Por oteroFundação Perseu Abramo

A semana foi marcada pela revelação da escala da política de deportação do governo de Donald Trump e por iniciativas de reparação e responsabilização nos Estados Unidos. Uma investigação coordenada pela Forbidden Stories, com 26 veículos de imprensa, revelou que mais de 25 mil pessoas foram deportadas a “países de terceiro mundo” desde janeiro de 2025, muitas vezes sem qualquer vínculo com o destino. Treze nações africanas assinaram acordos com Washington, que prometeu mais de US$ 81 milhões em contrapartidas.

Ainda nos Estados Unidos, as deputadas democratas Ayanna Pressley, Teresa Leger Fernández e Deborah Ross apresentaram projeto de lei para criar um fundo de restituição às sobreviventes de violência sexual, incluindo as vítimas de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell. O custo vitalício do estupro é estimado em US$ 122 mil por vítima, segundo o CDC.

No campo ambiental, um relatório de oito organizações apontou que as emissões decorrentes do uso dos chips da Nvidia podem se equiparar às da queima de carvão vendido pela estatal russa Russian Coal, com a cadeia de suprimentos da fabricante registrando alta de 725% nas emissões desde 2020. No entretenimento, Ed Sheeran pediu desculpas em um discurso lido em teleprompter, após a saída de Macklemore e de todos os artistas que abririam a turnê, e recebeu críticas nas redes sociais.

Vítimas de Epstein enfrentam dificuldades financeiras e deputadas propõem fundo de reparação

Projeto de lei de democratas da Câmara criaria fundo de restituição para sobreviventes de violência sexual cujos direitos foram violados pelo governo federal; custo vitalício do estupro é estimado em US$ 122 mil por vítima

Sobreviventes dos abusos do financista Jeffrey Epstein, condenado por tráfico sexual, relatam enfrentar pressões financeiras extremas enquanto buscam justiça, além do custo psicológico e físico do trauma. Danielle Bensky, uma das vítimas que lideram a cobrança por responsabilização, diz que está sem plano de saúde e paga do próprio bolso por fisioterapia, ioga e tratamento de saúde mental. “Eu adoraria, um dia, ter uma casa e um cachorro”, afirmou. “Acho que esse é o sonho, literalmente:  ter uma existência normal.”

Para enfrentar esse quadro, as deputadas democratas Ayanna Pressley, Teresa Leger Fernández e Deborah Ross apresentaram nesta semana o Survivors’ Rights Restitution Act, projeto que criaria um fundo de restituição no Poder Judiciário “para sobreviventes de violência sexual cujos direitos foram violados pelo governo federal, incluindo todos os sobreviventes de abusos de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell”. A proposta prevê um programa de compensação por danos e perdas, um escritório independente de adjudicação no Tribunal Federal de Reclamações e um fundo no Departamento do Tesouro financiado por valores de confisco ligados a crimes de tráfico e exploração sexual.

Pesquisa do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) estima em US$ 122.461 o custo vitalício do estupro por vítima, incluindo despesas médicas, perda de produtividade e honorários advocatícios. “O fardo financeiro, físico e emocional que sobreviventes de violência sexual carregam é uma sentença de prisão perpétua”, disse Pressley, ela própria sobrevivente de abuso sexual. “Muitas vezes o governo federal foi cúmplice e falhou em cumprir sua obrigação moral e legal.”

Muitas vítimas apoiam a iniciativa, mas a aprovação nas duas casas do Congresso e a sanção do presidente Donald Trump são vistas como improváveis no curto prazo, diante da polarização e das distrações geopolíticas. A sobrevivente Jess Michaels, que teve a carreira de dançarina interrompida após o ataque, resume o custo de longo prazo: “Há algo que acontece quando você tem transtorno de estresse pós-traumático por muito tempo. Isso não simplesmente desaparece.”

(Informações do The Guardian)

Emissões do uso de chips da Nvidia se equiparam às de produtora estatal de carvão russa, diz relatório

Foto: Wickcommons 

Estudo de oito organizações ambientais estima que operar os processadores vendidos desde 2022 pode ter gerado entre 4 e 21 milhões de toneladas de CO₂ em 2025; emissões da cadeia de suprimentos da empresa subiram 725% desde 2020

As emissões decorrentes do uso dos chips da Nvidia podem ser comparáveis às da queima de carvão vendido pela estatal russa Russian Coal, segundo um novo relatório de organizações ambientais e da sociedade civil. O estudo estima que operar os processadores vendidos pela empresa desde 2022 pode ter gerado o equivalente a entre 4 e 21 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2025, a depender da eletricidade usada para alimentá-los.

O relatório aponta ainda que as emissões da cadeia de suprimentos da fabricante americana subiram 725% desde 2020, um aumento de cerca de 9,4 milhões de toneladas. Segundo o Greenpeace East Asia, um dos grupos responsáveis pelo levantamento, “o aumento foi impulsionado principalmente pelas emissões a montante, provenientes da produção dos componentes, materiais e serviços de fabricação necessários para suas GPUs e sistemas de IA”. A Nvidia reporta esses números sob o chamado Escopo 3, que abrange emissões indiretas além de suas próprias operações, e que passaram de cerca de 1,3 milhão de toneladas de CO₂ equivalente em 2020 para 10,7 milhões de toneladas em 2026.

“O maior beneficiário da IA também tem uma das pegadas climáticas mais obscuras e opacas do mundo”, disse Ketan Joshi, autor principal do relatório e analista de clima e energia baseado em Oslo. “As alegações da Nvidia de que a IA tem um ‘benefício climático líquido’ são uma tática de greenwashing usada pela indústria para mascarar uma poluição crescente.” O documento foi publicado por oito grupos de clima, responsabilidade corporativa e campanhas digitais, incluindo Greenpeace International, Friends of the Earth, Beyond Fossil Fuels e Stand.earth.

A Nvidia não divulga atualmente as emissões do uso de seus produtos vendidos, e a estimativa do relatório se baseia nas vendas acumuladas de chips, na utilização presumida e em diferentes fatores de emissão da rede elétrica. A empresa argumenta publicamente que a IA tende a reduzir as emissões no conjunto, citando ganhos de eficiência energética em outros setores. Os autores do estudo, porém, rebatem que esses ganhos podem não compensar o impacto total diante do rápido crescimento da demanda por poder computacional, e pedem mais transparência da companhia, incluindo a divulgação das emissões do uso de seus chips e metas mais claras para cortar as emissões da cadeia de suprimentos.

(Informações da Euronews)

Mais de 25 mil pessoas já foram deportadas pelos EUA a “países de terceiro mundo” desde janeiro de 2025

Foto: Wickcommons

Investigação de 26 veículos coordenada pela Forbidden Stories mapeia a política de deportação de Trump; 13 nações africanas assinaram acordos, e EUA prometeram mais de US$ 81 milhões em contrapartidas

Desde que Donald Trump assumiu a Presidência, em janeiro de 2025, mais de 25 mil pessoas foram deportadas dos Estados Unidos para um país que não é o seu de origem e com o qual, muitas vezes, não têm qualquer vínculo, segundo levantamento conduzido por um consórcio de 26 veículos de imprensa liderado pela Forbidden Stories. A grande maioria — cerca de 20 mil pessoas — foi enviada ao México. Outras ao menos 5.447, de 89 nacionalidades diferentes, foram levadas em voos de deportação até 31 de agosto de 2026 e desembarcadas em diferentes pontos do planeta.

Essas remoções para países de “terceiro mundo” tornaram-se peça central da política migratória repressiva do governo Trump, que nos últimos meses vem fechando um número crescente de acordos de deportação, muitas vezes sob sigilo. Ao todo, 28 países em seis continentes já haviam recebido deportados até o fim de agosto, e Washington concluiu acordos com outras sete nações. Treze países africanos, a maioria na África Ocidental e Central, assinaram acordos com os EUA — mais de um terço do total. Doze deles já haviam recebido deportados, num total de 450 pessoas, com Gana liderando a lista, com mais de 100.

Para garantir os acordos, os EUA prometeram mais de US$ 81 milhões (cerca de 70 milhões de euros) a 13 governos, segundo documentos obtidos pelo Washington Post, incluindo mais de US$ 15 milhões para Guatemala e Honduras. As concessões, porém, também estariam ligadas a interesses geopolíticos e econômicos mais amplos. Um relatório de senadores democratas afirma que “a deportação está sendo usada como moeda de troca”, com os países sendo “pressionados com ameaças de tarifas, proibições de vistos ou cortes de assistência”. No caso de Gana, dias após o anúncio do acordo, os EUA suspenderam as restrições de visto impostas ao país dois meses antes.

Organizações de direitos humanos e advogados denunciam violações durante as transferências, incluindo tratamento degradante e detenção arbitrária. Em El Salvador, mais de 250 homens foram mantidos em uma prisão de segurança máxima destinada a gangues, com “condições desumanas”, segundo a Human Rights Watch. Há ainda preocupação com o chamado “refoulement em cadeia”, quando o deportado é enviado a um outro país para depois ser devolvido ao seu país de origem, onde enfrenta perseguição. Em 18 de setembro, um tribunal federal de apelações dos EUA decidiu que remover pessoas para países “de terceiro mundo” sem lhes dar oportunidade real de alegar temor de tortura ou perseguição é ilegal.

(Informações da France 24, RFI e Forbidden Stories)

Ed Sheeran pede desculpas em discurso lido e recebe críticas nas redes sociais

Cantor se apresentou sozinho na Filadélfia após a saída do cantor Macklemore e de todos os artistas que abririam a turnê; vídeo mostra cantor lendo declaração, e fãs ironizam “sinceridade de teleprompter”

Ed Sheeran subiu ao palco no sábado, 19, pela primeira vez desde que a saída do rapper Macklemore de sua turnê “Loop” desencadeou uma crise que abalou o sucesso da turnê norte-americana. Em um show no Lincoln Financial Field, na Filadélfia, o cantor britânico abriu a apresentação com um pedido de desculpas, visivelmente abalado, e chorou ao agradecer o público no encerramento.

“Esta não é a forma como costumo abrir um show, mas, antes de tocar algumas músicas, espero que tudo bem eu dizer algumas palavras sobre esta última semana”, começou Sheeran. “Estou acostumado a ter minha música criticada, e sempre aceito isso de bom grado. Mas, esta semana, a crítica foi sobre algo muito mais importante. Tive de tomar decisões difíceis, cometi erros, e sinto muito, muito mesmo.”

A polêmica começou em 4 de setembro, quando Macklemore, no show de abertura da turnê, fez um discurso no MetLife Stadium, em Nova Jersey, no qual gritou “Palestina livre” e disse querer que o povo de Gaza e da Cisjordânia ocupada soubesse que “não os esquecemos”. A fala levou o Conselho Israelense-Americano a lançar uma petição pela retirada do rapper, e donos de estádios — entre eles Robert Kraft, bilionário dono do New England Patriots — se recusaram a receber o show com Macklemore no line-up. A produtora Messina Touring Group confirmou a saída do rapper das oito datas restantes.

A decisão provocou um efeito cascata: todos os shows de abertura de Sheeran — incluindo Aaron Rowe, Lukas Graham, a banda Beoga e Finneas O’Connell — abandonaram a turnê. Na Filadélfia, o cantor se apresentou sozinho, sem nenhum show de abertura, e admitiu ter retirado um palco secundário por medo de sua segurança física. “Não sabia se teria coisas atiradas em mim”, disse.

No palco, Sheeran também se posicionou sobre o conflito entre Israel e Palestina, afirmando que “o que aconteceu em Israel no festival de música de 7 de outubro foi horrível” e que “o que está acontecendo em Gaza é catastrófico, injustificável e desproporcional”. O momento, porém, gerou reação nas redes sociais, já que as imagens gravadas mostram o cantor lendo a declaração em um teleprompter. Um usuário comentou no Instagram: “sinceridade de teleprompter”, ironizando a aparente falta de espontaneidade do discurso.

(Informações do The Guardian, Sky News e Rolling Stone)

Fonte: Fundação Perseu Abramo

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