Paralisação do dia 23/09 na UFMG: Massificar a luta contra a precarização unificando a luta estudantil às greves em curso
Por Mafê Macêdo, Peu Gronga — Esquerda Diário

A palavra precarização é cotidiana na sala de aulas e corredores da UFMG. São diversos estudantes sendo obrigados a escolher entre estudar ou pagar as contas, exauridos pela escala 6×1 e por freelas sem condições de prestar atenção nas aulas, sem certeza de quando ou se vão se formar, afogados no produtivismo adoecedor e com medo de atingirem o tempo limite imposto pela reitoria e pela FUMP no acesso à assistência estudantil, ou dessa ser arrancada pela recente política de pente fino que busca cortar o auxílio de quase 500 estudantes. Não aceitamos que nenhuma dessas questões seja naturalizada, encarada individualmente ou tomada como uma imposição diante da qual o que nos resta é aceitar. Vemos, neste momento, trabalhadores de categorias estratégicas como bancários, correios e professores da educação privada colocando de pé fortes greves para lutar contra a precarização, que tem as mesmas raízes da qual nos deparamos na UFMG. Nós, estudantes, precisamos entrar em cena apostando na única aliança que pode responder a cada uma das nossas demandas, a aliança com os trabalhadores.
Estamos a 3 dias da paralisação que está sendo aprovada em diversos prédios da UFMG, como a Fafich, como parte de uma mobilização nacional frente a votação da lei orçamentária anual em que são decididos os recursos destinados às federais pelos próximos 4 anos. Vemos nessa mobilização um possível passo importante para o enfrentamento a política de sucateamento e ataque às universidades como é a agenda da extrema direita e também um espaço para fortalecer a luta contra o Arcabouço Fiscal do governo de frente ampla Lula-Alckmin. De forma contrária ao que a reitoria tenta fazer parecer, a verdade é que o cenário de precarização da UFMG está profundamente conectado com tudo que vemos acontecer no mundo, e que deixa nossa geração com o misto de medo e ódio na garganta. Toda semana, abrimos o celular e vemos uma nova notícia de Trump intervindo na América Latina. Quer fazer da nossa terra um quintal devastado pelos interesses do imperialismo, roubar nossas terras raras e nosso petróleo e deixar mais mil tragédias como Mariana e Brumadinho. Conta para isso com seus capachos, como Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira, Zema, Cleitinho, Douglas Garcia – que neste ano invadiu nossa universidade para agredir estudantes. Por isso, dizemos: Fora Trump da América Latina! O Petróleo e as terras raras são nossos!
Vemos esses asquerosos crescerem nas pesquisas eleitorais e usarem do Estado como seu balcão de negócios, utilizando de agentes como Mendonça, que, desde o STF, utiliza seu poder para fortalecer a ala bolsonarista dessa negociação. A crise histórica nessa instituição que envolve figuras como Alexandre de Moraes, quem até ontem grande parte da esquerda irresponsavelmente referenciava como o defensor da democracia, aparece para os estudantes e para as massas trabalhadoras como um grande circo, que sob seu picadeiro constrói a sensação de que nosso futuro não está em nossas mãos, mas nas mãos sujas de juízes eleitos por ninguém e de banqueiros enriquecidos pelo mesmo Arcabouço Fiscal.
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Enquanto isso, a frente ampla, que há quatro anos atrás prometia derrotar a extrema direita se fosse eleita, agora repete a mesma promessa vazia. Tenta mascarar que não só não a combateu, mas a fortaleceu através da política de conciliação de classes. O que explica Flávio Bolsonaro, mesmo diante de tantos escândalos, estar crescendo nas pesquisas estando melhor agora do que seu pai estava há quatro anos atrás? O que explica é toda a verba destinada ao Agronegócio com o maior Plano Safra da história garantido pelo governo Lula, bem como a concessão de cargos em ministérios ao Republicanos do Tarcísio de Freitas, a continuidade do Teto de Gastos através do Arcabouço Fiscal, entre tantos outros exemplos. Enquanto isso setores do funcionalismo público, como os TAE’s, que protagonizaram duas importantes greves se chocando com a intransigência do governo Lula-Alckmin, seguem sem ter suas demandas atendidas. Assim como os trabalhadores dos Correios e os bancários, cada vez mais alvos dos cortes e retirada de direitos para garantia da política de austeridade, que se enfrentam agora em greve. Contra essa república de banqueiros, todo apoio às greves dos bancários, dos Correios e da educação privada de BH e região metropolitana!
O Arcabouço Fiscal destrói o orçamento da educação pública em nome de deixar ainda mais ricos os banqueiros que se beneficiam com a dívida pública. Uma dívida fraudulenta e imperialista. As demandas das fortíssimas greves dos trabalhadores bancários e dos correios também são fruto dos limites impostos por ele.
O cenário escandaloso dos índices de violência de gênero batendo recordes sucessivos também está profundamente conectado com o fato que também como fruto dessa política resta R$0,20 por mulher para prevenção da violência de gênero. Diante desse cenário, temos mais que motivos suficientes para nos apropriarmos do melhor da história do movimento estudantil e entrar em cena lado a lado com os trabalhadores, colocando de pé uma política de defesa da educação pública que, para ser consequente, precisa ser independente de qualquer governo, do judiciário e também da reitoria. Enquanto a extrema direita destila ódio e segue defendendo que milhares de mulheres sejam mortas por abortos clandestinos, Lula e o PT já se comprometeram a não defender o direito ao aborto e praticamente nenhuma candidatura defende abertamente o direito das mulheres e pessoas que gostam. Nossa paralisação precisa também fortalecer a luta contra a violência de gênero dentro e fora da UFMG, organizando es estudantes para também ir às ruas no dia 28 de setembro, no dia latino americano e caribenho pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito.
Nos apoiamos no exemplo que foi a Marcha de la Bronca na Argentina, levado a frente por Myriam Bregman, a política com melhor imagem no país, grande opositora de Milei, do PTS (organização irmã do MRT), construindo uma ampla unidade com mais de 350 organizações e os mais de 200 comitês por um partido da nova classe trabalhadora que impulsiona pelo país. Uma política que levou centenas de milhares de estudantes e trabalhadores às ruas, se enfrentando contra a extrema-direita de Milei e os ajustes do FMI e dos capitalistas, mesmo com a negativa das centrais sindicais e entidades peronistas em convocar a mobilização. Uma mobilização histórica que mostra a potencialidade dos métodos da classe trabalhadora de se colocar como agentes da política, completamente oposto da lógica de conciliação de classes do PT, a qual vem fortalecendo a extrema direita nos últimos 4 anos.
Mas o que vemos é a direção majoritária da União Nacional dos Estudantes, que foi expulsa do nosso DCE nas últimas eleições e que imobilizou a luta dos estudantes nos últimos quatro anos, agora dizer que é um absurdo que façamos nossas assembleias e queiramos construir uma paralisação, na assembleia da fafich e em cada assembleia votando contra. Mais uma vez fazem de tudo para manter a maior entidade do movimento estudantil da América Latina, a UNE, subordinada à política de conciliação de Lula e da frente ampla. Diante disso, propusemos nas duas últimas assembleias da Fafich, aprovado pelos estudantes, a exigência de que a UNE rompa com sua paralisia e cumpra o papel que nasceu para cumprir, o de organizar e coordenar nossas lutas. Mas, infelizmente, não vemos os companheiros do DCE – que se colocam na oposição de esquerda a essa burocracia majoritária – sendo consequentes com essa exigência aprovada pelos estudantes, sequer publicizando-a.
Nós, da Faísca, entendemos que a batalha para que nossa luta se massifique e não que seja isolada entre pequenos grupos do movimento estudantil passa por exigências como essa e pela construção desde as bases pelas nossas entidades estudantis. Defendemos que nossa paralisação precisa ser construída pelas entidade de base, precisa apostar tudo na aliança com os trabalhadores em greve, organizando atividades em comum no dia 23. Precisa ser um pontapé da luta dos estudantes da UFMG que, levantando uma política independente dos governos e reitorias, possa fazer ecoar nacionalmente a mensagem de que o movimento estudantil não se subordina às instituições podres desse regime ou àqueles que pretendem administrar o capitalismo a custo do nosso futuro e da nossa saúde. A paralisação do dia 23 precisa ser um ponto de apoio para que cada estudante em nossa universidade veja que não está sozinho no combate a cada um dos sintomas da precarização e que, ao contrário do que tentam fazer parecer os governos e reitorias, nosso futuro está nas nossas mãos.
Fonte: Esquerda Diário