Já se pode afirmar o sucesso da ingerência dos EUA nas eleições brasileiras

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Por Fernando Horta — Brasil 247

Democracias, diz a teoria, são o governo de muitos. Diferente de regimes ditatoriais em que todas as instâncias do Estado estão submetidas às decisões diretas ou influência imediata de um ou um conjunto de poucas pessoas ligadas a uma liderança sem legitimidade democrática, nas democracias há um padrão complexo e interconectado de decisões e de responsabilidades. Essa fragmentação não apenas de quem detém o poder, mas de quem aplica os diversos poderes da república é – em sentido teórico – uma garantia contra o arbítrio.

Se muitos operam os poderes, muitos são também os pontos de pressão que podem ser aplicados quando há interesse em decisões diferentes daquelas que o tomador de decisão – deixado sem pressão – tomaria. Se Nunes Marques fosse deixado apenas com sua consciência ele teria desempatado o julgamento dos precatórios das indústrias açucareiras em favor do Banco Master? Nunca saberemos, mas certamente ter um contrato de 427 milhões assinado com interlocutores próximos geram 427 milhões de razões novas para o voto em favor de Vorcaro. E razões eloquentes.

O mesmo pensamento acontece em todo sujeito que opera o poder público. Cada decisão (de fazer ou deixar de fazer algo) pode ser alvo de pressões externas. Tomemos a ABIN, por exemplo, criada em 1999 para ser uma espécie de “inteligência civil” (em oposição ao famigerado SNI de Golbery e Figueiredo) a agência nunca conseguiu se livrar da tutela militar. Seja porque estava submetida ao inútil GSI ou porque tem seu diretor escolhidos dos quadros da PF (que funciona por hierarquização quasi-militar). A ABIN está com orçamento cortado, seu direito indiciado ainda pelas confusões do ex-governo bolsonaro, seus funcionários ameaçando greves, enfrentando insegurança jurídica sobre sua cadeia de comando e resposta e sem um detalhamento claro sobre um plano de carreira para seus servidores. Ainda assim, com todos esses problemas, foi a única das instituições brasileiras a nomear os EUA e avisar da ingerência estrangeira durante as eleições. Poderia ter se calado.

O quadro que montei acima lista TODAS as instituições brasileiras responsáveis pela ação sinérgica na proteção da soberania brasileira. Veja que das 12 instituições que a Constituição garantiu algum grau de autonomia e legitimidade para proteger nossa soberania, SOMENTE a ABIN e a presidência da República estão sinalizando “algo de errado que não está certo”. Todas as outras estão silentes. Como se desinteressadas do que está acontecendo.

Na semana que a toda a mídia volta a mostrar a ingerência norte-americana não como um “se”, mas como um “já agora” nenhuma das instituições responsáveis fala algo. Menção aqui ao eloquente e tonitroante CDCiber (Centro de Defesa Cibernética) que durante o governo Bolsonaro (sob controle do General Héber Portella) fez um carnaval de ataques às urnas denunciando tudo o que não tinha provas para denunciar contra a eleição de 2022. Toda aquela energia e mobilização contra o “inimigo interno” agora é só silêncio. Aliás, é pior. Entre 21 e 25 de setembro – agora – o exército participou de um exercício chamado “Guardião Cibernético” em conjunto com outras 14 nações (que ninguém sabe quem são porque a lista não foi divulgada) para nos proteger de “ataques cibernéticos complexos e coordenados” com zero menção à ingerência estrangeira ou eleição.

O ataque de André Mendonça no STF, PF e Procuradoria Geral (com o relatório ilegal apresentado no dia 15) desabilitou de uma só vez – como mostra o quadro acima – todo nosso bloco de defesa do judiciário. O STF, a PF e o MP estão paralisados com uma única ação de um indivíduo. Isso, aliás, está previsto na lei de terrorismo. Mendonça, Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro se enquadram perfeitamente no que a lei anti-terrorismo delimita. Se a investigação proposta por Mendonça sobre Moraes tivesse seguido os trâmites normais, mantida em sigilo, autorizada pelo Supremo com parecer da PGR estava tudo certo. Quando é feita de forma espalhafatosa, sem provas, para gerar manchetes de jornais e termina pela desabilitação do STF da sua função de comandar a proteção brasileira contra a ingerência dos EUA em nossa eleição, então ela é sim uma ação terrorista que impossibilita um dos poderes de cumprir sua função de proteger o Estado brasileiro. Tem o mesmo peso funcional do que uma bomba explodindo um aeroporto e talvez até mais.

Quanto mais eu olho o cenário, mais percebo que toda essa engenharia não foi pensada na mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília que é seu QG de campanha. Financiada pelo BRB que iria comprar o banco master de forma opaca e com autorização pessoal de Ibaneis. Quanto mais estudo, mais me convenço que essa engenharia de ataques às nossas instituições foi pensada em Washington e com ajuda de elementos internos como o MEC da Fundação Lehmann e os contratos da Palantir no Brasil. Ainda essa semana se dão conta de novas empresas de inteligência ligadas ao vice presidente Vance chegando ao Brasil. Devem vir para tomar posse antecipada e já começarem a transição. Estamos de fato desprotegidos. Parece que as instituições estão esperando apenas o presidente Lula perder. Inativas, sonolentas, desmotivadas. Ou talvez com algumas milhões de motivações em dinheiro vivo?

Se ganharmos essa eleição que o presidente Lula mapeie esse momento e que nenhum chefe de instituição que nos deixou nessa semana desprotegido fique no cargo. De covardia já basta a vasta história do regime militar. E que a ABIN receba o reconhecimento que merece. E vire órgão de inteligência civil, com carreira, verba e ligada à presidência da República e a ninguém mais.

Fonte: Brasil 247

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