Investidores abandonam fundos de crédito novamente; saídas já chegam a R$ 121 bilhões em 12 meses

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Por Monique Lima — Seu Dinheiro

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O mercado de fundos de crédito parecia finalmente respirar em agosto. Depois de seis meses consecutivos de retirada de recursos, os fundos de crédito tradicional voltaram a registrar entrada líquida de dinheiro, alimentando a expectativa de que o pior da onda de resgates tivesse ficado para trás.

Mas a trégua durou pouco.

Dados parciais de setembro mostram que os investidores voltaram a sacar recursos desses fundos, frustrando a perspectiva de uma retomada da indústria e acendendo um alerta entre gestores.

Os fundos de crédito tradicional

Relatório elaborado pelo BTG Pactual mostra que os fundos de crédito tradicional encerraram agosto com captação líquida de R$ 6 bilhões, equivalente a 0,3% do patrimônio líquido desses ativos.

A amostra do banco considera 550 fundos com pelo menos 10% do patrimônio alocado em crédito privado, como debêntures corporativas, CRIs, CRAs, notas comerciais e outros títulos de dívida de empresas.

Foi o primeiro resultado positivo desses fundos depois de meio ano de saídas consecutivas.

A leitura naquele momento era de que a indústria poderia estar passando por uma inflexão, com o maior volume de saídas ficando para trás.

Mas os números de setembro jogaram um balde de água fria nessa expectativa.

Até o dia 21, os fundos de crédito tradicional já acumulavam resgates líquidos de R$ 4 bilhões, ou 0,2% do patrimônio líquido.

No acumulado de 2026, as saídas chegam a R$ 89 bilhões.

Quando a conta considera os últimos 12 meses, o rombo alcança R$ 121 bilhões, equivalente a 6,3% do patrimônio da indústria.

Fundos de infraestrutura isentos estão piores

Se o quadro dos fundos de crédito tradicional já inspira cautela, o cenário dos fundos de infraestrutura isentos é ainda mais delicado.

Esses fundos ficaram populares nos últimos anos por replicarem o benefício tributário das debêntures incentivadas — principal ativo da carteira. Ou seja, eles não têm cobrança de imposto de renda sobre o retorno.

Na prática, muitos investidores passaram a enxergar os fundos de infraestrutura como uma forma de acessar a isenção das debêntures incentivadas sem precisar escolher cada papel individualmente.

Mas, agora, essa classe enfrenta uma pressão maior que a dos fundos tradicionais de crédito.

Segundo o BTG, os fundos de infraestrutura caminham para o sexto mês consecutivo de resgates. A amostra do banco considera 1.900 fundos.

Em agosto, as saídas haviam desacelerado para R$ 1 bilhão, equivalente a 0,4% do patrimônio líquido, sugerindo alguma estabilização. Mas setembro trouxe uma piora expressiva.

Até o dia 21, os resgates já somavam R$ 4 bilhões, ou 1,2% do patrimônio da indústria.

A principal diferença em relação aos fundos tradicionais está justamente na intensidade dos resgates. Enquanto os fundos tradicionais registram saídas de 4,3% do patrimônio líquido em 2026, os fundos de infraestrutura já perderam 6,4% — somando um total de R$ 19 bilhões.

Como isso afeta o investidor

O resgate em si é ruim, mas as consequências dessas saídas são bem piores.

Quando um investidor pede o dinheiro de volta de um fundo de plataforma, o gestor desse fundo precisa buscar recursos para honrar aquele saque.

Se não há caixa suficiente disponível, só resta vender ativos da carteira.

Ou seja, o gestor precisa de desfazer de posições que ele escolheu ao longo de meses para honrar o resgate. Ele perde a posição, o valor em patrimônio líquido e ainda corre o risco de vender aquele papel numa situação desvantajosa, recebendo menos do que deveria por aquele título.

Se muitos cotistas resolvem sacar dinheiro ao mesmo tempo, todo esse cenário ganha proporções maiores.

Quanto mais títulos são colocados à venda por diferentes fundos, maior tende a ser a desvalorização de preços das debêntures.

Para os fundos, isso significa um golpe duplo sobre o patrimônio:

  • queda pela venda das debêntures, e
  • perda pela desvalorização dos papéis que ficaram na carteira.

Ou seja, as ondas de resgate pioram o desempenho dos fundos de infraestrutura e de crédito tradicional.

E quando o desempenho piora, mais investidores decidem resgatar seus recursos.

É justamente esse círculo vicioso que preocupa os gestores neste momento.

O próprio BTG afirma que a principal dúvida do mercado é saber se a combinação de pressão vendedora para honrar resgates, desvalorização das debêntures e novas retiradas de recursos pode se perpetuar por mais tempo.

Para onde o dinheiro está indo

Embora estejam saindo dos fundos de crédito, os recursos dos investidores continuam na renda fixa.

Os dados do BTG mostram que o principal destino desse dinheiro tem sido o Tesouro Direto e os títulos de emissão bancária — considerados mais seguros que o crédito privado.

Enquanto os títulos do Tesouro Direto têm a garantia da União, os papéis de emissão bancária, como CDBs, LCIs e LCAs tem o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como garantia externa para aplicações até R$ 250 mil por CPF e instituição financeira.

Ou seja, ambos oferecem mais garantias que o crédito privado, que só conta com as condições de pagamento do emissor como salvaguarda.

O relatório do banco mostra que o estoque investido em títulos públicos chegou a R$ 366 bilhões em julho, após um crescimento de 39% no acumulado do ano.

Já entre os instrumentos de emissão bancária, o estoque de CDBs chegou a R$ 3,2 trilhões ao final de agosto, com expansão de 12,1% no ano. As Letras de Crédito (LCIs, LCAs e LIG), por sua vez, alcançaram R$ 1,2 trilhão em agosto, com o estoque mantendo-se praticamente estável em relação ao fim de 2025.

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Fonte: Seu Dinheiro

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