América Latina: chave para decifrar o mundo contemporâneo

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Por Emir SaderBrasil 247

A América Latina contemporânea é o melhor exemplo das alternativas e dos dilemas que vive o mundo atual. Em poucas décadas, o continente passou de um período desenvolvimentista a ditaduras militares, viveu governos neoliberais até passar a ser a única região do mundo com governos antineoliberais, até viver governos de restauração neoliberal em alguns países.

A região passou, assim, por modelos hegemônicos diferenciados, até mesmo radicalmente contraditórios, revelando uma tensão e um dinamismo permanente entre as forças fundamentais que se enfrentam em todo o continente e, na verdade, em todo o mundo contemporâneo. Tornou-se, assim, o melhor laboratório de experiências políticas que possuímos hoje no mundo. Uma reflexão sobre esses caminhos é a melhor pista para decifrar a história contemporânea e as perspectivas para o mundo no século XXI.

Por que apelar para a expressão de enigma, para falar do Lula e da América Latina? Depois que o Brasil e a América Latina percorreram o doloroso percurso em direção ao neoliberalismo, adaptando-se à era atual do capitalismo que parecia chegar como tendência irreversível, de que maneira teria sido possível resistir a ela?

Para decifrar esse enigma, é indispensável valer-nos do potencial que só a dialética, captando a realidade com suas contradições concretas, permite. A direita, com seu dogmatismo liberal, e a ultraesquerda, com seu dogmatismo sectário, não conseguem captar as condições históricas concretas que tornaram possível a reação latino-americana, ainda no marco da persistente hegemonia mundial do neoliberalismo.

Lula faz parte desse enigma, do qual passaram a fazer parte outros dirigentes do continente, como Hugo Chávez, Néstor e Cristina Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa, López Obrador.

Para isto, a fim de compreender o marco geral em que se inseriu o surgimento fulminante do neoliberalismo, suas contradições e limites, foi necessário reconstituir as grandes transformações ocorridas no mundo nas últimas décadas do século passado. Nascido do fim da URSS, do término do ciclo expansivo do capitalismo e da crise do Estado de bem-estar social, o período histórico seguinte viu o surgimento do neoliberalismo no marco de um ciclo longo recessivo do capitalismo e da irrupção de uma ideologia liberal de mercado.

Não considero que as crises atuais e os retrocessos em um ou outro país latino-americano configurem um esgotamento do ciclo de governos pós-neoliberais na América Latina. Enquanto o capitalismo seguir no seu ciclo neoliberal, os governos antineoliberais mantêm sua atualidade.

A América Latina, por conta da sua inserção internacional específica, especialmente no século XX e no começo do século XXI, tornou-se referência fundamental para a esquerda em escala mundial. Os seus líderes se tornaram os principais dirigentes da esquerda no mundo não apenas por representarem alternativas ao neoliberalismo, mas por terem colocado em prática essas alternativas em governos que promoveram transformações fundamentais nos seus países e se tornaram paradigmas para a esquerda mundial.

Pelas características que passou a assumir, a esquerda latino-americana, tomando a expressão de Lenin, passou a ser chamada de “elo mais fraco da cadeia” neoliberal e, talvez, do próprio capitalismo. Daí a centralidade da análise da América Latina para compreender a disputa entre o neoliberalismo e o pós-neoliberalismo, para entender o destino do mundo no século XXI.

Fonte: Brasil 247

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