A ONU não resolve nada mas a Assembleia Geral revela um tesouro sobre o estado do mundo

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Por Mario Vitor Santos — Brasil 247

O indômito discurso do presidente do Irã foi um tapa nas fuças do laranjão um dia após este, no mesmo pódio da Assembleia Geral das Nações Unidas, ameaçar aniquilar seu país. Masoud Pezeshkian lembrou os assassinatos planejados das 168 meninas em Minab, os ataques a hospitais, centros de pesquisa e instalações esportivas, além da morte traiçoeira do aiatolá Ali Khamenei pelos Estados Unidos e a força genocida sionista. Desmascarou a duplicidade de padrões de países que toleram a posse de bombas atômicas pela entidade israelense, mas exigem inspeções contra o programa atômico pacífico iraniano e usam diplomacia como biombo para disparar ataques de surpresa e pelas costas.

Fez questão de reafirmar a generosa e inquebrantável solidariedade a Gaza e à resistência palestina, estabelecendo que ataques ao Irã serão respondidos à altura.

Notável também foi a manifestação da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que agradeceu a Trump por ter retornado à diplomacia e à política.

Na verdade, mais importante do que sua fala foi sua presença. Depois do 3 de janeiro, Rodríguez estava ali, no pódio, sendo a representante institucional de seu país, que se recusa a imolar-se, como aconselham amigos e inimigos. Um definitivo, embora ainda crescente, reconhecimento internacional. Discurso em meio a uma complexa e incerta construção diplomática com a potência opressora, que mantém sequestrado, numa masmorra em Nova York, o presidente constitucional Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores.

Não estavam naquela tribuna a socialite da Flórida, a panamenha Maria “Cori” Machado, nem seu marionete mambembe Edmundo González ou o desocupado Juan Guaidó, cujo “governo” fora reconhecido por dezenas de países ali presentes, alguns dos quais cederam ao aprendiz de usurpador a posse de bilhões em ativos venezuelanos.

A revolução bolivariana segue no poder. Segue apesar de submetida a uma campanha de calúnias. Acusam Delcy de traição a Maduro. De comandar uma entidade tutelada, numa guerra narrativa em que estão unidos Trump, a mídia internacional, a gangue de Corina e boa parcela da esquerda, tanto na Venezuela como fora dela, inclusive no Brasil.

Procuram impingir, a ela e aos outros líderes bolivarianos, a pecha de traidores.

Constrangida pelo fato de ter um presidente feito refém de outro país, Rodríguez conta com apoio de Maduro desde o cárcere. No discurso, agradeceu ao algoz; depois, encontrou-se com ele, quando fez sinais codificados (o V de Maduro e o punho fechado) de resistência na foto oficial. Vem celebrando acordos históricos com o opressor, rompendo o bloqueio, num jogo de perde e ganha em que os números e as condições não estão claros.

Em sua fala de machão decadente, Trump fez questão de dizer que se apropria de riquezas da Venezuela porque são despojos que cabem a um vencedor numa guerra. Essa é a narrativa que quer fazer passar como troféu, no lugar da humilhação de derrotado impotente frente a um Irã fortalecido e altaneiro.

Para além das palavras, porém, a negociação atual com Delcy materializa exatamente aquilo que Maduro perseguia ter com os Estados Unidos nos últimos anos.

Delcy dialoga com Trump do jeito que o próprio Maduro buscou e começou, antes de, em meio à negociação, ser sequestrado.

O sequestrador, que tem Maduro como refém, é o mesmo que, sob o emblema da vitória, reconhece agora o governo bolivariano como nenhum outro antes dele. Para não parecer perder, vende uma vitória total. De passagem, esvazia “Cori”, Guaidó e outras marionetes.

Delcy foi criticada pelos mesmos que elogiariam se fosse Lula a encontrar o laranjão.

Numa situação contraditória, em paz, Delcy, Diosdado Cabello e Jorge Rodríguez mantêm um país em paz. O poder segue nas mãos do bolivarianismo, fazendo e obtendo concessões da entidade mais maligna do planeta, enquanto vão reconstituindo a economia do país, que cresceu mais de 7% no primeiro semestre, apesar de ainda lutar com uma inflação muito alta. Venezuela e Irã vivem processos distintos em seus conflitos e negociações com os EUA, mas há espelhamentos.

Deixaram o plenário da ONU 77 países durante o discurso de Netanyahu. Junto com o Brasil, saíram Chile, Colômbia e Bolívia, governos de (extrema?) direita. Ficaram o Uruguai e a Argentina. Ficaram os Estados Unidos, de Trump, claro. A Venezuela, de Delcy, saiu.

Fonte: Brasil 247

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