César Callegari: “Precisamos formar pessoas capazes de comandar a inteligência artificial, e não serem comandadas por ela”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – A expansão da inteligência artificial coloca a educação brasileira diante de uma mudança que vai muito além da adoção de novas ferramentas em salas de aula. Para o presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), César Callegari, o desafio central é impedir que a tecnologia substitua a formação humana e transformar as escolas em espaços capazes de preparar estudantes para controlar essas ferramentas, em vez de simplesmente consumir aquilo que elas produzem.
Em entrevista ao programa Nocaute com Fernando Morais, Callegari afirmou que a disseminação da inteligência artificial torna ainda mais necessária uma educação baseada em pensamento crítico, criatividade, capacidade de interpretação e formulação de perguntas. Ao mesmo tempo, advertiu para o avanço daquilo que chama de “plataformização” do ensino, processo no qual conteúdos padronizados, aulas gravadas e sistemas digitais passam a ocupar funções antes exercidas diretamente pelos professores.
“O que nós precisamos fazer hoje é formar perguntadores, produtores de prompts inteligentes, capazes de comandar a inteligência artificial e não serem comandados por ela”, afirmou.
A declaração sintetiza uma mudança que, segundo Callegari, precisa ocorrer no próprio conceito de educação. Em um ambiente no qual sistemas de inteligência artificial conseguem produzir textos, organizar informações e responder perguntas em poucos segundos, a escola não pode continuar estruturada apenas em torno da transmissão de conteúdos.
O papel da educação, sustenta, passa cada vez mais pela capacidade de ensinar crianças e jovens a interpretar, questionar e contextualizar aquilo que recebem.
Inteligência artificial chega às escolas
Callegari afirmou que o Conselho Nacional de Educação vem discutindo parâmetros para orientar a utilização da inteligência artificial nas diferentes etapas do ensino.
Segundo ele, o avanço dessas tecnologias já afeta desde a educação básica até a pós-graduação.
Um dos exemplos citados está na produção acadêmica. Ferramentas generativas são capazes de elaborar textos extensos a partir de comandos fornecidos pelo usuário, o que cria novos problemas para processos tradicionais de avaliação.
“Hoje em dia, quando alguém está concluindo um curso de mestrado ou doutorado, até pouco tempo atrás a avaliação final era a dissertação de mestrado e a tese de doutorado. Se você hoje fizer comandos minimamente razoáveis, a IA produz uma tese de doutorado, uma dissertação de mestrado”, disse.
O problema, para Callegari, não pode ser enfrentado apenas proibindo ferramentas. A transformação tecnológica exige repensar o que se espera que um estudante demonstre ao concluir sua formação.
Nesse cenário, ganha importância a capacidade de formular problemas, avaliar fontes, reconhecer erros, confrontar informações e assumir responsabilidade pelo conhecimento produzido.
“Nós estamos tomando várias providências, inclusive com níveis de risco e protocolos sugeridos para as instituições de ensino adotarem providências para que haja sempre uma prevalência do humano nesse processo todo”, afirmou.
A ameaça da “plataformização”
Se a inteligência artificial pode ser incorporada ao processo educacional, Callegari identifica outro fenômeno que considera problemático: a tentativa de transformar a própria educação em um sistema de distribuição automatizada de conteúdos.
Ele define esse movimento como “plataformização”.
“São pacotes prontos, aulas prontas. Pacotes que às vezes são gravados em qualquer lugar e são colocados como aulas, e plataformas inclusive de avaliação para saber se o estudante está acompanhando ou não”, explicou.
O presidente do CNE sustenta que a utilização dessas ferramentas deixa de ser apenas uma questão tecnológica quando plataformas começam a assumir funções pedagógicas e reduzem a autonomia dos professores.
“Essa plataformização pretende substituir o professor”, alertou.
Callegari citou a rede estadual de São Paulo ao criticar esse modelo. Na avaliação dele, a adoção intensiva de plataformas digitais pode levar à padronização do processo de aprendizagem e recuperar uma concepção segundo a qual educar consiste essencialmente em disponibilizar conteúdos aos estudantes.
Para ele, trata-se de uma visão incompatível com as competências que o próprio avanço tecnológico passa a exigir.
“Como se apenas proporcionar acesso a conteúdos pudesse significar educação”, afirmou.
Tecnologia aumenta importância do professor
A aparente contradição está no centro do argumento apresentado por Callegari: quanto maior a capacidade das máquinas de produzir e distribuir informações, menos sentido existe em organizar a escola exclusivamente em torno da transmissão dessas informações.
Isso não reduziria a importância do professor. Para ele, ocorre justamente o contrário.
O docente passa a exercer um papel ainda mais relacionado à mediação, à contextualização e ao desenvolvimento da autonomia intelectual.
“A educação é experimentação. Você tem que experimentar, tem que ousar, tem que errar”, afirmou.
Callegari contrapõe essa concepção ao modelo em que estudantes recebem conteúdos padronizados e são avaliados por sistemas igualmente padronizados.
A escola, argumenta, deve oferecer condições para que crianças e jovens confrontem diferentes ideias, desenvolvam hipóteses e aprendam a formular perguntas.
“Nós temos que formar rebeldes, rebeldes com causa, não conformistas, aqueles que questionam, sabem perguntar”, disse.
Essa capacidade de questionamento adquire outra dimensão diante da inteligência artificial. Se uma ferramenta pode responder rapidamente a uma pergunta, a qualidade da aprendizagem dependerá cada vez mais da capacidade humana de saber o que perguntar, avaliar a resposta e compreender seus limites.
Pensamento crítico no centro da formação
Durante a entrevista, Callegari relacionou esse debate às mudanças no mercado de trabalho. Segundo ele, competências como criatividade, flexibilidade, pensamento crítico e compreensão de contexto passaram a ocupar espaço crescente nas discussões sobre as profissões do futuro.
Esse movimento impõe uma contradição às políticas educacionais baseadas na simples reprodução de conteúdos.
Uma escola organizada para exigir respostas previamente definidas pode preparar estudantes justamente para tarefas que sistemas automatizados passam a executar com velocidade crescente.
Para Callegari, a educação precisa caminhar na direção oposta.
“A competência mais importante que deve ser proporcionada, da educação infantil ao ensino superior e à pós-graduação, é a capacidade de ter essa visão contextualizada, com pensamento crítico, saber perguntar”, afirmou.
Nesse modelo, aprender deixa de significar apenas acumular informações. Passa também por compreender relações entre fatos, distinguir argumentos, elaborar problemas e tomar decisões diante de informações contraditórias.
O risco de retirar o humano da educação
A discussão sobre inteligência artificial envolve ainda uma questão que Callegari considera decisiva: quem responde pelas decisões tomadas com auxílio dessas ferramentas.
Para ele, sistemas tecnológicos não podem assumir a responsabilidade que pertence aos profissionais e às instituições educacionais.
Por isso, a adoção de IA deveria preservar o que definiu como “prevalência do humano”.
A preocupação ganha importância porque a tecnologia pode ser apresentada não apenas como ferramenta de apoio, mas como instrumento para reduzir custos, padronizar atividades e diminuir a presença de profissionais no processo educacional.
Essa possibilidade aproxima a inteligência artificial do fenômeno da plataformização.
Na avaliação de Callegari, a tecnologia deve ampliar as possibilidades do professor, e não criar uma estrutura paralela destinada a substituí-lo.
Educação não pode virar distribuição de conteúdo
A crítica também alcança o modelo econômico que se forma em torno das tecnologias educacionais.
Callegari relacionou a expansão das plataformas à presença de grandes grupos privados no setor. O problema, segundo ele, não está na existência de instituições privadas, mas na transformação da educação em um produto cuja organização é determinada prioritariamente por critérios financeiros.
“Educação não é mercadoria”, afirmou.
Para o presidente do CNE, plataformas podem oferecer recursos pedagógicos, materiais, exercícios e instrumentos de avaliação. A fronteira é ultrapassada quando esses mecanismos passam a definir o currículo e a própria dinâmica da sala de aula.
Nesse cenário, o professor corre o risco de deixar de ser responsável pelo processo pedagógico para se tornar executor de atividades previamente determinadas por sistemas externos.
Soberania tecnológica também passa pela escola
Callegari ampliou a discussão ao relacionar educação, tecnologia e soberania nacional.
Segundo ele, grande parte da produção científica brasileira está concentrada nas universidades e instituições públicas de pesquisa. Por isso, políticas de educação superior, ciência e tecnologia têm impacto direto sobre a capacidade do país de desenvolver conhecimento próprio.
Ele também manifestou preocupação com a dependência das grandes empresas internacionais de tecnologia.
“Nós estamos tendo pouca possibilidade de enfrentar o domínio principalmente das big techs”, disse.
Essa dependência não estaria limitada às redes sociais. Sistemas de inteligência artificial, armazenamento de dados, comunicação digital e plataformas utilizadas por instituições públicas também fazem parte da infraestrutura necessária ao funcionamento contemporâneo de um país.
Na interpretação apresentada por Callegari, formar profissionais capazes de compreender e desenvolver essas tecnologias é, portanto, uma questão educacional e de soberania.
O problema começa ainda na educação básica. Ele lembrou que dificuldades acumuladas na aprendizagem de matemática, por exemplo, acabam repercutindo posteriormente na formação de engenheiros, pesquisadores e profissionais das áreas tecnológicas.
“Educação de qualidade em todos os níveis e para todos é absolutamente fundamental para qualquer projeto de soberania”, afirmou.
Quem controla quem
O avanço da inteligência artificial, portanto, não representa para Callegari apenas uma discussão sobre quais programas podem ou não ser usados dentro das escolas.
A questão envolve o próprio objetivo da educação.
Se máquinas conseguem armazenar mais informações do que qualquer pessoa e produzir respostas instantaneamente, a vantagem humana não estará na tentativa de competir com essa capacidade de processamento, mas em desenvolver aquilo que permite compreender, contestar e direcionar a tecnologia.
Nesse cenário, professores continuam ocupando posição central. São eles, segundo a visão apresentada pelo presidente do CNE, que podem transformar ferramentas tecnológicas em instrumentos de aprendizagem sem permitir que elas determinem o processo pedagógico.
A escolha colocada diante das escolas, portanto, não seria entre aceitar ou rejeitar a inteligência artificial, mas definir quem estabelece os objetivos de sua utilização.
Para Callegari, a resposta passa pela preservação da autonomia intelectual de professores e estudantes.
“Precisamos formar pessoas capazes de comandar a inteligência artificial e não serem comandadas por ela”, resumiu.
Fonte: Brasil 247