Mercadante rejeita divisão do BNDES proposta por Augusto Cury: ‘enfraqueceria apoio a pequenos negócios’
Por Aquiles Lins — Brasil 247
247 – O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, rejeitou nesta segunda-feira (14) a proposta de dividir a instituição em dois bancos e afirmou que a medida reduziria a capacidade do banco público de financiar o desenvolvimento e atender empresas de menor porte.
A declaração foi dada durante evento do Grupo Esfera, em São Paulo, em resposta à proposta do candidato à Presidência da República Augusto Cury de criar uma instituição separada voltada a micro, pequenas e médias empresas (MPMEs).
“Um banco com 3 mil servidores, se você dividir por meio, não vai cuidar de micro e pequena empresa, porque não temos nem agência nos Estados”, afirmou Mercadante.
Segundo ele, o atual modelo permite ao BNDES alcançar empresas de menor porte por meio de uma rede de aproximadamente 80 agentes financeiros, formada por bancos privados, cooperativas de crédito e outras instituições que repassam os recursos do banco de desenvolvimento.
“Nos últimos três anos e meio nós aprovamos crédito para 1,723 milhão de operações para micro, pequenas e médias empresas. Foram R$ 324 bilhões para micro, pequenas e médias empresas”, disse.
Fundo garantidor amplia acesso ao crédito
Mercadante destacou que o BNDES atua em parceria com instituições como Bradesco, Itaú e BTG, além de cooperativas de crédito, para fazer com que os financiamentos cheguem a empresas espalhadas pelo país.
O presidente do banco também apontou os fundos garantidores como um dos principais mecanismos para ampliar o acesso ao financiamento, especialmente para negócios que encontram dificuldades para oferecer garantias exigidas pelo sistema financeiro.
“O grande instrumento é o fundo garantidor. Esse é o papel do banco público”, afirmou.
Para Mercadante, a estrutura atual do BNDES permite que o banco cumpra uma função complementar ao sistema financeiro privado, sem precisar manter uma rede própria de agências nos Estados.
Mercadante critica defesa do Estado mínimo
O presidente do BNDES afirmou que a discussão sobre a eventual divisão da instituição está inserida em um debate mais amplo sobre o papel do Estado na economia.
“A divergência de fundo é a relação Estado-mercado. É um equívoco o Brasil continuar insistindo que o caminho para o desenvolvimento é o Estado mínimo”, declarou.
Segundo Mercadante, grandes economias mundiais vêm aumentando a utilização de políticas públicas, subsídios e mecanismos de incentivo para proteger setores estratégicos e estimular investimentos.
Ele citou China, Estados Unidos e países da União Europeia como exemplos de economias que recorrem à atuação estatal para fortalecer suas empresas e suas políticas industriais.
Na avaliação do presidente do BNDES, um recuo da participação do poder público poderia intensificar o processo de desindustrialização no Brasil.
Mercadante ponderou, porém, que o banco também não deve substituir a iniciativa privada.
“O BNDES não pode querer substituir o mercado de capitais. Não é esse o papel dele, nem queremos um BNDES inchado”, afirmou.
Banco quer atuar onde mercado oferece menos crédito
Mercadante disse que a atual estratégia é manter o tamanho do BNDES em um patamar próximo a 2% do Produto Interno Bruto (PIB).
O nível é inferior ao observado no período posterior à crise financeira internacional de 2008, quando os ativos da instituição chegaram a representar entre 4% e 5% do PIB.
Segundo ele, o banco deve concentrar sua atuação principalmente em segmentos nos quais o mercado privado não oferece crédito em condições suficientes para financiar projetos de longo prazo.
A lógica, afirmou, é utilizar a capacidade do BNDES também como instrumento para atrair e mobilizar investimentos privados.
Mercadante cita crescimento dos ativos e baixa inadimplência
Durante o evento, Mercadante também apresentou indicadores financeiros recentes do banco.
Segundo o presidente, o BNDES registra atualmente o segundo melhor resultado do sistema financeiro, alcançou lucro recorrente histórico e apresenta inadimplência de 0,05%, apontada por ele como a menor do mercado.
Os ativos da instituição, ainda de acordo com Mercadante, passaram de aproximadamente R$ 620 bilhões para mais de R$ 1,1 trilhão ao longo dos últimos três anos e meio.
O banco possui hoje cerca de 3 mil funcionários. Mercadante afirmou que o concurso público realizado pela instituição recebeu 92 mil inscrições e que 75% dos novos servidores têm mestrado ou doutorado.
Presidente destaca transparência do BNDES
Mercadante também defendeu a gestão da instituição sob o ponto de vista da transparência e da eficiência administrativa.
Segundo ele, o Tribunal de Contas da União (TCU) reconheceu o BNDES, por três anos consecutivos, como a instituição pública mais transparente do país.
O presidente do banco citou ainda reconhecimentos da Controladoria-Geral da União (CGU) e da Câmara dos Deputados. “Uma instituição pública pode ser eficiente, pode ser transparente, pode ter resultado”, afirmou.
Fonte: Brasil 247