Aos 81 anos, Vanda da Silva aprende a ler para realizar o sonho de ler a Bíblia sozinha
Por Bruna Ariadne — Jornal Opção

Aos 81 anos, Vanda da Silva ainda espera pelo dia em que poderá abrir a Bíblia, escolher uma passagem e ler sem precisar chamar alguém para ajudá-la. Foi com esse objetivo que ela voltou à sala de aula, em Goiânia, para aprender algo que não teve oportunidade de aprender na infância.
A decisão veio depois de décadas convivendo com uma limitação que aparece nas situações mais simples do cotidiano. Ler um texto, compreender uma informação escrita ou realizar determinadas tarefas sem auxílio de outra pessoa nem sempre foi possível.
A perda recente de pessoas próximas, que costumavam ajudá-la nessas situações, tornou a busca por independência ainda mais urgente.
“Meu principal objetivo é conquistar mais autonomia no dia a dia e, entre todos, um desejo especial se destaca: conseguir ler a Bíblia por conta própria”, conta.
Hoje, Vanda frequenta aulas de alfabetização duas vezes por semana no Setor Central da capital. Entre letras, palavras e exercícios, tenta recuperar um aprendizado que ficou para trás por mais de oito décadas.
“A dor no corpo não é maior”
Aprender aos 81 anos também significa negociar diariamente com os limites do próprio corpo. Vanda relata que convive com dores frequentes, que algumas vezes dificultam a rotina e interferem no ritmo das aulas.
Ela, no entanto, decidiu continuar.
“A dor no corpo não é maior do que a minha vontade de aprender. Cada aula é um passo, e eu não vou parar até conseguir ler sozinha”, afirma.
Para quem aprendeu a ler ainda criança, reconhecer uma palavra em uma página pode parecer algo automático. Para Vanda, cada avanço representa um pouco mais de independência.
A Bíblia é o objetivo mais simbólico, mas não o único. A alfabetização também pode reduzir a dependência de terceiros para atividades corriqueiras, da leitura de uma placa à compreensão de um documento.
Uma realidade que atravessa gerações
Vanda divide a sala com pessoas que chegaram à alfabetização por caminhos diferentes. Uma delas é Marlene Lúcia dos Santos, de 65 anos, que decidiu estudar depois de ser incentivada pelos netos.
No caso de Marlene, aprender a ler começou a produzir mudanças práticas. Ela relata maior independência para utilizar o transporte coletivo e seguir receitas culinárias.
As duas fazem parte de uma geração em que o analfabetismo permanece significativamente mais presente do que entre os mais jovens.
Embora Goiás tenha reduzido a taxa geral de pessoas que não sabem ler e escrever, o problema está longe de desaparecer.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes a 2025 apontam que 3,5% dos goianos com 15 anos ou mais eram analfabetos. O percentual corresponde a aproximadamente 207 mil pessoas.
Entre a população mais velha, o cenário é mais grave: a taxa chega a 12,3%.
No Brasil, o índice de analfabetismo caiu para 4,9% em 2025, ficando abaixo de 5% pela primeira vez desde 2016. Ainda assim, cerca de 8,4 milhões de brasileiros não sabiam ler e escrever.
Por trás dos números estão trajetórias marcadas, muitas vezes, pelo acesso tardio ou inexistente à escola. São brasileiros que chegaram à vida adulta e à velhice desenvolvendo maneiras de lidar com um mundo no qual boa parte das atividades mais básicas depende da leitura.
Voltar à escola também exige vencer a vergonha
O retorno à sala de aula depois dos 60, 70 ou 80 anos não envolve apenas aprender o alfabeto.
Segundo Katiuscia Soares, coordenadora do programa frequentado por Vanda, parte dos alunos chega acreditando que a idade tornou o aprendizado impossível.
“O maior obstáculo em sala de aula normalmente não é pedagógico, mas emocional. Fazer o aluno adulto superar a crença de que já é tarde demais para aprender costuma ser o primeiro, e mais difícil, passo do processo”, afirma.
O avanço, nesses casos, nem sempre é medido apenas por provas ou exercícios. Conseguir identificar uma placa na rua, compreender uma frase curta ou preencher sozinho um formulário pode representar uma mudança importante na rotina.
Vanda ainda percorre esse caminho.
Duas vezes por semana, ela participa das aulas do Programa de Alfabetização e Letramento da Estácio Goiás, realizado gratuitamente no Shopping Estação Goiânia. A iniciativa atende jovens, adultos e idosos que não foram alfabetizados ou que querem desenvolver conhecimentos básicos de leitura, escrita e matemática.
Mas, para Vanda, a medida do aprendizado é outra.
Está nas páginas de um livro que ela já conhece, mas que ainda quer descobrir com os próprios olhos. Aos 81 anos, seu objetivo é simples de explicar e difícil de dimensionar: ler a Bíblia sozinha.
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Fonte: Jornal Opção