O gesto da arma com as mãos já indica o quanto estão longe da divindade
Por Milton Rondó — Carta Capital
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Diplomata
Buscam gerar cortina de fumaça para dividir e governar, não eles próprios, que disso não são capazes, pois nada mais são do que meros vassalos
“Desde suas origens, o Brasil foi constituído como espaço de extração e apropriação, organizado segundo interesses externos e estruturado por formas de domínio que deixaram marcas duradouras na configuração de suas cidades e paisagens” – Guilherme Wisnik
No domingo 4, decidiremos se isso irá mudar ou se aprofundar, caso vença a candidatura neocolonial, miliciana. A esses “adjetivos” podemos acrescentar genocida, uma vez que Jair Bolsonaro, chefe da famiglia, foi responsável pela morte de mais de 700 mil pessoas.
De fato, estamos todos tão submetidos aos horrores do El Niño que não nos damos conta de que o fenômeno, causado pelo aquecimento global e gerado, principalmente, pelos países do Norte, desde o século XVIII, resulta de tal gravidade no Brasil pela hegemonia com que conta o agronegócio, cujo modelo de monocultura diminui em muito a evaporação no Sudeste, gerando bolhas de calor que impedem a passagem das frentes frias provenientes do Sul do Continente. Isso causa com que se precipitem os acumulados nos três Estados sulistas, com enorme violência, por não poderem progredir ao norte.
Em artigo na revista Cult, do qual foi retirada a citação acima, Guilherme Wisnik recorda a ocupação territorial brasileira:
“A ocupação colonial do nosso território se deu, em grande medida, ao longo da faixa litorânea, orientada para o comércio atlântico de mercadorias e de pessoas escravizadas. Esse processo inicial não apenas definiu a localização dos principais núcleos urbanos, como também estabeleceu uma lógica espacial voltada para fora, em detrimento de uma articulação interna mais equilibrada”.
Brasília muito contribuiu para equilibrar isso, mas, ao mesmo tempo, acabou por deixar governantes e governados ainda mais distantes e alheios à população do País.
O golpe de 1964 iria aprofundar esse fosso, do qual ainda temos enorme dificuldade de sair, haja vista o modelo de “cidades universitárias”, fomentado pela ditadura, a fim de segregar os estudantes geográfica e ideologicamente.
A Cidade Universitária, da USP, o Campus do Fundão, da UFRJ, e o do Vale, da UFRGS, são alguns dos exemplos disso.
Por outro lado, são abundantes os prédios públicos ociosos nos centros das cidades, sem que se note uma reivindicação por ocupá-los, embora tenham infraestrutura de transporte, alimentação, cultura e lazer muito superiores às isoladas cidades universitárias.
Ainda no artigo citado, Wisnik acrescenta:
“…as cidades brasileiras foram se configurando como tecidos irregulares, nos quais o espaço privado tende a prevalecer sobre o público. Essa característica constitui uma das bases históricas do patrimonialismo, que se manifesta na dificuldade de consolidação de uma esfera pública plenamente acessível e democrática”.
Isso também se espelha nos atos da familícia, em que o dinheiro público é apropriado por eles comprando mansões, lojas de chocolate e até 51 imóveis, em dinheiro vivo…
Não que essa promiscuidade entre público e privado a eles esteja limitada, como vimos no caso Vorcaro, em que os representantes deles no Legislativo e no Judiciário se lambuzaram, literalmente, no dinheiro roubado de aposentados, para fazerem viagens milionárias, comprarem bens de luxo e participarem de orgias satânicas, tudo sob o falso lema de “Deus, Pátria e Família”, instrumentalizando a fé alheia para seus desígnios mais obscuros.
Com efeito, o impulso ao mal da família é de tal natureza que não poupa até a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, alvo de impropérios daqueles que destinaram recursos de emendas parlamentares a instituições envolvidas com mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista.
De fato, mais se assemelham a reis Midas de Rio das Pedras, pois tudo que tocam é objeto de crime.
Ainda pior, a campanha do desditado candidato — e ele próprio — resolveu acusar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de ter veiculado notícias falsas sobre as agressões da extrema-direita fundamentalista contra Nossa Senhora Aparecida, sendo que até projeto de lei que visava a retirar dela esse título chegou a ser protocolado por aliado próximo do candidato e do pai, preso.
Em sua autobiografia Esperança (editora Fontanar), o Papa Francisco afirma:
“O medo é a origem da escravidão e de toda forma de ditadura, pois é com base na instrumentalização dos temores do povo que crescem a indiferença e a violência. Ele é uma gaiola que nos exclui da felicidade e rouba o futuro. Contudo, basta um único homem, uma única mulher para haver esperança, e esse homem, essa mulher pode ser você. Então, há outro ‘você’, e mais outro, então nos tornamos ‘nós”.
Não esqueçamos disso quando estivermos em frente à urna.
O mais terrível de toda essa ideologia individualista, belicista e causadora de divisões é que se reivindica cristã, uma impossibilidade total, pois como bem pontuou Francisco em sua autobiografia e Leão XIV tem reiterado sempre: “Não existe um deus da guerra: quem faz a guerra é o maligno. Deus é paz”.
O simples fato de fazerem o gesto da arma com as mãos, em direção de outras pessoas, indica o quanto estão adoecidos mentalmente e quão longe, na verdade, encontram-se da divindade, qualquer que seja o nome que lhe atribuamos de acordo com nossas diversas tradições religiosas, com as quais somos enriquecidos neste País, ainda mais do que nossas próprias riquezas minerais e naturais, já prometidas pelos vendilhões do templo a seus amos, Tramposo e Narco Rubio.
Assim, buscam gerar cortina de fumaça para dividir e governar, não eles próprios, que disso não são capazes, pois nada mais são do que meros vassalos, mas permitir que os suseranos imperiais de fato nos recolonizem e se locupletem do que não lhes pertence, nem nunca pertencerá.
Às urnas!
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Fonte: Carta Capital