Quando a promessa de prosperidade vira promessa de punição

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Por Gustavo PessoaBrasil 247

O PIB pode crescer enquanto uma família continua adiando a compra da casa, renegociando dívidas e revendo os planos para os filhos. Entre a melhora das estatísticas e a experiência de quem trabalha existe uma distância que também é política. Quando a expectativa de prosperar se enfraquece, discursos que prometem identificar e punir os culpados pelo fracasso podem ganhar espaço.

Essa relação está no centro de The Moral Consequences of Economic Growth, publicado em 2005. Benjamin M. Friedman argumenta que a melhora do padrão de vida da maioria favorece a tolerância e o compromisso com a democracia. O economista se refere ao progresso percebido pelas pessoas, que pode divergir da expansão da riqueza nacional. Seu argumento depende de uma pergunta concreta: a vida está melhorando para uma parcela ampla da população?

Na interpretação de Friedman, as pessoas comparam sua situação com o próprio passado e com a posição dos outros. Quem percebe avanço em sua vida tende a ver o sucesso alheio como uma ameaça menor. Se essa perspectiva desaparece, a competição por posição social pode se intensificar. O autor reconhece outras causas para os fenômenos políticos, mas chama atenção para o que acontece quando o esforço deixa de produzir a expectativa de progresso.

Há evidências históricas de que certos choques econômicos alteram a disputa política. Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch analisaram mais de 800 eleições em 20 economias avançadas, entre 1870 e 2014. Após crises financeiras sistêmicas, observaram maior polarização, enfraquecimento das maiorias governistas e crescimento da votação da extrema direita. Os autores relacionam esse resultado à atração por discursos que atribuem as dificuldades a minorias ou estrangeiros.

O padrão não apareceu nas recessões comuns nem nos choques macroeconômicos graves sem origem financeira. Portanto, o estudo não descreve uma reação automática ao empobrecimento. Também não permite aplicar suas conclusões diretamente ao Brasil, ausente da amostra. Sua contribuição é mostrar que a natureza da crise importa: dificuldades econômicas de origens distintas podem estar associadas a respostas políticas diferentes.

A década de 1930 oferece um contraste histórico. Na Alemanha, a depressão contribuiu para a desagregação da República de Weimar e para a ascensão do nazismo, embora não tenha sido a única causa. Nos Estados Unidos, o New Deal ampliou programas de emprego, a regulação financeira e a proteção social, com continuidade das eleições presidenciais. As medidas ajudaram a recuperação, mas não encerraram a depressão naquela década. Uma crise internacional teve desfechos políticos distintos; sua gravidade, isoladamente, não explica essa diferença.

No Brasil, essa reflexão começa pelo orçamento das famílias. O crescimento agregado pode conviver com renda estagnada para determinados grupos, insegurança no emprego ou dívidas que absorvem os ganhos do trabalho. A experiência de cada pessoa depende de como os resultados econômicos se distribuem. Isso ajuda a formular o problema, mas não autoriza confundir descontentamento com um governo e rejeição à democracia.

O medo da violência acrescenta outra dimensão. Evitar um trajeto, fechar um comércio mais cedo ou restringir a circulação dos filhos são formas pelas quais a insegurança pode reorganizar a vida. É também a partir dessas experiências que as pessoas avaliam a proteção oferecida pelo Estado. Os registros de criminalidade e a sensação de segurança nem sempre avançam juntos. Compreender essa diferença importa para analisar a confiança nas instituições.

El Salvador reúne mudanças que precisam ser examinadas em conjunto. No relatório mundial de 2026, referente aos acontecimentos de 2025, a Human Rights Watch registra queda acentuada da violência das gangues durante o governo de Nayib Bukele. A organização também documenta prisões arbitrárias, tortura e violações do devido processo legal. O relatório ressalva que restrições de acesso aos dados e mudanças na contabilização dos homicídios dificultam avaliar a precisão das alegações oficiais sobre a redução dos crimes.

Em julho de 2025, a Assembleia Legislativa salvadorenha aprovou alterações constitucionais que eliminaram o limite de reeleições presidenciais. A queda da violência e a concentração de poder ocorreram no mesmo período, mas essa simultaneidade não demonstra que uma dependesse da outra. O caso coloca lado a lado resultados de segurança, abusos documentados e mudanças nas regras do poder. Nenhum desses elementos pode substituir a análise dos demais.

A comparação com o Brasil exige atenção às diferenças entre os países. Ainda assim, ela permite separar perguntas que muitas vezes se confundem: houve melhora das condições de vida? A população se sente mais protegida? Como avalia o governo e os limites de sua autoridade? Uma resposta favorável sobre segurança não equivale, por si só, à aprovação de qualquer medida adotada em seu nome. Da mesma forma, uma avaliação negativa da economia não revela sozinha a preferência por outro regime político.

A questão brasileira vai além de saber se a economia cresce. Importa compreender quem percebe a melhora, quem continua exposto à insegurança e como essa experiência altera as expectativas. A literatura sobre crises financeiras indica que a busca de culpados pode ganhar força após determinados choques. Quando o futuro parece fora de alcance, a política passa a disputar também o sentido da frustração. É nesse terreno que a promessa de punir pode ocupar o lugar da promessa de prosperar.

Fonte: Brasil 247

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