Celular da mulher de Cezinha de Madureira pode revelar elo entre Mendonça e o caso Master

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Por Ana Gabriela SalesGGN

A apreensão do celular da advogada Valéria Rodrigues Linhares, mulher do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), abre uma nova frente para a Polícia Federal (PF) reconstruir uma rede de relações que passa pelo parlamentar, chega ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e se cruza com o caso Master.

O aparelho foi apreendido na sexta-feira (18), em uma diligência determinada pelo ministro Flávio Dino no âmbito da Operação Transparência, conforme revelou o portal Metrópoles. Valéria é investigada ao lado de Cezinha por suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Em agosto, a PF já havia apreendido R$ 510 mil em espécie que estavam com a advogada no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, segundo dados divulgados pelo g1.

O interesse da nova apreensão está na posição ocupada por Cezinha dentro de outra investigação que chegou ao STF: o deputado aparece em mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro como o responsável por articular o encontro entre o então controlador do Banco Master e Mendonça, em março de 2025. O ministro confirmou posteriormente que recebeu o banqueiro.

A partir disso, o conteúdo do celular de Valéria poderá ser confrontado com os dados já obtidos pela PF em outros aparelhos e documentos. A questão central é verificar se existem novas mensagens, contratos, pagamentos ou contatos capazes de esclarecer a atuação do casal e a relação de Cezinha com o entorno de Mendonça.

Cezinha é aliado próximo de Mendonça

A relação entre Cezinha e Mendonça antecede o encontro com Vorcaro. O deputado, liderança da Assembleia de Deus do Ministério de Madureira, é descrito como aliado e amigo próximo do ministro e participou da articulação política em torno de sua indicação ao STF. Os dois também apareceram juntos em compromissos públicos.

Em março de 2025, essa proximidade ganhou dimensão direta no caso Master. Segundo mensagens extraídas do telefone de Vorcaro, Cezinha avisou o banqueiro, em 13 de março: Amanhã sexta feira 17:00 com ministro André em São Paulo. Vorcaro respondeu: Show e Marcado.

No dia seguinte, pouco antes do encontro, o banqueiro escreveu: Fala amigo e Estou a caminho. Cezinha respondeu: Ministro já está te esperando. O encontro ocorreu em 14 de março, em São Paulo, no Instituto Iter, entidade fundada por Mendonça.

Mendonça confirmou a reunião somente em setembro de 2026. Segundo o ministro, a conversa durou entre 20 e 30 minutos e tratou de assuntos relacionados a créditos de precatórios de interesse do Banco Master. Na época do encontro, porém, Mendonça ainda não era relator das investigações sobre o banco, ele foi sorteado para a relatoria em fevereiro de 2026.

O encontro, portanto, não constitui por si só evidência de irregularidade. A própria decisão de Flávio Dino que autorizou a Operação Transparência ressalta que os ministros citados nas conversas não são investigados como suspeitos.

O que a PF investiga na atuação de Cezinha

A nova apreensão ganha importância porque Cezinha não aparece apenas como alguém que mantinha contato com ministros. Segundo a investigação divulgada pela imprensa e no relatório da PF citado pelo g1, ele teria atuado em conjunto com as advogadas Valéria e Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, em processos que tramitavam nos tribunais superiores.

A PF descreve uma divisão de tarefas:

  • Tuca: Seria responsável por captar causas, preparar memoriais e encaminhar documentos;
  • Valéria: Apareceria na elaboração, revisão e assinatura de contratos de honorários e cessões de crédito.
  • Cezinha: Fararia os contatos diretos com ministros.

Em um dos casos, relacionado ao ex-secretário de Educação de Belford Roxo Denis de Souza Macedo, um contrato previa R$ 1 milhão em honorários, com outros R$ 2 milhões em caso de sucesso, definido como a obtenção da liberdade do cliente, ainda que mediante medidas cautelares.

Em uma das conversas citadas na investigação, Valéria recebe um contrato e pergunta: “Está razoável / Assino?”. A mensagem foi considerada pela PF como elemento para demonstrar a participação dela na formalização dos negócios. Macedo havia sido preso em investigação da PF sobre supostos desvios de cerca de R$ 112 milhões de recursos do Fundeb e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

Em outro episódio, envolvendo uma reclamação apresentada no STF pela então prefeita de Beberibe (CE), Michele Cariello de Sá Queiroz, o contrato previa R$ 500 mil após o julgamento do processo.

As mensagens analisadas pela PF mostram Cezinha sendo acionado para procurar o ministro Kassio Nunes Marques. Em uma delas, o deputado afirma: Eu havia pedido a ele para me atender hoje cedo, ele não conseguiu me atender, marcou para falar comigo por vídeo às 16:00 / Ministro Kassio / Entendeu? / Ai vou pedir a ele.

Para os investigadores, o padrão indicaria que o parlamentar não se limitava a encaminhar peças ou pedidos de audiência, mas se apresentava como alguém capaz de obter acesso direto aos magistrados.

A interpretação, contudo, é da investigação. Na própria decisão, Dino registrou que receber parlamentares, conceder audiências a advogados e analisar memoriais são atos lícitos e que nada nos autos, até então, indicava participação de ministros nos fatos investigados.

Os R$ 510 mil em dinheiro vivo

A apreensão do celular ocorre poucos dias depois de outro episódio envolvendo Valéria.

Em 14 de setembro, durante a deflagração da terceira fase da Operação Transparência, a PF cumpriu buscas relacionadas à advogada. Antes disso, em agosto, agentes haviam apreendido R$ 510 mil em espécie em uma mala transportada por ela no Aeroporto de Congonhas.

Em nota à imprensa emitida por sua defesa à época, Valéria afirmou que os recursos tinham origem lícita e eram provenientes de honorários advocatícios. O dinheiro foi retido pela Polícia Federal porque a comprovação fiscal não foi apresentada imediatamente.

A partir da apreensão do celular, uma das questões que a investigação poderá aprofundar é justamente a origem dos recursos: se existem contratos correspondentes, pagamentos de clientes, registros bancários ou outras operações que expliquem a quantia.

A ponte com o caso Master

A ligação documental entre Cezinha e o caso Master passa, sobretudo, pelo encontro entre Vorcaro e Mendonça.

O banqueiro procurou interlocutores próximos ao ministro e acabou chegando até ele por meio de Cezinha e do advogado Ciro Soares. Mensagens posteriores também indicaram que Vorcaro foi convidado para eventos do Instituto Iter, embora tenha sido posteriormente desconvidado de um deles.

Em maio de 2025, por exemplo, uma conversa entre Ciro Soares e Vorcaro tratava de um evento do instituto em Belo Horizonte. O convite previa um debate com Mendonça e outras autoridades para um grupo restrito de convidados. Segundo apuração da Folha de S.Paulo, o Iter confirmou que Vorcaro havia sido convidado, mas afirmou que o convite partiu de terceiros e que ele acabou sendo barrado.

O vínculo ganhou outra dimensão depois que reportagem do UOL revelou que o Instituto Iter recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, empresa de Lucas Kallas, empresário que havia mantido negócios com Vorcaro. O contrato de mútuo conversível tinha valor máximo de R$ 5,9 milhões; segundo o portal, o Iter interrompeu os repasses e começou a devolver os recursos em janeiro de 2026, um mês antes de Mendonça ser sorteado relator do caso Master.

Esses fatos não demonstram, isoladamente, que o dinheiro do Iter tenha origem no Banco Master ou que Cezinha tenha atuado para favorecer Vorcaro.

Mendonça deixou o Iter após revelação do encontro

A relação com o Instituto Iter se tornou um ponto sensível para Mendonça depois que veio a público o encontro com Vorcaro.

O ministro deixou a sociedade do instituto após a revelação da reunião. Na época, seu gabinete afirmou que ele apenas ouviu o empresário e que não houve compromisso ou atuação em favor do Banco Master. Mendonça também afirmou ter votado contra interesses do banco em outro processo.

O que a PF ainda precisa esclarecer

O conteúdo do celular de Valéria pode ajudar a responder perguntas que permanecem abertas: qual era exatamente a relação profissional entre ela e Cezinha; quais valores foram efetivamente pagos pelos contratos; quais clientes chegaram ao escritório; quais ministros foram procurados; e se existem outros intermediários ainda não identificados.

A PF, até o momento, não aponta participação de ministros do STF nos crimes investigados na Operação Transparência. A decisão de Flávio Dino ressalta que os magistrados citados aparecem nos autos como possíveis destinatários da influência alegadamente oferecida pelos investigados, e não como suspeitos.

Em nota divulgada por sua assessoria, Cezinha nega irregularidades e afirma, por meio da defesa, que prestará todos os esclarecimentos necessários. A defesa de Valéria também contestou a caracterização feita pela investigação e informou, em nota, que pretende ter acesso aos autos para se manifestar.

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Fonte: GGN

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