Na reta final da campanha, Lula e Flávio Bolsonaro disputam voto dos eleitores endividados
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – A nove dias do primeiro turno das eleições presidenciais, a disputa pelo Palácio do Planalto ganhou contornos de forte apelo econômico e social no campo do endividamento das famílias. Na sexta-feira (25), presidente Lula (PT) anunciou a edição de uma Medida Provisória (MP) para proibir o funcionamento de empresas de apostas de quota fixa — as chamadas bets — e cassinos virtuais no país. O movimento provocou reação imediata de seus concorrentes na corrida eleitoral, em especial do senador Flávio Bolsonaro (PL), que acusou o presidente de adotar uma postura “eleitoreira” e apelidou o adversário de “pai do Tigrinho”, relata o jornal O Globo.
A oposição tenta atribuir ao atual governo a responsabilidade pela proliferação das apostas no Brasil, mas o setor teve sua liberação inicial registrada ainda em 2018. As apostas de quota fixa foram autorizadas no país em dezembro daquele ano, por meio da Lei nº 13.756/2018, sancionada pelo então presidente Michel Temer (MDB). O dispositivo legal estabelecia que o Poder Executivo deveria regulamentar e criar mecanismos de fiscalização para a atividade no prazo de até dois anos, prorrogável por igual período. No entanto, ao longo de todo o mandato de Jair Bolsonaro (PL), a exigência de regulamentação foi ignorada, permitindo que as empresas operassem sem tributação, controle formal ou restrições de publicidade no território nacional.
Somente em dezembro de 2023, o governo Lula sancionou a Lei nº 14.790/2023, com o objetivo de fixar tributação, exigir sede no Brasil e impor fiscalização a um mercado que já estava consolidado e operava sem regras. Diante dos crescentes quadros de vício, dependência psicológica e comprometimento da renda das famílias — com forte impacto apontado entre mulheres e beneficiários de programas sociais —, o presidente decidiu editar a Medida Provisória na sexta-feira para proibir a atuação de apostas de quota fixa e jogos virtuais de azar no país.
Pacote de medidas e estratégia para o eleitorado
Além da edição da MP proibindo as plataformas, que necessita de aprovação do Congresso Nacional para ser mantida em definitivo, o presidente anunciou o envio de um projeto de lei ao Parlamento focado na criminalização das bets e de seus operadores. Paralelamente, o governo lançou o “Desenrola 3.0”, nova versão do programa de renegociação de débitos com foco voltado para a repactuação de dívidas antigas das famílias.
A medida do Poder Executivo visa diretamente a aproximação com o eleitorado de centro, mulheres evangélicas e eleitores indecisos. Mapeamentos internos da campanha identificaram que as mulheres residentes na Região Sudeste — sobretudo mães solo ou chefes de família cujos companheiros enfrentam compulsão por jogos — figuram entre os segmentos mais afetados pelas perdas financeiras associadas aos jogos virtuais.
Durante ato político na capital paulista ao lado de Fernando Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo, Lula comparou o impacto das bets a um problema grave de saúde pública e defendeu o fim da atividade. “O cassino está na cozinha, na sala, com criança, com aposentado. É preciso ter um controle. Não é brincadeira, é coisa séria que está afetando a saúde mental das pessoas pobres que jogam para ver se conseguem comprar o pão no dia seguinte. É induzir as pessoas mais necessitadas de que vai resolver a vida jogando. Isso é como um câncer. Ou a gente tira o tumor ou o tumor vai matar a gente”, afirmou o presidente.
Reação da oposição e embate sobre o modelo de apostas
Em evento realizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro e em publicações nas redes sociais, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, acusou Lula de omissão anterior e criticou a proximidade do anúncio com a data da votação. “Lula tem dois filhos que fizeram muito mal ao Brasil: o Lulinha e o Tigrinho. É mais uma vez uma atitude populista, hipócrita, eleitoreira. Ninguém garante que, depois da eleição, ele libere tudo de novo, porque está jogando tudo nas eleições”, declarou o senador.
A acusação foi transmitida na propaganda eleitoral do candidato do PL, levando a coligação de Lula a acionar a Justiça Eleitoral com pedido de direito de resposta, aplicação de multa e interrupção da veiculação do conteúdo.
Ao detalhar sua posição, Flávio Bolsonaro defendeu um modelo intermediário: declarou-se favorável à proibição dos cassinos virtuais, como o “Jogo do Tigrinho”, mas indicou apoio à manutenção das apostas esportivas de quota fixa atreladas a eventos reais, como partidas de futebol. “Sempre fui contra os jogos. Uma coisa é você permitir que brasileiros, por livre e espontânea vontade, possam apostar em jogos que são reais, em jogo de futebol. E mesmo assim tem questionamento. O que Lula permitiu foi a legalização do cassino on-line, do ‘Jogo do Tigrinho’”, disse o senador.
A distinção feita pelo postulante do PL recebeu críticas do também candidato Ronaldo Caiado (PSD). O ex-governador de Goiás afirmou que liberar uma modalidade e vetar outra equivale a “trancar a porta da frente e deixar a janela da casa aberta para o assaltante”, pois “no fim do mês, o dinheiro do trabalhador vai embora do mesmo jeito”. Apesar da declaração, o plano de governo oficial protocolado por Caiado na Justiça Eleitoral não propõe o banimento total, mas sim o endurecimento da fiscalização contra a lavagem de dinheiro do crime organizado e a restrição da publicidade nas redes sociais e meios de comunicação.
O escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante) avaliou que os aplicativos de jogos provocam “dependência grave” em razão do estímulo emocional imediato. “Precisamos terminar com as bets ou taxá-las de maneira concreta, grande. Elas têm que ser taxadas e, de fato, não podemos aceitar milhões e milhões de pessoas asfixiadas pela dependência psicológica das bets”, defendeu.
Fonte: Brasil 247