Cônsul de Cuba: “A situação de hoje é a mais perigosa de todas”
Por Dafne Ashton — Brasil 247
247 – O cônsul-geral de Cuba em São Paulo, Benigno Pérez, afirmou que seu país atravessa o momento de maior risco desde a Revolução Cubana de 1959 diante do aumento das pressões econômicas, energéticas e militares exercidas pelos Estados Unidos. Segundo o diplomata, o governo de Donald Trump intensificou uma estratégia destinada a reduzir a capacidade econômica da ilha, aprofundar suas dificuldades internas e criar condições políticas para uma possível escalada contra o país.
As declarações foram dadas em entrevista coletiva promovida pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, com participação de jornalistas de veículos como Brasil 247, Brasil de Fato, TVT News, Fórum, Diálogos do Sul Global e Voz Trabalhadora. Ao longo da conversa, Pérez descreveu o que classifica como uma “guerra híbrida” contra Cuba, formada pela combinação entre sanções econômicas, pressão informacional e ameaça militar.
“Contra Cuba há uma guerra híbrida. De um lado está a asfixia econômica, tentando dobrar o povo cubano. Paralelamente há uma guerra midiática e uma ameaça militar. Essas são as três grandes vias da guerra contra Cuba”, afirmou.
Na avaliação do cônsul, a dimensão midiática dessa ofensiva busca apresentar Cuba como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos e preparar a opinião pública norte-americana para medidas de maior alcance. Pérez questionou a ideia de que uma ilha de cerca de 9,5 milhões de habitantes, submetida a dificuldades econômicas e com capacidade militar muito inferior à norte-americana, possa representar uma ameaça estratégica a Washington.
“A guerra midiática tem como propósito convencer o povo norte-americano de que Cuba é uma ameaça incomum e extraordinária para a segurança nacional dos Estados Unidos”, disse.
Pérez sustenta que a pressão sobre Havana deve ser compreendida dentro de uma disputa mais ampla sobre soberania, autonomia política e influência na América Latina. Segundo ele, o conflito entre os dois países não se limita às divergências ideológicas em torno do socialismo cubano, mas está diretamente relacionado à tentativa histórica dos Estados Unidos de manter influência sobre a ilha.
Foi nesse contexto que o diplomata tratou da possibilidade de uma agressão militar. Ele afirmou que Cuba considera esse cenário concreto, embora tenha reforçado que Havana procura evitar um confronto.
“A possibilidade de uma agressão militar é real. Cuba é um país de paz. O povo cubano quer a paz e não queremos uma guerra com os Estados Unidos”, afirmou.
Pérez reconheceu a diferença entre a capacidade militar dos dois países e disse que Cuba não poderia enfrentar os Estados Unidos em uma guerra convencional. Por isso, recordou a doutrina de defesa desenvolvida durante o governo de Fidel Castro, baseada na chamada “guerra de todo o povo”, segundo a qual uma eventual ocupação do território encontraria resistência prolongada.
“Fidel dizia que Cuba se transformaria em um vespeiro. O Exército poderia entrar, mas poderia não sair de Cuba”, declarou.
Ainda assim, o cônsul insistiu que a prioridade do governo cubano é impedir que esse cenário se concretize. Segundo ele, Havana mantém disposição para conversar com autoridades norte-americanas sobre diferentes temas, desde que a soberania e a independência cubanas não sejam colocadas em negociação.
“Queremos evitar uma guerra. Estamos dispostos a conversar com os Estados Unidos sobre todos os problemas que temos, exceto soberania e independência”, afirmou.
“A soberania de Cuba depende do povo cubano”, acrescentou.
A pressão sobre a ilha, no entanto, não ocorre apenas no campo militar. Pérez afirmou que o cerco econômico se aprofundou especialmente no setor energético, com efeitos diretos sobre a geração de eletricidade, o transporte, a produção industrial e o turismo. Segundo ele, medidas adotadas pelo governo Trump passaram a pressionar países e empresas envolvidos no fornecimento de combustível para Cuba, elevando o risco comercial de qualquer operação com a ilha.
“Nenhum país do mundo pode prescindir do petróleo, e isso o governo dos Estados Unidos sabe”, afirmou.
De acordo com o cônsul, Cuba precisa aproximadamente de um carregamento semanal de petróleo para manter o funcionamento regular de sua economia, mas recebeu apenas uma grande remessa durante vários meses de 2026. Como consequência, os apagões se tornaram recorrentes e, em determinadas localidades, podem se estender por 20 ou 22 horas.
A falta de combustível também afetou o turismo, uma das principais fontes de divisas do país. Pérez afirmou que companhias aéreas reduziram operações diante das dificuldades para reabastecer aeronaves na ilha, agravando a queda do número de visitantes.
“Golpearam a coluna vertebral da economia cubana, que era o turismo”, afirmou.
Segundo ele, Cuba chegou a receber cerca de 4,5 milhões de turistas por ano antes da pandemia de Covid-19, enquanto em 2026 dificilmente alcançaria a marca de um milhão.
A tentativa de reduzir essa dependência energética levou o governo cubano a acelerar investimentos em fontes renováveis. Pérez afirmou que cerca de 600 megawatts de capacidade solar foram instalados entre 2025 e 2026, em parte com apoio da China. O objetivo é diminuir a necessidade de importação de combustíveis e tornar a matriz elétrica menos vulnerável às sanções.
“Cuba não pode continuar importando petróleo se temos a energia do sol. Mas precisamos de tempo”, declarou.
Segundo os números apresentados pelo diplomata, o país necessita de aproximadamente 3,2 mil a 3,3 mil megawatts para atender plenamente sua demanda. Parte dessa energia é produzida com recursos internos, enquanto a geração solar começa a ocupar espaço maior na matriz elétrica. Ainda assim, Pérez ressaltou que a transição não pode ser feita rapidamente e que os efeitos do cerco energético continuam sendo sentidos pela população.
O cônsul também denunciou dificuldades no transporte de mercadorias destinadas à ilha. De acordo com ele, cerca de 7 mil contêineres estariam retidos em portos próximos de Cuba, muitos deles carregados com alimentos, medicamentos e equipamentos de energia solar. A razão, segundo Pérez, é o temor de empresas marítimas de sofrer sanções ou represálias dos Estados Unidos caso mantenham operações com Havana.
“Há 7 mil contêineres nos portos ao redor de Cuba. A maioria tem alimentos e medicamentos. Também há kits solares. As empresas marítimas não querem transportá-los para Cuba”, afirmou.
Para o diplomata, a estratégia de Washington busca aprofundar os problemas econômicos e sociais até que a situação possa ser apresentada internacionalmente como uma crise humanitária capaz de justificar novas formas de intervenção.
“Eles querem criar uma crise humanitária que sirva de pretexto para uma invasão militar, uma invasão humanitária”, declarou.
Pérez rejeitou também a caracterização de Cuba como um “Estado falido”, expressão utilizada por setores que defendem maior pressão sobre o governo cubano.
“Cuba é um Estado cercado, não um Estado falido”, afirmou.
Como exemplo, mencionou a manutenção do funcionamento das escolas mesmo sob apagões, escassez de combustíveis e dificuldades de importação.
“Que Estado falido pode começar um ano letivo em 1º de setembro com mais de um milhão de crianças nas escolas? Em Cuba há problemas, mas há ordem”, disse.
Ao comparar o cenário atual com outros períodos de tensão entre Washington e Havana, Pérez afirmou que o momento presente é, em sua avaliação, o mais perigoso desde 1959.
“A situação de hoje é a mais perigosa de todas. Sem dúvida. Não temos dúvida, pelo caráter deste governo de Trump”, declarou.
O cônsul observou que diferentes administrações norte-americanas mantiveram políticas de pressão contra Cuba, embora algumas tenham adotado momentos de maior diálogo, como nos governos de Jimmy Carter e Barack Obama. Para ele, a atual administração retomou uma política expansionista e de intervenção direta na América Latina.
Pérez também destacou o peso político do secretário de Estado Marco Rubio, descendente de cubanos e historicamente ligado aos setores mais hostis à Revolução Cubana dentro da política norte-americana. Segundo o cônsul, a presença de Rubio em um dos postos centrais da política externa dos Estados Unidos representa uma mudança importante na relação com Havana.
“É a primeira vez nesses 65 anos de revolução que um descendente de cubanos da extrema direita chegou aos altos níveis do governo dos Estados Unidos”, afirmou.
Diante desse quadro, Pérez defendeu uma reação maior da comunidade internacional. Ele antecipou que Cuba voltará a levar à Assembleia Geral das Nações Unidas a denúncia dos efeitos do bloqueio econômico, comercial e financeiro. Ano após ano, a maioria dos países vota por sua suspensão, mas o diplomata afirmou que Washington estaria intensificando a pressão sobre outros governos para reduzir o apoio à resolução.
“Esperamos ter um apoio esmagador da comunidade internacional”, declarou.
Pérez, contudo, diferenciou a postura dos governos da solidariedade manifestada por movimentos sociais, organizações populares e cidadãos de diferentes países. Segundo ele, Cuba continua recebendo apoio material e político mesmo em meio ao agravamento das sanções.
“Estamos muito agradecidos pela solidariedade dos povos do mundo. É muito importante que os Estados Unidos saibam que Cuba não está sozinha”, afirmou.
O cônsul também apontou o BRICS como um espaço que pode contribuir para reduzir a vulnerabilidade econômica cubana. Ele descartou qualquer papel militar para o bloco, mas defendeu que seus integrantes possam ampliar mecanismos financeiros, comerciais e tecnológicos capazes de oferecer alternativas às estruturas dominadas pelas potências ocidentais.
“Os BRICS nasceram para dar um equilíbrio ao mundo. Podem desempenhar um papel importante para continuar avançando nesse mundo multipolar”, afirmou.
Segundo Pérez, Cuba espera receber créditos, investimentos e novas formas de cooperação por meio dos países do bloco. Ele também ressaltou o papel do Brasil, especialmente de organizações sociais envolvidas em campanhas para envio de medicamentos, equipamentos e recursos destinados à compra de painéis solares.
“A maioria dos nossos amigos é pobre, não é dona de fábricas nem de bancos. Sabemos o que significam para um brasileiro pobre cinco reais, dez reais, vinte reais. O importante é a ação”, afirmou.
Ao final da entrevista, o diplomata resumiu a situação da ilha e o impacto que pequenas ações de solidariedade podem produzir diante da escassez.
“Precisamos de mais, porque querem nos isolar, querem nos asfixiar. Uma aspirina pode fazer a diferença”
Fonte: Brasil 247