Abin alerta para risco “crítico” de interferência dos EUA nas eleições brasileiras
Por henriquenunes — Fundação Perseu Abramo
A treze dias do primeiro turno das eleições presidenciais, um relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) colocou sob alerta o risco de influência dos Estados Unidos sobre o processo eleitoral brasileiro. Intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, o documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça e elevou a possibilidade de interferência externa dos EUA a um “nível de criticidade”.
O alerta não aponta possibilidade de fraude nas urnas nem afirma que os sistemas eletrônicos de votação estejam ameaçados. A avaliação da inteligência brasileira se concentra em outro terreno: pressões econômicas, sanções, medidas diplomáticas e construção de narrativas capazes de repercutir no debate político interno durante a campanha.
Segundo trechos revelados do relatório, a Abin identifica uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e uma “intensificação seletiva e reconfiguração da pressão exercida pelos EUA”. O documento descreve a interferência como um movimento “gradual, combinado e adaptativo”, capaz de atingir empresas, instituições e pessoas por meio do sistema financeiro, do comércio exterior e de medidas sancionatórias.
A avaliação parte da política adotada pelo segundo governo de Donald Trump para a América Latina. A Abin afirma que a “reafirmação da hegemonia dos EUA” na região tornou-se prioridade de Washington, com o objetivo de reduzir a influência de potências concorrentes, especialmente a China, sobre ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. Na leitura da agência, o Brasil ganha importância nesse cenário por manter uma política externa com maior margem de autonomia.
Pressão econômica e segurança entram no radar
O relatório reúne episódios ocorridos nos últimos meses. Entre eles estão tarifas impostas a produtos brasileiros, sanções contra pessoas e empresas, restrições diplomáticas e a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
A Abin chama atenção especialmente para sanções anunciadas em julho contra brasileiros e empresas acusados pelos Estados Unidos de vínculos com redes de lavagem de dinheiro associadas ao PCC. Para a agência, o episódio representou uma “mudança de fase”, porque medidas norte-americanas passaram a produzir consequências financeiras concretas sobre pessoas e empresas brasileiras.
O documento também dedica atenção ao secretário de Estado e assessor de Segurança Nacional, Marco Rubio. Segundo a Abin, declarações do integrante do governo Trump têm potencial para interferir no debate público brasileiro e fazem parte de uma política destinada a reduzir a presença chinesa na América Latina e favorecer governos alinhados aos Estados Unidos.
Outro episódio citado é uma minuta apresentada pelo governo norte-americano durante negociações com o Brasil em 2025. O texto pretendia incluir o compromisso brasileiro de realizar eleições “livres e justas” e de não limitar a participação de “dissidentes políticos” no processo eleitoral. A proposta não foi aceita pelo governo brasileiro. Diplomatas ouvidos pela imprensa classificaram o documento como uma tentativa de ingerência sobre assuntos internos.
Até esta segunda-feira, 21, não havia sido divulgada nota específica do Itamaraty sobre o relatório reservado da Abin. A posição do governo sobre interferência estrangeira, entretanto, passou a ser explicitada pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista à CNN Internacional nesta segunda-feira, em Nova York, Lula afirmou já ter pedido diretamente a Trump que os Estados Unidos não se envolvam nas eleições brasileiras.
“Eu já disse ao presidente Trump: é muito importante que os Estados Unidos não se metam nas eleições do Brasil”, declarou. Lula acrescentou que Trump teria dito a interlocutores que não pretende interferir na disputa. “E é bom que seja assim”, afirmou.
O Departamento de Estado norte-americano também já negou que pretenda interferir nas eleições brasileiras. Em agosto, autoridades do governo Trump disseram que Washington respeitaria o resultado de uma eleição considerada “livre e justa”.
TSE analisa documento
No Tribunal Superior Eleitoral, o relatório foi encaminhado para análise técnica. Até agora, o presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, não fez uma manifestação pública específica sobre o alerta da Abin.
No início de setembro, durante a lacração dos sistemas eleitorais, Nunes Marques afirmou que a votação brasileira será “transparente, segura e auditável” e ressaltou que a Justiça Eleitoral não interfere na escolha feita nas urnas.
“A Justiça Eleitoral não escolhe vencedores, não interfere na escolha popular e não possui preferência por candidaturas”, afirmou. Segundo o presidente do TSE, a missão da instituição é “garantir a vontade soberana do povo brasileiro”.
O tribunal também ampliou a observação internacional das eleições. Missões da União Europeia, da Liga dos Estados Árabes e da União Interamericana de Organismos Eleitorais acompanharão etapas do primeiro turno e de eventual segundo turno.
Família Bolsonaro mantém interlocução nos Estados Unidos
A preocupação levantada pela Abin surge num momento em que integrantes da família Bolsonaro mantêm interlocução frequente com autoridades e aliados políticos nos Estados Unidos.
Em 26 de maio, o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, foi recebido por Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. Participaram da viagem também Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Segundo a Reuters, foram discutidos temas como crime organizado, tarifas comerciais e minerais críticos.
Meses antes, durante outra passagem pelos Estados Unidos, Flávio havia afirmado que não desejava interferência estrangeira na eleição brasileira, mas defendido “pressão diplomática” sobre as instituições do país.
Na semana passada, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo disseram ter participado de reuniões em Washington, inclusive no Departamento de Estado. Eles afirmaram ter relatado a autoridades norte-americanas a tese de que integrantes do STF poderiam tentar anular uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. Não apresentaram provas públicas dessa afirmação.
Flávio, por sua vez, negou receber ajuda de Washington. “Não existe ajuda do governo americano. Essa narrativa não vai colar”, declarou na quinta-feira, 17. “Quem resolve a eleição é a gente aqui.”
O elo americano de Dark Horse
Outro episódio que aproxima personagens da família Bolsonaro de estruturas sediadas nos Estados Unidos é o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro protagonizado pelo ator norte-americano Jim Caviezel.
Flávio admitiu ter negociado com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro investimentos para a produção. Documentos e mensagens revelados pelo Intercept Brasil indicaram uma promessa de US$ 24 milhões. Uma fonte ligada à investigação confirmou à Reuters a existência das mensagens apreendidas pela Polícia Federal. Flávio sustenta que se tratava de investimento privado, sem contrapartida política ou irregularidade.
Parte dos recursos foi transferida para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos e administrado por pessoas ligadas a Eduardo Bolsonaro. Segundo documentos divulgados posteriormente, empresas ligadas a Vorcaro enviaram ao menos US$ 10,6 milhões para o fundo.
A Go Up Entertainment LLC, produtora envolvida no projeto, também possui estrutura nos Estados Unidos. Reportagem da BBC News Brasil localizou sua sede, até junho, em uma residência nos arredores de Raleigh, na Carolina do Norte, onde mora o produtor Michael Brian Davis.
Não há, até o momento, evidência pública que vincule o financiamento de Dark Horse às ações de interferência descritas pela Abin. O caso é relevante neste contexto por revelar uma rede de relações políticas, empresariais e financeiras que atravessa Brasil e Estados Unidos e envolve integrantes da família do principal adversário de Lula na eleição presidencial.
A eleição está marcada para 4 de outubro. O relatório da Abin permanece sob análise do TSE e do Ministério da Justiça.
Fonte: Fundação Perseu Abramo