Celso Amorim: “Brasil precisa fortalecer a multipolaridade para não sucumbir às áreas de influência”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O Brasil precisa aprofundar sua participação nos BRICS, ampliar a integração da América do Sul e diversificar suas relações econômicas, tecnológicas e de defesa para preservar a própria autonomia em um cenário internacional marcado pela disputa entre grandes potências. A avaliação é do embaixador Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais e ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa.
Em entrevista ao programa Nocaute, apresentado pelo jornalista e escritor Fernando Morais na TV 247, Amorim afirmou que a transição de uma ordem internacional liderada pelos Estados Unidos para um sistema multipolar ocorreu de forma diferente daquela imaginada pelo Brasil nas últimas décadas. Para ele, o desafio agora é impedir que a multipolaridade seja substituída por uma divisão do planeta em zonas subordinadas às grandes potências.
“Ninguém mais pode falar no mundo unipolar”, afirmou Amorim. Segundo o diplomata, nem os próprios Estados Unidos sustentam hoje, nos mesmos termos do período posterior ao fim da União Soviética, a condição de única potência capaz de organizar o sistema internacional.
O problema, acrescentou, é que a perda da unipolaridade não produziu automaticamente uma ordem internacional baseada em regras, cooperação e equilíbrio entre diferentes polos. “Eles, de alguma maneira, mudaram um pouco a ideia do conceito de multipolaridade para olhar a ideia de áreas de influência. E aí realmente eu acho que é o maior desafio que nós temos hoje”, disse.
É nesse contexto que Amorim situa a importância dos BRICS e da política brasileira para o Sul Global. Para ele, o país precisa manter relações abertas com diferentes centros de poder e construir alternativas que reduzam sua dependência de qualquer uma das grandes potências.
“A gente também pode se colocar no mundo de uma maneira mais diversificada, fortalecendo a multipolaridade, fortalecendo uma visão mais ampla, mais livre das opções que existem”, afirmou.
BRICS como instrumento de autonomia
Amorim destacou que a expansão dos BRICS aumentou a diversidade política dentro do grupo e, consequentemente, tornou mais complexa a construção de consensos. O bloco, que originalmente reunia Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passou nos últimos anos por um processo de ampliação.
Segundo ele, as diferenças entre os integrantes não eliminam o valor estratégico da articulação.
“Os BRICS, como tudo, também têm passado por momentos difíceis. A ampliação dos BRICS levou a uma maior diversidade de opiniões. Então nem sempre tudo ocorre do jeito que a gente desejava. Mas essa nossa relação especial com os países membros dos BRICS é muito importante”, declarou.
A lógica defendida por Amorim não é a criação de um bloco de alinhamento automático contra os Estados Unidos ou a Europa. A estratégia brasileira, segundo ele, consiste justamente em ampliar alternativas diplomáticas, econômicas e tecnológicas.
Amorim argumentou que essa diversificação se tornou ainda mais necessária porque o sistema internacional baseado em normas e organismos multilaterais perdeu capacidade de conter decisões unilaterais.
O ex-chanceler recordou que, no passado, mesmo quando o Brasil discordava das regras comerciais internacionais, havia mecanismos para contestar medidas adotadas por outros países.
“Nós tivemos disputas com os Estados Unidos […] tudo se resolvia ou não se resolvia, mas de qualquer maneira se encaminhava diplomaticamente através das regras, até dos julgamentos”, afirmou.
Ele citou o contencioso do algodão entre Brasil e Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), no qual o país conseguiu autorização para adotar medidas de retaliação.
“Hoje não tem regra, vai lá e impõe uma tarifa. Aí diz que vai negociar. Mas vai negociar a partir do quê? A partir do que já está colocado”, disse.
Na avaliação do assessor presidencial, esse enfraquecimento das instituições multilaterais amplia a importância de estruturas como os BRICS e de relações bilaterais capazes de garantir margem de ação ao Brasil.
América do Sul como dimensão estratégica
Amorim também colocou a integração sul-americana no centro da estratégia de autonomia do país.
Segundo ele, mesmo um Estado com o tamanho territorial, populacional e econômico do Brasil enfrenta limitações para atuar isoladamente em um sistema dominado por economias como Estados Unidos e China e por potências militares como a Rússia.
“O Brasil é um grande país […] mas, mesmo sendo um grande país, no mundo de China, Estados Unidos, Rússia […] e a Europa tendo uma união, você tem que pensar numa união da América do Sul. Não há como deixar de pensar”, declarou.
Para o diplomata, a cooperação regional não pode depender da coincidência ideológica entre os governos.
Amorim lembrou que durante os primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva o Brasil manteve projetos de integração com administrações latino-americanas de diferentes orientações políticas.
O princípio, argumentou, deveria continuar sendo aplicado.
“É preciso trabalhar muito, é preciso não desistir, é preciso às vezes fechar os olhos ou talvez até apertar o nariz para continuar o processo de integração com países que hoje pensam de uma maneira totalmente diferente da nossa”, disse.
A integração regional, segundo Amorim, precisa ser construída por meio de projetos concretos de infraestrutura, logística, energia e comunicação.
“Ferrovia não tem ideologia, fibra ótica não tem ideologia”, resumiu.
Para o assessor de Lula, redes ferroviárias, conexões digitais e outros mecanismos de integração física podem criar interesses comuns entre os países da região independentemente das mudanças políticas nacionais.
A construção dessa infraestrutura também teria uma dimensão geopolítica. Quanto maior a capacidade da América do Sul de operar como espaço econômico integrado, menor seria a vulnerabilidade individual dos países da região diante das disputas entre grandes potências.
“Nós temos que continuar com esses programas e esses projetos para tentar um certo equilíbrio no mundo e não deixar que o Brasil sucumba a essa filosofia de áreas de influência”, afirmou.
China: parceria precisa ir além das commodities
A relação com a China ocupa posição central nessa estratégia.
Amorim destacou a expansão das relações econômicas entre Brasília e Pequim, mas afirmou que o Brasil precisa avançar para um estágio no qual os investimentos chineses produzam também capacidade tecnológica dentro do território brasileiro.
“Nós temos uma cooperação muito ampla com a China”, disse.
Segundo ele, a pauta comercial brasileira ainda permanece concentrada em produtos de menor intensidade tecnológica.
“O Brasil vende muito só carne. Muito bem que venda a carne […] mas, de qualquer maneira, nós queremos também poder desenvolver internamente”, afirmou.
O diplomata citou a instalação de fabricantes chineses de automóveis no país como exemplo de uma transformação em curso, mas defendeu que a estratégia industrial vá além da montagem dos veículos.
“Eles passaram a produzir automóveis no Brasil, mas a gente quer que eles produzam o íon, a bateria do automóvel no Brasil”, declarou.
A discussão, portanto, envolve a transferência e a produção de tecnologia no país.
Amorim afirmou que pretende levar esse tema às conversas com autoridades chinesas, especialmente diante da expansão de setores como inteligência artificial, semicondutores, armazenamento de energia e outras tecnologias consideradas estratégicas.
“Como é que você vai consolidar, a médio prazo e a longo prazo, essa parceria estratégica na área de inteligência artificial?”, questionou.
Para o embaixador, a experiência chinesa demonstra a velocidade com que políticas industriais e tecnológicas podem transformar a posição internacional de um país.
Ele recordou sua primeira viagem à China, na década de 1980, durante as negociações que resultaram na cooperação sino-brasileira para o desenvolvimento de satélites.
Desde então, afirmou, a transformação chinesa foi profunda.
“Acho que a gente tem que pegar um pouco desse dinamismo, absorver esse dinamismo sem ter uma dependência total”, disse.
Essa última ressalva resume a estratégia defendida por Amorim: aprofundar a relação com a China sem substituir uma dependência por outra.
Índia e cooperação em defesa
A Índia também aparece como um dos pilares dessa diversificação.
Amorim destacou as possibilidades de cooperação entre os dois países no setor de defesa, inclusive com a participação da Embraer em negociações envolvendo o cargueiro militar KC-390.
“A nossa cooperação em defesa pode aumentar muito. Não aumentou ainda o que poderia, mas há possibilidades, há perspectivas com a Embraer muito grandes”, disse.
O ex-ministro da Defesa relacionou essa política à necessidade de o Brasil ampliar sua capacidade de proteger interesses nacionais em um ambiente internacional no qual instrumentos econômicos, tecnológicos e militares estão cada vez mais conectados.
Segundo ele, o conceito de defesa não pode mais ser limitado à compra de aviões, navios ou equipamentos militares.
“Quando você fala em defesa, você não está falando só em comprar os brinquedinhos. Você está falando em minerais críticos, está falando em inteligência artificial”, afirmou.
A soberania, nessa interpretação, passa a depender também da capacidade do país de controlar tecnologias, dados, recursos naturais e cadeias produtivas consideradas estratégicas.
Código aberto e inteligência artificial
Amorim dedicou parte da entrevista à discussão sobre inteligência artificial e destacou o interesse brasileiro em sistemas baseados em código aberto.
“O código aberto nos permite mudar e fazer coisas que nos interessem e às quais os outros não terão acesso”, explicou.
Ele comparou esse princípio às exigências feitas pelo Brasil na compra dos caças Gripen, quando o país buscou assegurar acesso tecnológico e capacidade de adaptação dos sistemas.
“Não tem caixa-preta”, resumiu.
Na avaliação do diplomata, a mesma preocupação precisa ser levada para aplicações civis e para a inteligência artificial.
A posição brasileira combina dois objetivos: domínio tecnológico e capacidade regulatória.
Amorim defendeu que o desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial esteja sujeito a normas relacionadas a questões éticas, sociais e políticas, rejeitando a ideia de que essas tecnologias possam operar sem qualquer forma de controle público.
A agenda tecnológica, portanto, torna-se mais um componente da política externa.
Uma política externa sem alinhamento automático
A estratégia descrita por Amorim recupera, em novas condições, o conceito de política externa “ativa e altiva” associado ao período em que comandou o Itamaraty durante o primeiro governo Lula.
O próprio diplomata explicou a origem da expressão.
Segundo ele, mais do que definir posições específicas, o conceito procurava estabelecer uma atitude diante das relações internacionais: defender as posições brasileiras sem receio de confrontar interesses de países mais poderosos e, ao mesmo tempo, agir para construir alianças.
“A nossa atitude não muda, mas o como fazer se altera”, afirmou ao comparar o início dos anos 2000 com a conjuntura atual.
Amorim classificou aquele período como uma “época de oportunidades”. Duas décadas depois, segundo ele, o Brasil enfrenta uma “época de dificuldades”.
A diferença está no ambiente internacional.
Se no início do século havia espaço para a ampliação de instituições multilaterais e para uma integração regional que reunia governos de distintas orientações políticas, o cenário atual é marcado por guerras, sanções, disputas comerciais, competição tecnológica e pressões por alinhamentos.
Nesse contexto, a política de não alinhamento automático assume outra função: criar condições para que o Brasil preserve seu espaço de decisão.
A aproximação com China, Índia, Rússia e outros integrantes dos BRICS, segundo Amorim, não significa fechar canais com Estados Unidos ou Europa.
Significa impedir que qualquer parceiro tenha condições de determinar sozinho as escolhas brasileiras.
“Nós não vamos querer sancionar os Estados Unidos, com poucas exceções”, disse o diplomata ao explicar que a estratégia não busca romper relações econômicas existentes.
O objetivo é outro: “poder se colocar no mundo de uma maneira mais diversificada”.
Para Amorim, é dessa diversificação — combinando BRICS, integração sul-americana, política industrial, autonomia tecnológica, capacidade de defesa e preservação do multilateralismo — que dependerá parte da soberania brasileira em uma ordem internacional na qual as regras perderam força e as grandes potências voltaram a disputar zonas de influência.
Fonte: Brasil 247