa tornou-se um dos personagens fundamentais da queda do regime comunista polonês, recebeu o Nobel da Paz em 1983 e entrou para a história europeia. Sua passagem pelo governo, entretanto, terminou marcada por divisões políticas e pela derrota eleitoral.

Lula transformou essa experiência em uma espécie de advertência permanente sobre sua própria responsabilidade histórica.

Para o brasileiro, chegar ao Palácio do Planalto nunca significaria apenas a vitória individual de um antigo metalúrgico. Seu desempenho no poder serviria também, em sua avaliação, como julgamento sobre a capacidade de outros trabalhadores ocuparem a Presidência.

Por isso, durante seus primeiros governos, Lula repetiu inúmeras vezes uma ideia simples: não poderia terminar como Wałęsa.

Mais de duas décadas depois de sua primeira posse, a referência ajuda a compreender uma preocupação que acompanhou Lula desde sua chegada ao poder: provar que um operário não apenas poderia ser eleito presidente da República, mas também governar e preservar apoio popular.

Fonte: Brasil 247

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