Ópera sobre Marcos Arruda, preso político, estreia em audição em São Paulo
Por otero — Fundação Perseu Abramo
A ópera inédita “Esquecer? Nunca Mais!”, idealizada pelo historiador e ativista estadunidense James N. Green, estreou em audição na noite de terça-feira (16), no Teatro Moise Safra, em São Paulo. A apresentação, em versão reduzida e sem a encenação teatral completa, reuniu cerca de 300 pessoas — entre patrocinadores, imprensa e convidados — para ouvir o primeiro ato de uma obra que revisita a trajetória de Marcos Arruda, militante da Ação Popular e sobrevivente da tortura durante a ditadura militar brasileira.
A narrativa acompanha a infância de Arruda, sua entrada no movimento estudantil, a militância política, a perseguição, a prisão, a tortura e o exílio. O libreto é de Fernanda Maia, com composição de Elodie Bouny e Roee Benn Sira, direção artística de Pablo Maritano e direção cênica de José Henrique de Paula. A dramaturgia se baseia em documentos, cartas e memórias preservadas por Lina, mãe de Arruda.

“Um espaço para dialogar com os conservadores”
Green conheceu a história de Arruda em 1974, quando tinha 23 anos, antes mesmo de vir ao Brasil. “Me marcou muito a história dele”, contou. A ideia da ópera nasceu quando ele traduziu para o inglês o livro que a mãe do militante escreveu sobre a prisão do filho — “A Mother’s Cry”, de Lina Pena Santamini, publicado pela editora norte-americana Duke University Press.
“Eu percebi que no Brasil tem muitos filmes, tem muitas obras de teatro, mas não tem uma ópera”, disse. “É um espaço onde eu quero conquistar um diálogo com os setores mais conservadores, que em geral a ópera é uma mídia mais conservadora, sobre essa realidade da história da ditadura militar.”
O idealizador se disse “totalmente feliz” com o resultado. “A gente está agora na luta para conseguir esse recurso, para realmente concretizar a ópera”, afirmou, explicando que a audição serviu para produzir um mini vídeo de 30 minutos que circulará para atrair interessados e viabilizar o projeto completo.

“Uma história de milhões de histórias”
Marcos Arruda, o homenageado, acompanhou a apresentação da plateia. “É uma experiência muito gratificante”, disse, referindo-se a Green como “o anjo da guarda que criou, sonhou e depois começou a criar isso”. Ele admitiu que a ideia da ópera “nos surpreendeu um pouco no começo, porque não é uma forma muito popular de arte”.
“Eu continuo achando que ele não é muito popular na sua linguagem, e ao mesmo tempo pedindo aos músicos e à companheira que escreve o libreto que eles façam o mais popular possível”, contou. Arruda espera ainda “que vejam essa história como apenas uma de milhões de histórias de gente que acredita que uma humanidade humanizada é possível.”
Ele lembrou ainda que recebeu a extrema-unção durante a tortura e escapou “vivo de uma quase morte”, e disse não ter nenhum arrependimento. “Ao refazer o meu percurso, eu procurei responder a pergunta difícil: o que mobiliza você para lutar, sabendo que podia ser morto nesse caminho?”, pontuou. “A minha guerra é de milhões pelo mundo que acreditam numa outra humanidade”.
Esperançoso quanto ao futuro, ele espera humanizar “o nosso infra-humano” — expressão que toma emprestada do filósofo indiano Sri Aurobindo. “Nós somos todos luz e sombra. Nossa tarefa é trabalhar em nós e fora de nós para que as luzes prevaleçam sobre as sombras”.

Compor a quatro mãos
A composição é assinada por uma dupla inusitada: a francesa Elodie Bouny, de mãe boliviana e nascida na Venezuela, e o israelense Roee Benn Sira. “Eu estou compondo a quatro mãos com o Rui e tem sido um trabalho extraordinário poder juntar as forças, o talento dele, os nossos conhecimentos”, disse Bouny, que mora em Portugal e tem dois filhos brasileiros. “Meu coração mora na América Latina também, e tento carregar isso na minha música.”
O objetivo, explicou, é “respeitar as memórias e a história do Marcos e dos seus companheiros e companheiras e, através dele, entender melhor o que foi essa história brasileira e latino-americana”. A expectativa é de estreia definitiva em 2028, no Brasil, com orquestra grande, coro e mais solistas — por enquanto, a obra foi apresentada com orquestra de câmara. “Estamos pensando grande”, resumiu.
Benn Sira, que foi aluno de Green na Universidade Hebraica de Jerusalém e fez doutorado sobre o choro brasileiro, contou que compor em dupla foi um desafio inédito. “Nossas linguagens musicais são diferentes, mas não tão diferentes. Tivemos a sorte de gostar da música um do outro”, disse. “O desafio real foi tornar a linguagem coerente.” Ele sonha em levar a ópera a Israel. “Tem muito a ver com o que está acontecendo no meu país hoje em dia.”
A voz de quem veio da periferia
O tenor Jabes Lima, que interpreta Marcos Arruda, nasceu e cresceu em Guaianases, no extremo leste de São Paulo. “Quando eu recebi essa história, eu fiquei feliz, porque ela conta um pouco da luta dos mais pobres, também a história sobre Paulo Freire e Marcos Arruda nessa luta com o ensino para os adultos”, disse. Seus pais, migrantes nordestinos, passaram pelo EJA, o ensino para jovens e adultos.
“Meus pais vieram do Nordeste, aquela velha história do povo que vem tentar a vida em São Paulo”, contou. “É uma história muito forte e triste, mas muito importante, precisa ser contada.” Para ele, a maior dificuldade foi a música contemporânea, com trechos sem referência de nota.
Esta é a terceira ópera sobre a ditadura em que Jabes atua — antes, fez “Rio do Furacão”, “Frei Maltos” e “Feliz Ano Velho”, sobre a história de Marcelo Rubens Paiva, na qual interpretou o pai do escritor, Rubens Paiva, um desaparecido político. “É um momento muito importante para contar essas histórias”, avaliou.
A delatora que não se perdoa
A soprano Gabriela Pacce interpreta Maria Moema, a personagem que, sob tortura, acaba delatando Arruda. “Ela não aguenta a tortura e acaba entregando ele. Por isso ela diz que nunca vai se perdoar”, explicou. “Ela tem até uma espécie de delírio, esperando que ele não venha. É bem forte.”
Nascida durante a ditadura militar e filha de pai argentino, Pacce disse que a música contemporânea “te traz para o seu próprio tempo”. “Poder interpretar uma coisa que é do nosso tempo faz com que a ópera esteja viva, mostrando que a gente tem voz e que pode falar sobre esses assuntos tão pertinentes, principalmente num momento como agora.”

Reação do público
Na plateia, a recepção foi de entusiasmo. “O tema é extremamente importante, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. A gente esquece muito fácil, mas a história é mestra em nos fazer lembrar”, disse o publicitário Edmar Bula. “É muito legal ver uma ópera brasileira, de gente brasileira, de tema brasileiro, de gente de verdade da nossa história que está aí.”
Mili Pasqualini, que trabalha há 25 anos com orquestras e teatro, destacou a parceria entre os dois compositores. “Isso acontece muito na música popular, mas na música clássica é muito difícil”, observou. “Achei muito interessante essa forma meio pocket, de uma instrumentação relativamente pequena, o que facilita que outros grupos possam montar essa ópera quando ela estiver pronta e viajar com ela.”
O maestro Leonardo Labrada, regente da apresentação, resumiu o espírito do trabalho em curso. “Numa ópera tradicional, você lida com costumes e com a expectativa de escutar aquela ópera mais próxima do que já foi feito. A expectativa aqui é quase oposta: como será que essa ópera soa?”, disse. “O trabalho com ela começa quando você apresenta, basicamente — encontrar qual é a vida daquela ópera e dar vida ao texto.”
Fonte: Fundação Perseu Abramo