Extrema-direita e ‘machosfera’ articulam ofensiva contra o voto feminino no Brasil
Por Guilherme Levorato — Brasil 247
247 – Uma articulação organizada na internet vem promovendo ataques sistemáticos ao sufrágio feminino e à participação política das mulheres no Brasil e no exterior, conectando influenciadores da chamada “machosfera”, grupos extremistas e vertentes do meio político conservador, informa reportagem da BBC News Brasil. O movimento, que ganhou visibilidade após declarações do influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo questionando a “qualidade” do voto feminino, integra um ecossistema digital focado em associar a emancipação da mulher a crises sociais e democráticas.
A investigação, desenvolvida ao longo de três meses pelo veículo, mapeou vídeos, transmissões ao vivo e programas de podcast com milhões de visualizações e interações. Nesses espaços, criadores de conteúdo e convidados propagam teses como a de que “o voto feminino é o erro da democracia ocidental”. O discurso ultrapassou as margens de nichos da internet e já atinge debates partidários no Brasil e círculos de extrema-direita nos Estados Unidos.
A única mulher a integrar o Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, classificou a mera proposição de alteração do sufrágio universal como inconstitucional ao analisar o material apurado. A magistrada ressaltou que dois artigos da Carta Magna vedam retrocessos em direitos fundamentais e ressaltou que a tentativa de tolher o direito das mulheres reflete “um medo exagerado, um medo um pouco covarde de alguns que não têm capacidade de convencer eleitores”. Segundo Cármen Lúcia, para extinguir o voto feminino no país, “a Constituição tinha que ser rasgada”.
Machosfera, redpill e discursos radicais
Entre os nomes mapeados pela reportagem está Renato Amoedo, conhecido como “Renato 38ão”, influenciador do segmento de investimentos e propagador da cultura redpill — comunidade que defende a dominância masculina e a constante vigilância sobre as mulheres. Com perfil anteriormente seguido por mais de 900 mil pessoas no Instagram antes de ser derrubado, Amoedo acumula declarações em que afirma que o estudo e o trabalho são formas de “autodestruição” para as mulheres e atribui à concessão do voto feminino, em 1932, a origem do Estado de bem-estar social moderno. Para ele, ao obterem independência financeira do Estado, as mulheres deixaram de depender de pais e maridos.
Amoedo também já deu declarações minimizando o casamento infantil, afirmando não ver problemas na união de adultos com crianças caso haja concordância dos pais. Procurado para entrevistas, o influenciador recusou o contato por meio de assessores.
Ele é participante frequente do podcast Redcast, apresentado por Junior Masters e voltado ao público masculino, com mais de um milhão de inscritos no YouTube. Em uma das edições, a pré-candidata a deputada federal Ana Hering, vinculada ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao partido Missão, afirmou no ar que “o mundo começou a desandar quando a mulher começou a dar a opinião dela. E começaram a ouvir”.
Questionada pela reportagem, Ana Hering declarou que sua fala no programa tratava-se de uma sátira e de uma piada sobre a declaração prévia do apresentador. No entanto, em outro momento do episódio, a pré-candidata sustentou que a mulher “naturalmente se interessa menos por política” e por isso compra “discursos prontos”, afirmação que defendeu na entrevista ao alegar que o desinteresse levaria à “superficialidade”.
Durante o mesmo programa, o apresentador Junior Masters alegou sem base científica que o cérebro feminino operaria apenas pela empatia, enquanto o masculino seria “sistemático”. A tese é rebatida pela neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, pesquisadora da Universidade Vanderbilt (EUA), que classifica como “besteirada pura” a ideia de distinção cognitiva estrutural entre sexos. De acordo com a cientista, com exceção de circuitos específicos no hipotálamo voltados ao comportamento sexual, os cérebros de homens e mulheres funcionam da mesma forma na tomada de decisões.
Mulheres em defesa da perda do próprio voto
A rede do conservadorismo radical inclui ainda influenciadoras mulheres que defendem publicamente a abdicação do próprio direito de votar. A consultora de investimentos Fernanda Guardian, radicada em Miami e com 300 mil seguidores, declarou em suas redes que “o voto feminino foi um erro” e que as mulheres votam historicamente na esquerda.
Declaração idêntica foi proferida por Paulo Figueiredo, neto do último ditador do regime militar brasileiro, João Figueiredo. Em transmissão ao vivo, Figueiredo afirmou que “mulheres votam estatisticamente mal”, sobretudo as solteiras. Na ocasião, o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegou a repudiar a fala, sustentando que cabe à direita convencer o eleitorado feminino.
Estudos de opinião no Brasil indicam que o presidente Lula (PT) detém maior preferência no eleitorado feminino em relação aos adversários da direita, disparidade atribuída por analistas à rejeição de estilo e à avaliação de políticas públicas voltadas a esse segmento.
Outra figura em destaque é Pietra Bertolazzi, influenciadora com 1,3 milhão de seguidores que prega a “submissão feminina” e a oposição à democracia e ao Estado moderno, manifestando preferência por regimes monárquicos. Em entrevista, ela afirmou que a atual liberdade feminina dentro do sistema democrático seria uma “ilusão de poder” acompanhada de “ressentimento feminista”.
Historiadores e cientistas políticos apontam que a retórica machista mascara uma ofensiva direta contra o próprio regime democrático. Para Tatiana Vargas-Maia, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a pregação visa naturalizar o questionamento das regras do jogo democrático em reação às transformações sociais e à divisão de poder conquistada por minorias no último século.
Conexões internacionais e propostas de ‘voto familiar’
O discurso contra o voto individual feminino encontra respaldo em correntes religiosas radicais nos Estados Unidos que influenciam a extrema-direita brasileira. O missionário Joffre Swait, da Missão Guanabara, atua na disseminação das teses do pastor norte-americano Douglas Wilson, liderança de uma congregação de mais de 150 igrejas nos EUA.
Wilson e seus apoiadores defendem o conceito de “voto familiar”, no qual cada núcleo familiar tem direito a apenas um sufrágio, exercido obrigatoriamente pelo homem como “cabeça da família”. O modelo é citado pelo secretário de Guerra do governo Donald Trump, Pete Hegseth, que já se declarou membro da congregação do pastor. Em seus escritos, Wilson classificou a 19ª emenda à Constituição americana — que garantiu o voto feminino em 1920 — como “uma ideia terrível”.
No Brasil, o conceito de “democracia familiar” foi publicado no sexto volume do Livro Amarelo, conjunto de cartilhas concebido pelo partido Missão, ligado a Renan Santos e Ana Hering. O texto critica o sufrágio universal direto e defende a restauração da família como a verdadeira “célula política”.
Procurado pela reportagem em múltiplas ocasiões, o partido Missão não respondeu aos questionamentos diretos sobre se a tese integra suas diretrizes oficiais, mas declarou anteriormente ao jornal O Estado de S.Paulo que os fascículos seriam textos ensaísticos e “provocações deliberadas”, sem caráter programático. Em entrevista recente, Renan Santos negou que a proposta faça parte de seu plano de governo.
Diante da escalada de declarações e da circulação do material, um grupo de deputadas federais acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para apurar se os discursos e as propostas contidas nas cartilhas configuram tentativa de intimidação e deslegitimação da presença das mulheres na vida pública nacional.
Fonte: Brasil 247