O poder do voto: escolha nas urnas terão efeitos na política externa, nos direitos trabalhistas e na proteção social
Por otero — Fundação Perseu Abramo
A violência preocupa quem volta para casa à noite. O preço da comida aperta o orçamento; a espera por atendimento médico muda a rotina de uma família. Esses problemas chegam à urna, mas suas soluções não dependem de um único cargo.
Em pesquisa Quaest realizada entre 30 de agosto e 1º de setembro, a violência foi apontada como a principal preocupação do país por 31% dos entrevistados. Vieram depois economia (16%), saúde e corrupção (14% cada), problemas sociais (13%) e educação (7%). O levantamento, contratado pela TV Globo e pelo jornal O Globo, ouviu 2.004 pessoas e foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07065/2026. Dados e metodologia da pesquisa.
A lista ajuda a formular uma pergunta para o voto: quem tem poder para agir sobre cada problema? A resposta passa pelo presidente, pelos governadores, pelos deputados e senadores — e, na execução de muitos serviços, também pelos municípios.
Segurança: responsabilidade estadual, desafio nacional
A segurança pública lidera as preocupações da pesquisa. Para Maximino Fernandes Filho, delegado aposentado, ex-secretário de Segurança Pública de Diadema e ex-comandante da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, o governador tem responsabilidade direta sobre duas instituições centrais.
“O governador é o responsável pelo policiamento preventivo-ostensivo, que é feito pela Polícia Militar, e a Polícia Civil é responsável pela polícia judiciária”, afirma.
A ex-governadora do Pará Ana Júlia Carepa também destaca o peso do governo estadual. Mas reduzir a violência exige cooperação. A União atua por meio da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal, além de coordenar e financiar ações. Os municípios podem participar com políticas de prevenção e guardas municipais.
Essa divisão está no centro de uma discussão no Congresso. A PEC 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública, propõe inserir o Sistema Único de Segurança Pública na Constituição e alterar regras de integração, financiamento e atuação dos órgãos da área.
Em 2 de setembro, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou o texto-base relatado por Rogério Carvalho (PT-SE), mas ainda precisava examinar destaques antes de concluir essa etapa. O relator retirou da proposta um dispositivo que destinava recursos das empresas de apostas à segurança. O texto da PEC ainda pode mudar durante a tramitação. Agência Senado.
O eleitor escolhe, portanto, tanto quem comandará as forças estaduais quanto quem votará as regras nacionais para a área.
Economia: decisões sobre impostos e gastos passam por mais de um poder
Na economia, é comum cobrar do presidente uma resposta para tudo. Eduardo Marques, professor da PUC-Campinas e secretário de Finanças de Hortolândia, distingue a atuação do governo federal da decisão sobre a taxa básica de juros.
“Os juros não dependem do presidente. Eles dependem do Banco Central, que é um órgão autônomo”, diz. A meta da Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária, o Copom. A atuação presidencial sobre os juros é indireta. Banco Central.
O Executivo federal propõe o orçamento e estabelece prioridades de governo. Mudanças em tributos, como as regras do Imposto de Renda, envolvem também o Congresso, que debate e vota as leis. Para Marques, a questão central é observar quem paga a conta: “O problema não é se é muito ou pouco, é de quem você cobra e como cobra”.
A ampliação da isenção do Imposto de Renda para rendimentos mensais de até R$ 5 mil, em vigor em 2026, mostra como uma decisão tributária pode afetar a renda disponível das famílias. Ministério da Fazenda.
Governadores também elaboram orçamentos, administram tributos estaduais e decidem onde investir. E o Congresso influencia a destinação de recursos por meio das emendas parlamentares. Marques critica o tamanho desse poder e defende atenção às prioridades de quem busca uma vaga no Legislativo.
Saúde: de quem cobrar uma consulta que não chega?
Na saúde, a pergunta do eleitor pode ser concreta: quem responde pela consulta que não foi marcada ou pelo tratamento que demora?
O Sistema Único de Saúde é financiado e administrado de forma compartilhada por União, estados e municípios. Em geral, os municípios organizam grande parte da atenção primária; os estados coordenam redes regionais e participam da oferta de serviços especializados; o governo federal define políticas nacionais e repassa recursos. A divisão de tarefas não elimina a responsabilidade conjunta pelo funcionamento da rede. Financiamento do SUS.
Para Caetano Scannavino, coordenador do Projeto Saúde e Alegria, que atua na Amazônia, o debate eleitoral precisa se concentrar nos serviços que a população recebe. “Saúde é vida ou morte. A gente não deveria estar discutindo se é a favor ou contra o SUS, mas como melhorar o atendimento”, afirma.
Ele aponta desafios que continuarão depois da eleição: reduzir filas, dar agilidade aos serviços e ampliar o cuidado a pessoas com doenças raras. São cobranças que exigem identificar a função de cada governo e acompanhar se recursos e decisões chegam ao atendimento.
Educação e questões sociais: a divisão de tarefas importa
Na educação pública, os municípios atuam prioritariamente na educação infantil e no ensino fundamental. Os estados respondem prioritariamente pelo ensino médio e também atuam no fundamental. A União mantém instituições federais e presta apoio técnico e financeiro às demais redes, inclusive por mecanismos como o Fundeb. Constituição Federal, artigo 211.
Essa divisão permite avaliar propostas: uma promessa sobre creches, ensino médio ou universidades precisa ser confrontada com o cargo em disputa e com os recursos necessários para cumpri-la.
As questões sociais também atravessam mais de uma área de governo. Para Eduardo Marques, ampliar oportunidades requer “um projeto de desenvolvimento econômico e social com inclusão e reindustrialização”, capaz de gerar empregos com renda melhor. Além do anúncio de um programa, o eleitor pode cobrar financiamento, continuidade e resultados.
Corrupção: a fiscalização continua depois da eleição
A corrupção também apareceu entre as principais preocupações da Quaest. Ana Júlia Carepa lembra que cabe aos governantes dar transparência ao uso do dinheiro público para que a população possa acompanhar as despesas.
O Congresso tem atribuições de fiscalização, além de discutir leis e orçamento. A cobrança pode começar na campanha, com perguntas sobre propostas e financiamento, e continuar durante o mandato pelo acompanhamento de votações, gastos e prestação de contas.
Para Scannavino, essa atenção não deve se esgotar no dia da eleição: “A democracia não se faz só de quatro em quatro anos, no dia do voto”.
A desigualdade atravessa todas as escolhas
A pesquisa apresenta “problemas sociais” como uma das categorias de resposta. A desigualdade, porém, também aparece na forma como as outras preocupações são vividas: na exposição à violência, no peso dos impostos sobre a renda, no acesso à saúde e nas oportunidades de estudar.
O índice de Gini do rendimento domiciliar por pessoa foi de 0,511 em 2025, segundo o IBGE. O indicador varia de zero, que representa igualdade, a um, que representa concentração máxima de renda. O resultado mostra a permanência de uma desigualdade elevada, mesmo após a melhora registrada em 2024, quando o índice havia chegado a 0,504. IBGE.
“O nosso maior desafio hoje é o clima e o nosso maior problema é a desigualdade. Qualquer projeto que una o social com o ambiental vai contar com o meu apoio”, afirma Scannavino.
Fonte: Fundação Perseu Abramo