‘Não existe empresa dos sonhos. Carreira de sucesso é aguentar o rojão’, diz especialista

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Publicado em 24 de Setembro de 2026 às 10:02

Diná Sanchotene

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“Não existe empresa dos sonhos. As organizações contratam você para ter resultados. Carreira de sucesso é isto: aguentar o rojão.” A afirmação é da PhD em Administração e especialista em neurogestão Érica Belon.

Segundo a especialista, há  um romantismo em relação à carreira, mas a realidade aponta para a falta de resiliência emocional dos profissionais, que supõem poder fazer tudo o que desejam dentro da empresa.

“E não é bem assim. Os colaboradores têm que executar e entregar aquilo para o qual foram contratados. Para dar resultado, é necessário fazer coisas de que se gosta e também de que não se gosta”, comenta.

Érica Belon esteve em Vitória, no dia 17 de setembro, para palestrar no II Fórum Capixaba de Administração, promovido pelo Conselho Regional de Administração do Espírito Santo (CRA-ES). O evento reuniu profissionais, especialistas e lideranças para discutir o futuro do setor.

Em entrevista a A GAZETA , a especialista falou sobre comportamento corporativo e destacou o que é preciso para se tornar um profissional de destaque nas organizações.

O que seria uma carreira dos sonhos?  

Existe uma cultura no Brasil em que as pessoas romantizam as carreiras. O que se vende é a história de que você terá uma carreira dos sonhos, que existe uma empresa dos sonhos. Tudo isso é romantismo; não existe nada disso. O que existe é você escolher um local, uma carreira que queira seguir e entregar resultados.

Na verdade, ao lidar com o “sonho” dentro da empresa, o profissional busca transferir a responsabilidade por suas próprias feridas emocionais. Por que digo isso? Porque vemos diariamente, no mercado de trabalho, pessoas que buscam na organização o refúgio que falta em suas casas. O gestor não é pai nem mãe de ninguém. O profissional é contratado para dar resultados — e ponto final.

O que falta para que esse quadro mude?  

Há uma falta de resiliência emocional por parte dos profissionais, que acham que, dentro da empresa, poderão fazer tudo o que quiserem. Não é bem assim. Os colaboradores têm que executar e entregar o trabalho para o qual foram contratados. E, para gerar resultados, é necessário fazer coisas de que se gosta e de que não se gosta também.

Portanto, não existe nada de sonho. Costumo brincar com os meus alunos que há três tipos de profissionais que trabalham com o sonho: Freud, que adorava o assunto; o padeiro, que faz o doce; e o funcionário da Disney. Como não somos pacientes de Freud, padeiros nem funcionários da Disney, temos que trabalhar com a realidade. E qual é a realidade? Você é contratado para cumprir suas tarefas e gerar resultados.

Se o profissional tiver dificuldades, precisará de ajuda para lidar com isso. Mas vale salientar que, na empresa, ninguém vai passar a mão na sua cabeça nem fazer o trabalho por você.

Acredito que esse movimento romântico alimentado pelo mercado tem gerado uma frustração muito grande em quem entra em uma organização acreditando que vai encontrar um parque de diversões. E não vai.

Essa quebra de expectativa tem feito as pessoas adoecerem mais?  

Se você me perguntar se as empresas adoecem o profissional, posso responder que sim e que não. Vamos analisar sob a ótica da saúde mental: se sou uma excelente profissional, não preciso trabalhar em um local onde seja humilhada, perseguida ou onde me imponham metas que fogem da minha capacidade de entrega. Eu posso sair.

O problema é que muitas pessoas já chegam às empresas doentes, por conta de um casamento complicado, de uma relação tóxica ou da dificuldade de se relacionar com os pais, por exemplo. O mercado corporativo acaba sendo apenas o gatilho.

Se cresci em um ambiente de gritaria, rejeição ou violência, qualquer pressão sofrida no trabalho vira uma bola de neve. Isso ocorre porque existe uma diferença muito grande entre assédio moral e pressão.

A pessoa que permanece nessas circunstâncias tem uma deficiência emocional que precisa ser tratada. É semelhante a alguém que se mantém em um relacionamento tóxico por dependência emocional.

Cobrança e feedback , por exemplo, fazem parte do ambiente corporativo. A empresa é uma pessoa jurídica; quem adoece são as pessoas no convívio interpessoal. Contudo, precisamos aprender a nos blindar contra relações tóxicas. E isso a empresa não vai fazer por você, pois não é o papel dela.

O que um profissional precisa fazer para ter sucesso na carreira?  

O trabalhador precisa ter clareza do que quer da vida. Deve se perguntar que tipo de vivência deseja ter para, então, desenhar sua carreira. Há quem estabeleça o sábado e o domingo como inegociáveis. Nesse caso, a pessoa não pode ser médica obstetra, pois os bebês nascem também no fim de semana. 

Percebo que muitos profissionais primeiro escolhem a carreira para depois pensar na vida, quando deveria ser o contrário. Quem tem muito sucesso tem clareza quanto a isso.

Qual comportamento o profissional deve adotar para alcançar esse equilíbrio?  

A primeira coisa é desenvolver a inteligência emocional para saber lidar com os acontecimentos diários. O colaborador vai trabalhar com pessoas legais e pessoas difíceis, que tentarão puxar seu tapete, assim como trabalhará com quem vai ajudá-lo.

Se o profissional não tiver inteligência emocional para gerenciar tudo isso, não para em emprego nenhum.

É por isso que vemos rotatividade constante nas organizações. No primeiro obstáculo, o trabalhador pede demissão. Ele não entende que o problema não está na empresa, mas na sua incapacidade de lidar com as situações cotidianas. Então, terceiriza a responsabilidade.

Quantas vezes ouvimos: “Saí de lá porque meu chefe me humilhava”? Na verdade, a pessoa saiu porque não sabia lidar com o que o chefe provocava nela. Inteligência emocional, clareza e resiliência são habilidades dos profissionais de grande sucesso. Sem elas, a pessoa passará a vida trocando de emprego.

Como lidar com o choque de gerações nas organizações?  

A questão geracional é latente em qualquer empresa. Isso não vai mudar. Quem atua na gestão precisa ter flexibilidade cognitiva para lidar com quem está chegando. Por outro lado, quem chega também precisa desenvolver o respeito por quem já estava lá. Não se trata de concorrência: as duas gerações se complementam.

O problema é que quem está chegando quer ditar as regras do jogo. Mas quem define as regras é quem paga a conta. São dois públicos que muitas vezes não conversam porque tentam competir, quando falta inteligência para se somarem.

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Como desenvolver essa inteligência emocional?  

A inteligência emocional é dividida em cinco pilares. O primeiro é a autoconsciência emocional, que consiste em reconhecer o que se está sentindo. O segundo é a autogestão: você deve gerenciar os próprios sentimentos para não “sangrar” em cima dos outros — ninguém tem nada a ver com os seus problemas.

O terceiro pilar é a automotivação, ou seja, manter-se motivado independentemente do ambiente, pois a motivação vem de dentro para fora.

O quarto é a empatia: a capacidade de se colocar no lugar do outro sem carregar o lixo emocional dele, compreendendo que cada um lida com suas escolhas. E o quinto pilar é o relacionamento interpessoal, que envolve saber conviver e transitar entre as pessoas.

Por que muitos têm dificuldade? Porque buscam o autodesenvolvimento antes do autoconhecimento. Quando você não se conhece, torna-se impossível se desenvolver.

O que o profissional deve fazer quando identifica essa fragilidade?

A melhor alternativa, quando se nota fragilidade emocional, é buscar acompanhamento terapêutico. A terapia ajuda a organizar pensamentos, a estruturar a mente e a entender por que vale ou não a pena sofrer. Após desenvolver o autoconhecimento proporcionado pela terapia, a pessoa está pronta para buscar cursos de capacitação.

Existem diversos cursos de inteligência emocional, mas, enquanto você não se reconhecer e não entender que a vida é sobre você — e não sobre o outro —, nada muda. O outro não tem poder de afetá-lo, a menos que você permita.

Vivemos em um mundo acelerado e cercado de tecnologia. Como lidar com isso? Tudo se resume à clareza. A pergunta central é: o que você quer da vida?  Quando se tem clareza, todos os hábitos se alinham ao foco. Já quando não se sabe o que quer, a pessoa passa horas nas redes sociais. Não é a rede social que prejudica o ser humano, mas sim a falta de objetivo e de propósito.

Há quem acorde de manhã e, ao meio-dia, não tenha produzido nada. Isso acontece pela falta de metas claras. Acabamos usando a tecnologia e outros fatores como desculpas para os nossos próprios problemas.

A inteligência artificial vem sendo muito utilizada. De que forma ela pode ajudar nas tarefas?  

A inteligência artificial ajuda muito os profissionais que têm clareza. O funcionário de visão rasa usa a IA apenas como um buscador simples e não passa da página dois.

Já quem tem uma carreira sólida extrai o verdadeiro valor da ferramenta. A pessoa que acha que usar IA é apenas fazer uma pergunta para estruturar um texto vive uma experiência superficial e não aproveita o potencial da tecnologia.

Quem se beneficia dessa ferramenta é quem tem maturidade profissional, sabe o que quer e utiliza a IA como parceira de trabalho — e não para “salvar a pátria”. Ninguém sustenta uma carreira por muito tempo agindo de forma rasa.

Quais são as habilidades essenciais para quem deseja progredir?

O Fórum Econômico Mundial lista dez habilidades necessárias para a sustentabilidade do profissional no mercado. No entanto, se falarmos das básicas — que garantem a permanência no setor —, veremos que continuam as mesmas de sempre.

O fórum cita a capacidade de resolver problemas complexos. Hoje, a IA já resolve boa parte desses problemas. Entretanto, se você não souber se relacionar com as pessoas, essa habilidade técnica se torna secundária. Ter um bom networking , ser colaborativo, disciplinado e resiliente são exigências desde que o mundo é mundo.

A tecnologia agrega valor às competências, mas, sem a base comportamental, nenhuma ferramenta substitui o profissional. A robotização pode assumir processos, mas o sentimento de empatia, o relacionamento e a compaixão continuam sendo privilégios humanos.

Como os jovens têm se comportado no ambiente corporativo?  

O conceito de “carreira romântica” costuma ficar restrito à sala de aula. Muitos jovens chegam ao mercado achando que a empresa é um playground e que o chefe agirá como pai ou mãe.

As entregas no ambiente corporativo não funcionam como na faculdade, onde se pode negociar prazos com o professor. A rotina da empresa não se parece com a teoria universitária. Na prática, aprende-se a ser profissional no dia a dia do mercado. E quem se mantém? O melhor. O profissional apenas “bom” muitas vezes fica estagnado; permanece empregado aquele que se destaca. Se surgir alguém com melhor desempenho, a substituição ocorre naturalmente.

A empresa opera sob a lógica de resultados. Se não houver a maturidade de entender que criança faz o que quer e adulto faz o que precisa ser feito, continuaremos vendo essa alta rotatividade nas organizações. Isso não é exclusivo da geração atual — há pessoas de 50 anos que ainda não se consolidaram profissionalmente. Não é apenas uma questão geracional, mas de maturidade profissional.

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