O conflito entre Mendonça e Moraes: dividir para reinar
Por Tamara Tania Cohen Egles — Brasil 247
O conflito entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes pode ser compreendido como politicamente produzido: trata-se da velha estratégia de dividir para reinar.
Para compreender a complexidade dos acontecimentos, é necessário considerar que estamos diante de um amplo conjunto de atores e instituições, de diferentes processos de informação e comunicação e de narrativas que selecionam, representam e reinterpretam os fatos. No espaço público, entretanto, o que aparece em primeiro plano é, sobretudo, um embate entre dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Essa interpretação parece insuficiente diante da complexidade dos processos em curso.
A primeira pergunta que devemos formular é: quem vaza as informações e a quais interesses esses vazamentos atendem?
Cabe à Polícia Federal investigar os fatos. Entretanto, informações relacionadas às investigações são vazadas, publicadas e rapidamente transformadas em acontecimentos públicos. Antes mesmo que as instituições responsáveis concluam a apuração, elas já circulam pelas plataformas digitais, são processadas por sistemas algorítmicos e incorporadas às disputas políticas.
Não podemos ignorar, nesse processo, a participação das big techs, que possuem enorme capacidade de registrar, organizar e processar dados referentes aos comportamentos, sentimentos e modos de comunicação dos usuários do espaço digital. Mensagens, deslocamentos, desejos, preferências e emoções alimentam continuamente os bancos de dados das plataformas.
Isso significa que uma parcela expressiva de nossas interações digitais permanece registrada e pode ser processada por sistemas algorítmicos. Não se trata de afirmar que os algoritmos “sabem tudo”, mas de reconhecer que as plataformas dispõem de extraordinária capacidade para identificar padrões de comportamento, conexões entre atores, circulação de mensagens e formação de redes. Podem, portanto, apreender determinadas dimensões das relações sociais antes mesmo que elas sejam plenamente compreendidas pelas instituições públicas.
Nesse sentido, é preciso deslocar o olhar.
Existe uma articulação internacional de movimentos e lideranças de extrema direita que vem conquistando importantes espaços eleitorais em diferentes países e estabelecendo conexões políticas e comunicacionais transnacionais. No Brasil, a família Bolsonaro e outros atores políticos participam dessas redes de articulação (Egler, 2023).
Também são conhecidas as relações entre o sistema político e as corporações-plataformas, analisadas por diferentes autores, entre os quais Pessanha, Varoufakis e Zuboff. Essas contribuições permitem formular uma questão mais abrangente: quais relações se estabelecem entre o sistema político e os interesses das big techs?
Essa questão é fundamental.
As plataformas não apenas viabilizam a comunicação. Elas organizam a visibilidade das informações, selecionam conteúdos, estabelecem hierarquias de relevância e interferem na formação da atenção pública. Dessa maneira, participam da própria constituição do campo político.
É a partir dessa perspectiva que podemos formular nossa hipótese.
O conflito entre Mendonça e Moraes não deve ser analisado apenas como uma divergência pessoal ou institucional entre os dois ministros. Pode ser compreendido como parte de um processo mais amplo de produção política de conflitos, alimentado pela circulação seletiva de informações e por sua amplificação no espaço digital. Nesse contexto, a intervenção do presidente do STF, Edson Fachin, em defesa da unidade institucional, também deve ser compreendida como parte da dinâmica em curso.
Podemos, então, enunciar uma hipótese mais abrangente: a produção e a amplificação desses conflitos podem contribuir para desestabilizar as instituições democráticas em um momento particularmente sensível, às vésperas das eleições de 2026.
Essa perspectiva permite compreender como dois ministros podem ser colocados em campos opostos, convertendo-se divergências em um conflito institucional de grandes proporções. O resultado pode ser o enfraquecimento das instituições responsáveis pela defesa da ordem democrática, justamente quando o país se aproxima de uma eleição decisiva.
Por isso, talvez o principal desafio seja não observar apenas aquilo que aparece imediatamente diante de nossos olhos.
É preciso examinar as redes, seguir os atores, identificar quem produz e quem faz circular as informações, compreender quais narrativas são amplificadas e perguntar a quem elas beneficiam politicamente.
O desafio consiste em ver e interpretar o que está acontecendo para não morder a isca.
Fonte: Brasil 247