Empresas brasileiras devem buscar oportunidades de crescimento conjunto em Moçambique, diz embaixador brasileiro
Por Leonardo Sobreira — Brasil 247
Por Leonardo Sobreira (247) – O papel do Brasil nas relações econômicas com Moçambique passou por uma profunda transformação estrutural nas últimas décadas, deixando para trás o modelo focado majoritariamente no Estado e em grandes empreendimentos extrativistas, como ocorreu no chamado período de ouro da hiperglobalização até 2008. A avaliação foi feita pelo embaixador do Brasil em Moçambique, Essuatíni e Madagascar, Ademar Seabra da Cruz Junior, em entrevista a jornalistas após o Encontro Empresarial Brasil-Moçambique, na Feira Internacional de Maputo (FACIM). O evento foi promovido pela ApexBrasil, pela Agência de Promoção de Investimentos e Exportações (APIEX) e pelo Ministério das Relações Exteriores.
Segundo o embaixador, o arrefecimento temporário e o abrandamento das relações com o continente africano seguiram a lógica de mudanças globais, impulsionadas pela crise financeira de 2008 e, posteriormente, pelos impactos cruzados da pandemia de COVID-19. Agora, contudo, o cenário exige uma nova abordagem estratégica e inteligente, adaptada às realidades econômicas atuais e às severas restrições orçamentárias e fiscais enfrentadas pelo setor público brasileiro.
“O que nós estamos fazendo é uma participação supletiva do Estado brasileiro. O grande agente, como tem sido pontuado por todos os nossos intervenientes durante o evento, é o setor privado. É impossível fazermos um trabalho de cooperação robusta ou de participação em oportunidades econômicas robustas sem o setor privado”, afirmou o embaixador.
Seabra da Cruz Junior destacou que a nova fase das relações bilaterais baseia-se em uma tríade que descentraliza o protagonismo. Enquanto no passado principalmente empresas estatais lideravam as frentes por meio de grandes projetos, o eixo atual prioriza a atuação conjunta de empresas, privadas e estatais, de diversos portes e setores.
A delegação presente na FACIM, com quase 50 empresas, reflete esse esforço de arregimentação e mobilização. Embora companhias de grande porte, como Petrobras e Embraer, mantenham diálogos com atores locais, o movimento atual é impulsionado sobretudo por outras empresas focadas na reaproximação empresarial e na geração de oportunidades de desenvolvimento produtivo. Essa dinâmica inclui, ainda, a aproximação gradual entre centros de pesquisa e desenvolvimento do Brasil e de Moçambique.
“O Estado tem a sua presença, mas uma presença que nós sabemos que é limitada pelas dificuldades fiscais seríssimas hoje. Temos uma capacidade, uma excelência e uma estrutura institucional robusta que responde e dá resultados, e que é essencial justamente nesse processo de arregimentação”, explicou. “As empresas têm que fazer os seus negócios, as empresas têm que buscar os investimentos.”
Para o embaixador, a missão da embaixada é atuar como animadora e mobilizadora do empresariado, demonstrando que Moçambique representa um território estratégico para o crescimento e desenvolvimento conjunto. “Se nós não estivermos com essa presença, outros estarão. Os empresários são os protagonistas nesse aspecto”, pontuou.
A estratégia também aposta na inovação e na elevação da intensidade das cadeias produtivas de valor, de modo a torná-las mais intensivas em conhecimento. Entre as áreas prioritárias estão o setor farmacêutico — com o objetivo de ir além da simples venda de medicamentos e integrar a produção local —, o agronegócio com novas técnicas de produtividade e sustentabilidade, e o setor de insumos agropecuários e saúde.
“Não é só uma questão de extensionismo rural tradicional, mas de envolver novas técnicas de produtividade para competirmos no mercado global. Vamos elevar Moçambique juntos e, ao elevarmos Moçambique juntos, nós crescemos também”, avaliou.
O diplomata concluiu ressaltando o sucesso das relações bilaterais e a projeção no cenário global dependem diretamente da mobilização da sociedade civil brasileira. “O Estado brasileiro tem que ser o animador e o mobilizador das agendas. Nesse aspecto, estamos fazendo o trabalho correto e vislumbramos de fato um futuro muito bonito para este país em que sentimos que todos estão caminhando na mesma direção.”
Fonte: Brasil 247