O cuidado entra na eleição: que projeto enfrenta a sobrecarga das mulheres?
Por Rodrigo Martins — Carta Capital
Menu
ASSISTA AO VIVO: Ministros do STF discutem a possibilidade de investigação sobre relação entre Moraes e Vorcaro
Programas de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam caminhos distintos para ampliar serviços e garantir mais autonomia às brasileiras
O trabalho não remunerado de cuidados — cozinhar, lavar roupas, cuidar de filhos, pais e avós — é fundamental para o bem estar das pessoas e sustenta a vida social e econômica do país, mas recai principalmente sobre as mulheres. Mais de 20 milhões de brasileiras dedicam 20 horas ou mais por semana a esse trabalho, sendo que 5,3 milhões dedicam mais de 40 horas.
Essa sobrecarga produz pobreza de tempo, adoecimento e limita o acesso das mulheres ao estudo, ao trabalho remunerado, ao descanso, à participação política e à autonomia econômica. As mulheres, especialmente as negras, também representam 75% da força de trabalho remunerada de cuidados.
Embora os programas de Lula e Flávio Bolsonaro reconheçam a importância do tema, as propostas partem de concepções distintas sobre quem deve garantir o cuidado. A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei 15.069/2024 no terceiro mandato de Lula, reconhece pela primeira vez no Brasil o cuidado como um direito — de receber cuidado, cuidar e exercer o autocuidado — e estabelece a corresponsabilidade entre homens e mulheres, famílias, comunidades, Estado e setor privado, tendo o Estado como principal garantidor.
A política tem especial atenção a quem mais necessita de cuidados e a quem cuida, sobretudo mulheres pobres, negras e indígenas, rurais e das periferias. O Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida reúne ações de 20 ministérios e consolida uma agenda que passou a integrar a disputa presidencial de 2026.
A principal diferença entre os programas está na forma de enfrentar a falta de serviços. Lula aposta na expansão da oferta pública, com investimento, regulação e garantia de direitos. O Novo PAC apoiou a construção de 3.562 creches e escolas de educação infantil em 2.360 municípios, e a segunda edição ampliará essa ação.
Flávio Bolsonaro também promete ampliar creches, mas por meio de vouchers e credenciamento privado, deixando a oferta mais dependente do mercado e sujeita à reprodução das desigualdades territoriais e de renda.
A divergência também aparece no cuidado com as pessoas idosas. Lula propõe ampliar serviços de convivência, proteção e atendimento domiciliar e fortalecer a rede do SUAS. Já criou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (PADI Brasil), implantado em 2.655 municípios, e promete ampliá-lo.
Flávio propõe uma Rede Nacional de Cuidados por meio de parcerias público-privadas. A proposta contrasta, porém, com o histórico do governo Bolsonaro, que reduziu o cofinanciamento federal do SUAS, provocando perdas e repasses reduzidos e irregulares aos municípios.
Outra diferença fundamental está na divisão do cuidado dentro das famílias. Lula defende explicitamente a corresponsabilização entre homens e mulheres e tem afirmado que os homens precisam participar das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos. Flávio, por outro lado, não propõe que os homens se co-responsabilizem pelo trabalho de cuidados e continua mantendo a mulher no papel de cuidadora natural.
As propostas também divergem quanto à autonomia econômica feminina. Para Lula, ela depende de uma arquitetura de direitos e proteção social, em que o cuidado é responsabilidade pública. Seu programa propõe ampliar as Cuidotecas, além de fomentar lavanderias públicas, cozinhas solidárias e restaurantes populares, reduzindo o tempo dedicado a tarefas domésticas. Também prevê capacitação e certificação de cuidadoras.
O programa de Flávio não menciona equipamentos de cuidado indireto nem as condições de trabalho das profissionais que atuam no setor.
Por fim, a disputa envolve o direito ao tempo. O fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, sem redução salarial, são apresentados por Lula como parte de uma agenda que devolve o tempo à classe trabalhadora. Para as mulheres, essa agenda é fundamental, e se soma à necessidade de reduzir também o tempo dedicado ao trabalho não remunerado de cuidados (que frequentemente se manifesta em uma “escala 7×0”), por meio da ampliação dos serviços públicos. Flávio, ao contrário, propõe flexibilizar a jornada.
A diferença, portanto, não está apenas na quantidade de propostas, mas na concepção de país. Lula trata o cuidado como direito e responsabilidade compartilhada, com o Estado como garantidor e serviços públicos como instrumentos de redistribuição desse trabalho. Flávio aposta em mecanismos de mercado e em soluções que podem manter o cuidado concentrado no espaço doméstico e nas mãos das mulheres.
A eleição de 2026 também definirá se o Brasil avançará na compreensão do cuidado como direito ou continuará tratando-o como favor.
Mazé Morais
Secretária Nacional de Mulheres do PT
Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.
A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.
Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.
Assine ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital