Keeta é denunciada por aumentar preços em operação ‘cavalo de troia

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Por Redação Brasil 247Brasil 247

247 – Restaurantes de Hong Kong acusam a Keeta, plataforma de entregas pertencente à multinacional chinesa Meituan, de elevar de forma expressiva as comissões cobradas dos estabelecimentos após ampliar sua presença no mercado local. Comerciantes relatam que a taxa incidente sobre pedidos retirados pelos próprios consumidores passou de aproximadamente 7% para até 30%, aproximando-se do percentual cobrado por entregas realizadas por motoboys.

As informações foram publicadas pelo jornal Sing Tao Daily, de Hong Kong, que ouviu estabelecimentos parceiros da plataforma. Segundo a reportagem, novos contratos apresentados pela Keeta elevaram para cerca de 28% a 30% a comissão sobre pedidos para retirada, enquanto a taxa dos serviços de entrega ficou entre 27% e 30%.

O aumento chama atenção porque, na modalidade de retirada, o consumidor busca o pedido diretamente no restaurante, sem que a plataforma precise realizar a entrega. Comerciantes ouvidos pelo jornal afirmaram que a nova estrutura reduz significativamente suas margens.

A mudança alimentou críticas de restaurantes que comparam a estratégia comercial a uma operação de “cavalo de Troia”: a plataforma conquistaria espaço inicialmente com condições mais vantajosas e, depois de ampliar sua presença e a dependência dos parceiros, aumentaria as cobranças.

Segundo os relatos publicados em Hong Kong, estabelecimentos tiveram prazo curto para aderir aos novos contratos. Representantes comerciais da Keeta também teriam recomendado que restaurantes elevassem os preços dos cardápios para absorver parte da nova comissão e, posteriormente, aplicassem descontos aos consumidores.

Os comerciantes argumentam, porém, que essa alternativa poderia produzir outro problema: os valores anunciados no aplicativo ficariam maiores do que aqueles praticados diretamente no restaurante, com risco de insatisfação dos clientes.

Restaurantes relatam pressão sobre contratos

A reportagem do Sing Tao Daily também ouviu estabelecimentos que afirmaram enfrentar dificuldades para contratar somente determinados serviços da plataforma.

Alguns comerciantes disseram ter recebido indicações verbais de que a não adesão poderia afetar sua exposição dentro do aplicativo ou até levar à retirada de equipamentos utilizados para o recebimento de pedidos.

A Keeta contestou essa versão. Em resposta ao jornal, a empresa afirmou que não obriga restaurantes a contratar simultaneamente os serviços de entrega e retirada e declarou considerar os estabelecimentos parceiros importantes para o desenvolvimento de sua operação.

A controvérsia ocorre em um ambiente altamente competitivo. Segundo os dados reunidos pelo jornal de Hong Kong, outras plataformas também cobram comissões relevantes dos restaurantes: a Foodpanda aplicaria percentuais entre 25% e 28% sobre entregas e entre 20% e 25% sobre retiradas, enquanto a OpenRice, focada nesta última modalidade, cobraria aproximadamente 8%.

Autoridade de concorrência já questionou contratos da Keeta

As reclamações surgem poucos meses depois de a Comissão de Concorrência de Hong Kong analisar cláusulas existentes nos contratos da Keeta com restaurantes.

Em abril, o órgão informou que avaliava se determinadas condições impostas pela plataforma poderiam violar as regras locais de concorrência. Entre os pontos examinados estavam cláusulas de exclusividade, penalidades para restaurantes que passassem a trabalhar também com concorrentes e restrições que impediam parceiros de oferecer preços inferiores em seus próprios canais ou em outros aplicativos.

A Keeta apresentou compromissos para responder às preocupações da autoridade, incluindo a retirada de determinadas restrições contratuais e mudanças nas regras relacionadas à exclusividade.

Em 17 de junho de 2026, a Comissão de Concorrência aceitou formalmente os compromissos. Eles passaram a integrar o registro oficial do órgão regulador de Hong Kong.

Meituan já foi multada por abuso de posição dominante na China

A controladora da Keeta, a Meituan, também possui histórico de punição concorrencial na China.

Em outubro de 2021, a Administração Estatal de Regulação do Mercado da China concluiu que a empresa havia abusado de sua posição dominante no segmento de plataformas de entrega de refeições ao adotar a prática conhecida como “escolha um de dois”, pela qual estabelecimentos eram pressionados a manter relações exclusivas com a companhia.

A autoridade chinesa determinou a interrupção das práticas, a devolução de depósitos cobrados de parceiros e aplicou multa de 3,442 bilhões de yuans. Segundo o regulador, a Meituan utilizava diferenças nas taxas, depósitos de exclusividade, dados e mecanismos algorítmicos para sustentar as restrições impostas aos comerciantes.

O órgão também determinou que a empresa aperfeiçoasse suas regras de cobrança de comissões e de utilização de algoritmos e reforçasse medidas de proteção a pequenos e médios restaurantes e aos trabalhadores responsáveis pelas entregas.

Discussão chega ao mercado brasileiro

No Brasil, a expansão da Keeta também abriu uma disputa no setor de aplicativos de entrega. O iFood levou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) questionamentos sobre a estratégia comercial da concorrente chinesa, alegando, entre outros pontos, que incentivos financeiros e cláusulas oferecidas a restaurantes poderiam prejudicar a competição.

A discussão ocorre em meio à entrada da Meituan em um mercado brasileiro já marcado pela disputa por restaurantes, entregadores e consumidores.

As reclamações recentes em Hong Kong aumentam a atenção sobre o modelo adotado pela Keeta nos diferentes países em que busca ganhar participação. Para restaurantes brasileiros, a principal questão passa a ser se as condições oferecidas no período de expansão serão mantidas conforme a operação da empresa amadureça.

Em Hong Kong, essa preocupação já se materializou nas críticas de comerciantes às novas comissões. O caso também mostra que as condições comerciais da plataforma permanecem sob escrutínio poucos meses depois de a autoridade concorrencial local ter exigido mudanças em cláusulas relacionadas à exclusividade e aos preços praticados pelos restaurantes.

Fonte: Brasil 247

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