Lula mira neutralidade do PSD e busca ponte com Cury no 2º turno
Por Otávio Rosso — Brasil 247
247 – A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a trabalhar com um cenário mais restrito de alianças para uma eventual segunda etapa da eleição presidencial contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Diante do crescimento do bolsonarista nas pesquisas, aliados do petista tentam ao menos neutralizar o PSD, partido de Ronaldo Caiado, e abrir canais de diálogo com o entorno de Augusto Cury (Avante). As informações foram publicadas pela Folha de São Paulo.
A avaliação entre articuladores de Lula é que a possibilidade de vitória no primeiro turno, considerada por petistas meses atrás, tornou-se inviável na reta final da campanha, a pouco mais de uma semana da eleição.
O principal obstáculo para o presidente é o perfil dos adversários que devem ficar fora de um eventual segundo turno. A maior parte deles está no campo antipetista, o que tende a dificultar apoios formais a Lula na disputa decisiva e favorecer a transferência de votos para Flávio Bolsonaro.
Um dos focos da articulação lulista é o PSD, de Ronaldo Caiado. O governador apareceu com 4% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, que tem margem de erro de dois pontos percentuais. Aliados de Lula consideram muito difícil um acordo direto com Caiado, mas avaliam que a legenda poderia adotar uma posição de neutralidade nacional.
Nesse caso, a negociação passaria pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, vice na chapa de Caiado. Uma eventual neutralidade da sigla abriria espaço para que Lula buscasse apoios regionais de lideranças pessedistas, algumas das quais já estão com o presidente no primeiro turno.
A avaliação de integrantes da campanha petista é que parte do eleitorado de Caiado pertence a uma direita tradicional que rejeita Lula, mas também demonstra resistência a Flávio Bolsonaro. A estratégia, nesse cálculo, seria tentar reduzir a vantagem do candidato do PL nesse segmento, explorando a rejeição ao bolsonarismo.
Outro movimento em curso envolve Augusto Cury, terceiro colocado nas pesquisas. O candidato do Avante registrou 6% das intenções de voto no Datafolha e tem afirmado que não apoiará nem Lula nem Flávio Bolsonaro em caso de segundo turno. Ainda assim, articuladores do presidente buscam aproximação com pessoas próximas ao escritor.
Dentro do Avante, Lula já conta com setores alinhados à sua base. Um exemplo citado é o da Bahia, onde o presidente estadual do partido, o deputado Ronaldo Carletto, é primeiro suplente na candidatura de Rui Costa (PT) ao Senado. Costa é um dos principais aliados de Lula, foi ministro da Casa Civil e pode voltar ao governo em caso de reeleição do presidente.
O desafio maior está na transferência dos votos dos demais candidatos. Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), ambos identificados com o antipetismo, apareceram no Datafolha com 3% e 2%, respectivamente. Candidaturas menores de esquerda, por sua vez, não passaram de 1% no levantamento.
Segundo a Folha, no grupo formado por eleitores de Cury, Caiado, Renan e Zema, Flávio Bolsonaro aparece com 43% das intenções de voto em um segundo turno, enquanto Lula tem 30%. Outros 26% dizem votar branco, nulo ou em nenhum dos dois. A margem de erro nessa amostra é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos.
O quadro representa uma dificuldade inédita para Lula em disputas de segundo turno. Em 1989, quando enfrentou Fernando Collor, o petista recebeu apoios de Leonel Brizola e Mário Covas, derrotados na primeira votação. Em 2002, na eleição em que venceu José Serra, teve o apoio de Anthony Garotinho e Ciro Gomes na etapa decisiva.
Em 2006, quando disputou o segundo turno contra Geraldo Alckmin, Lula não recebeu apoios formais de peso, mas herdou votos de candidaturas de esquerda, como Heloísa Helena e Cristovam Buarque. Já em 2022, contou com o apoio de Simone Tebet e com a adesão do PDT na reta final, ainda que Ciro Gomes não tenha participado da campanha lulista.
Fonte: Brasil 247