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O que está em jogo nas eleições 

No domingo 4 os brasileiros irão às urnas escolher o próximo presidente da República. A estabilidade das pesquisas e o desinteresse transversal pela disputa dificultam a interpretação da vontade popular. Tudo é possível neste momento, inclusive uma definição ainda no primeiro turno, a depender da desidratação das variações do bolsonarismo que terão seus nomes nas urnas. Augusto Cury, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado flertam cada vez mais com a irrelevância.

Após três semanas nas quais o único assunto no País parecia ser a crise no Supremo Tribunal Federal, abriu-se, na reta final da campanha, uma janela por onde adentram temas mais relevantes para o futuro, da soberania à sobrevivência das instituições. Enquanto o debate esteve interditado por uma manobra eleitoreira do ministro André Mendonça, do STF, os eleitores ficaram praticamente impedidos de analisar o currículo dos candidatos. No caso de alguns, da ficha corrida. Algo mudou.

Na segunda-feira 21, o site de ­CartaCapital trouxe à tona conversas via WhatsApp capturadas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro que indicam uma relação mais umbilical com o clã Bolsonaro. O fundador do Master, revelam as mensagens, se esforçou para esconder um jantar com Flávio Bolsonaro e o pai, Jair, quando este ainda não havia sido recolhido à penitenciária por tentativa de golpe. Vorcaro também pressionava, desde 2024, para o comparsa e cunhado Fabiano Zettel liberar as parcelas dos 134 milhões de reais para Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente. “O (­financiamento) mais importante disparado”, frisou.

Também retornou ao noticiário a notória ligação da família com as milícias. Na terça-feira 22, a revista Piauí noticiou a existência de emenda parlamentar do senador, no valor aproximado de 200 mil reais, para um projeto esportivo de ­Robson Calixto, vulgo Peixe, miliciano condenado por envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco.

As novas informações enchem ainda mais o balaio de evidências de que Flávio Bolsonaro reproduziu o tipo de vínculo miliciano com o “irmãozão” banqueiro, a quem prometeu: “Estarei sempre contigo”. Não são só mensagens. Há fotos, inclusive ao lado de Sicário, o capanga de Vorcaro.

O candidato insiste na toada de não prestar esclarecimentos e seu esforço de esconder a verdade conta com o auxílio de tipos peculiares de milícias que fazem de Peixe um amador.

No Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Kassio Nunes Marques nem se ruboriza ao exercer uma parcialidade escancarada. Na quarta-feira 23, o presidente do TSE mandou suspender um material que ligava o senador ao escândalo do Master (não foi o primeiro e provavelmente não será o último), mas manteve uma peça de campanha de Flávio Bolsonaro que associava a eleição de Lula em 2022 ao crime. Diante de um tribunal tão faccioso, não será surpresa se assistirmos a uma onda de desinformação na semana decisiva do primeiro turno.

As big techs também entram no jogo. Por conta própria e sem maiores explicações, o Instagram decidiu tirar do ar um vídeo didático de Fábio Porchat a respeito dos laços entre a Igreja da Lagoinha, o escândalo do Master e o candidato bolsonarista. A “reportagem” de Porchat, baseada em fatos inegáveis, havia alcançado o topo de visualizações em diferentes redes sociais.

Durante a Assembleia-Geral da ONU, Donald Trump mandou um recado, a Lula e a quem pretenda se interpor a seus projetos imperiais. Usará a força, se necessário, para tomar conta da América Latina, o quintal dos Estados Unidos. O presidente brasileiro se antecipou. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, discursou, sob intensos aplausos.

Na busca pelo quarto mandato, Lula não enfrenta um simples adversário. Enfrenta milícias poderosas em uma ação articulada, no Brasil, nas cercanias e em Washington. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ofensiva miliciana’


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Fonte: Carta Capital

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