Eleições 2026: por que os dois votos para o Senado são decisivos

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Por gutoalves — Fundação Perseu Abramo

O voto para presidente costuma concentrar as atenções, mas outra escolha terá consequências que atravessam dois mandatos presidenciais. Nas eleições de 2026, cada eleitor poderá votar em dois candidatos ao Senado. Serão renovadas 54 das 81 cadeiras da Casa, para mandatos de oito anos. Está em disputa parte decisiva da composição do Congresso que poderá aprovar, modificar ou barrar propostas para o país. Senado Federal.

Essa importância contrasta com a distância entre a instituição e a população. Pesquisa Datafolha publicada em junho de 2026 mostrou que 75% dos entrevistados não souberam citar um senador em exercício. Outros 66% disseram não lembrar em quem votaram para o cargo em 2022. O levantamento ouviu 2.004 pessoas, em 139 cidades, nos dias 17 e 18 de junho, com margem de erro de dois pontos percentuais. Datafolha/Folha.

O que o Senado decide

Ao lado da Câmara dos Deputados, o Senado participa das decisões sobre leis e orçamento. Saúde, educação, trabalho e financiamento dos serviços públicos estão entre os temas que passam pelo Congresso. Os senadores também fiscalizam o Executivo e analisam indicações para cargos como ministro do Supremo Tribunal Federal, procurador-geral da República e presidente e diretores do Banco Central.

Cabe ainda à Casa julgar o presidente da República por crimes de responsabilidade, após autorização da Câmara, e autorizar operações financeiras externas de interesse dos entes federativos. Essas atribuições tornam sua composição relevante tanto para as políticas públicas quanto para o equilíbrio entre os Poderes. Constituição, artigos 48, 51 e 52.

No caso dos juros, a distinção é importante: o Senado não define a Selic. Essa decisão cabe ao Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom. A participação dos senadores ocorre na aprovação dos nomes indicados para dirigir a instituição. Banco Central.

Por que o Senado parece distante do eleitor

Para Carolina de Paula, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Mídia e Esfera Pública, do Iesp-Uerj, compreender essa distância exige olhar para as condições de acesso à informação.

“Muitas vezes nos perguntamos por que o cidadão não busca se informar mais, mas a verdade é que as pessoas não vivem o tempo todo focadas na política. Elas têm outras prioridades cotidianas e voltam sua atenção para disputas de maior visibilidade, impulsionadas pelo hábito cultural do país e pela imprensa em priorizar as eleições do Executivo”, explica.

Nesse cenário, segundo a pesquisadora, a familiaridade com um nome pode ocupar o lugar do conhecimento sobre sua atuação. “O eleitor acaba optando por quem ele já ouviu falar. É uma escolha com pouca informação prévia, pautada pela familiaridade com o nome e não necessariamente por uma avaliação aprofundada.”

A responsabilidade por aproximar representantes e representados também passa pelos mandatos, pelos partidos e pelos meios de comunicação. “A prestação de contas é uma via de mão dupla. Mesmo quando o parlamentar tenta divulgar seu trabalho, a informação precisa alcançar a outra ponta”, afirma Carolina.

As barreiras para chegar ao Senado

Cada estado e o Distrito Federal elegem três senadores, independentemente do tamanho de sua população. A renovação alterna, a cada quatro anos, um terço e dois terços das cadeiras. Constituição, artigo 46.

Para Karoline Cavalcante, doutora em ciência política pela Unicamp, as características da disputa se combinam com desigualdades anteriores à eleição. Construir uma candidatura competitiva exige recursos, presença no território e apoio político.

“Mulheres e pessoas negras, historicamente, tiveram menos acesso aos recursos que estruturam uma carreira política: financiamento, redes partidárias, espaços de liderança, capital político e oportunidade de disputar cargos competitivos”, afirma.

Por isso, contar candidaturas é apenas uma parte da análise. É preciso verificar quem recebe financiamento e apoio para chegar às urnas com chances reais.

“As barreiras não estão apenas quando o eleitor deposita o voto; aparecem muito antes, na seleção e construção das candidaturas”, ressalta Karoline.

A reserva de candidaturas por gênero existente nas eleições proporcionais não se aplica à disputa para o Senado. Isso reforça a importância de examinar como os partidos selecionam e apoiam os nomes que concorrem às vagas. Senado Federal.

Como funcionam os dois votos para senador

Em 2026, serão eleitos os dois candidatos mais votados em cada estado e no Distrito Federal, sem segundo turno. Os dois votos devem ser destinados a candidatos diferentes: repetir o mesmo número anula o segundo voto. Senado Federal.

Conhecer propostas, trajetória, alianças e atuação pública ajuda a dimensionar o alcance dessa decisão. A escolha para o Senado participa da formação das maiorias que discutirão direitos, recursos públicos e prioridades nacionais pelos próximos oito anos. É uma parte do poder do voto que merece sair da sombra da disputa presidencial.

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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