“O Brasil é uma potência da paz”, diz Mauro Vieira em entrevista exclusiva ao Brasil 247
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
Por Leonardo Attuch, de Nova Déli — O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, definiu o Brasil como uma “potência da paz” e afirmou que a política externa brasileira tem como fundamentos o diálogo, a cooperação, a construção de consensos e o respeito ao direito internacional.
Em entrevista exclusiva ao Brasil 247, no Hotel Oberoi, em Nova Déli, durante a Cúpula dos BRICS, Vieira fez um amplo balanço da inserção internacional do País. Falou sobre a aproximação com a ASEAN, o salto das relações econômicas com a Índia, a presidência indiana dos BRICS, o papel crescente do Novo Banco de Desenvolvimento, a relação entre Índia e China e o futuro de um bloco que, segundo ele, entra agora numa fase de consolidação.
O chanceler também rejeitou enfaticamente a interpretação de que os BRICS sejam um bloco antiocidental ou que tenham como objetivo substituir o dólar. Para Vieira, o grupo deve ser compreendido sobretudo como um espaço de diálogo, cooperação e construção de consensos.
Confira a entrevista.
Brasil 247 – O senhor chega a Nova Déli depois de uma visita a países da ASEAN, como Singapura e Tailândia. Qual é o balanço dessa aproximação do Brasil com o Sudeste Asiático?
Mauro Vieira – Isso se insere num projeto de aproximação com a ASEAN, completando um pouco o percurso que eu já fiz em outros países. Já estive na Malásia, nas Filipinas, na Indonésia e em outros.
É uma instrução, uma determinação do presidente Lula de o Brasil se aproximar e aumentar a relação e o comércio com os países da ASEAN. Nesse sentido, começamos logo no início do governo dele, em 2023. Abrimos uma representação permanente, com um embaixador, em Jacarta, que é o representante junto à Secretaria-Geral da ASEAN, ou seja, é o interlocutor com a ASEAN.
Estabelecemos essa cooperação, nos tornamos parceiros de diálogo setorial da ASEAN e continuamos avançando. Há esse diálogo trilateral, com o secretário-geral da ASEAN, o ministro das Relações Exteriores do país que exerce a presidência pro tempore e o país que é parceiro setorial ou parceiro de diálogo.
Estamos agora fazendo um trabalho para avançar de parceiro de diálogo setorial para parceiro de diálogo, que é o nível mais alto dessa relação.
Há pouco mais de um mês, participei desse diálogo nas Filipinas, que exercem a presidência, e houve também a comemoração dos 50 anos do Tratado de Amizade e Cooperação, que deu a base para a ASEAN. O Brasil aderiu a esse tratado. Nós não somos membros e não seremos membros, porque não somos do Sudeste Asiático, mas fomos o primeiro país da América Latina a estabelecer uma representação permanente junto ao secretariado da ASEAN e o primeiro da América Latina a aderir ao tratado.
E já há um resultado econômico muito significativo, que vem crescendo muito. Isso era uma indicação natural. Nosso engajamento na organização era para aumentar e solidificar os laços, porque esse comércio já vinha crescendo muito.
Se você comparar as exportações dos últimos três anos para os cinco maiores mercados da ASEAN, elas foram iguais às exportações para os cinco principais parceiros do G7 nos últimos três anos. Só que o Brasil teve um grande superávit aqui na região e um grande déficit na União Europeia.
Isso mostra o acerto dessa estratégia de procurar esses mercados e ter uma participação intensa e grande aqui, porque esse é um mercado que está aberto para o Brasil. O Brasil tem uma facilidade de diálogo político que já existe há muitos anos, praticamente desde que esses países se transformaram em nações independentes.
Foi, portanto, um esforço de juntar esse bom diálogo político a um mecanismo que facilite e consolide também as relações econômicas.
Brasil 247 – Na visita do presidente Lula à Índia, no início do ano, ficou evidente um grande entusiasmo dos empresários indianos em relação ao Brasil. O comércio também está crescendo rapidamente. Como o senhor vê a relação Brasil–Índia nos próximos anos?
Mauro Vieira – Brasil e Índia têm tudo para ter, além de uma relação política excelente, uma relação econômica muito grande.
A Índia é um país enorme, gigantesco em termos de população, com indústrias muito sofisticadas. Quando o presidente esteve aqui no início do ano, ele e o primeiro-ministro Modi lançaram um projeto de atingir US$ 30 bilhões no comércio bilateral até 2030.
Já estamos perto de US$ 20 bilhões. Foram US$ 15 bilhões no ano passado, com um crescimento exponencial de 40%. Este ano, segundo as projeções e pelo que estamos vendo agora, um pouco depois da metade do ano, deverá fechar em US$ 20 bilhões.
A Petrobras está muito feliz com a Índia, vendendo muito e aumentando suas operações. E há vários outros projetos que podem se concretizar a curto prazo e aumentar muito esse comércio.
A Embraer tem grandes interesses aqui e está trabalhando muito, tanto na área comercial, que é muito importante num país desse tamanho, quanto na área de defesa, com o KC-390 e os Super Tucanos para treinamento.
A WEG tem uma presença no exterior inacreditável. São dezenas de polos de produção em vários países. É uma grande empresa, com resultados impressionantes. Há também a Vale. Ontem, reuni-me com empresários brasileiros e havia representantes de cerca de 20 empresas, incluindo grandes companhias como Vale, Embraer e WEG, além de associações de exportadores de carne e outros setores.
A relação com a Índia é muito importante. O fato de a Índia ter exercido a presidência dos BRICS este ano também foi muito positivo. O presidente Lula esteve aqui nessa visita e, infelizmente, agora não pôde vir porque estamos às vésperas das eleições e ele tem uma agenda pesada e complexa no Brasil.
Mas a presidência indiana dos BRICS coincidiu com esse grande aumento do comércio bilateral. Vamos ter US$ 20 bilhões este ano e, se alguns dos negócios que estão sendo encaminhados pela Embraer, pela Vale, pela WEG e por outras empresas se concretizarem, vamos passar de US$ 30 bilhões a muito curto prazo. Vai ser bem antes da meta definida. Isso mostra a importância dessa relação.
Brasil 247 – Como o senhor avalia a passagem da presidência brasileira dos BRICS para a presidência indiana e os resultados alcançados pela Índia?
Mauro Vieira – Acho que o Brasil foi muito feliz nas três grandes presidências que teve nos últimos anos. O G20 foi muito importante e lançou bases para várias ações em diferentes áreas. Os BRICS foram muito importantes, assim como a COP.
É interessante observar que pelo menos metade dos BRICS também está no G20. Isso cria um espaço e uma interlocução muito bons.
O Brasil teve importantes iniciativas no G20 e nos BRICS e nós as passamos adiante. A Índia, nos BRICS, levou adiante muitos desses projetos em várias áreas.
E há também o Banco dos BRICS. O banco está crescendo, vai crescer e vai se consolidar dentro do espírito dos BRICS, que é o de promover uma reforma da governança global.
Os organismos de Bretton Woods, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, refletem uma realidade antiga, de 80 anos atrás, com mecanismos de controle, liberação e aprovação que, no fundo, dificultam o acesso de vários países em desenvolvimento.
Com o Banco dos BRICS, vamos ter um sistema muito mais rápido, mais ágil e mais eficiente, que estará sob o controle dos países que são donos do banco e interessados nele.
O banco teve um poder de tração grande porque se consolidou — não tenho dúvida dessa consolidação — e está crescendo. Há também a questão das garantias. Eles poderão cofinanciar grandes projetos. Não será apenas o financiamento direto. Essa questão das garantias é fundamental.
Brasil 247 – O senhor teve uma reunião com o chanceler indiano, S. Jaishankar. Como é essa relação e quais são as convergências entre Brasil e Índia em relação à governança global e ao multilateralismo?
Mauro Vieira – A reunião que tive com o ministro Jaishankar foi muito boa. Nós já nos conhecemos há muito tempo. Fomos colegas em Washington, por volta de 2012. Eu já estava lá como embaixador e ele chegou como embaixador. Nós nos conhecemos nessa ocasião.
Depois, quando vim aqui em 2015, no governo da presidenta Dilma, quando eu estava também no Ministério das Relações Exteriores, ele era vice-ministro, secretário permanente. Voltamos a nos encontrar.
Desde 2023, voltamos a ter esse contato. Isso ajuda muito o diálogo. Nós nos falamos com frequência, nos consultamos e temos posições muito semelhantes, praticamente as mesmas, com relação ao multilateralismo e à governança mundial.
Brasil 247 – E há também uma convergência na ideia de que os BRICS não são um bloco antiocidental?
Mauro Vieira – Exatamente. Fui perguntado sobre isso ontem pela imprensa indiana. Havia uma quantidade enorme de microfones, e as perguntas eram: “O BRICS é antiocidental? É anti-Estados Unidos?”
Não é nada disso.
Ao contrário. Nós vemos nos BRICS um espaço de negociação e de consenso, de criação de consensos, debates e posições. Espero que saia — e deve estar saindo — um bom documento final, no qual se abordam vários temas importantes para o Brasil.
O que ainda está pendente é a questão do conflito no Golfo e a divergência entre Irã e Emirados Árabes Unidos, porque os dois são membros.
E isso é uma coisa importante nos BRICS. As pessoas dizem: “É antiocidental, é isso, é aquilo”. Não é nada. Não tem nada de antiocidental.
Brasil 247 – E a crítica de que os BRICS pretendem abandonar o dólar e substituí-lo pelas moedas nacionais?
Mauro Vieira – Não é isso. Espero que entendam, porque temos que repetir tantas vezes. Não tem nada a ver.
O uso eventual de moeda local para liquidação de parte do comércio bilateral é uma coisa que vários países fazem. E muitas vezes é uma escolha do setor privado.
Não é o governo que determina: “Use a moeda tal”. Não pode obrigar.
É opção da empresa.
Desde 2004, por exemplo, temos um acordo para pagamento em moeda local com a Argentina. Eu estava na Argentina quando ele foi negociado. Hoje ele atinge uma parcela pequena do comércio bilateral justamente porque depende do exportador e do importador.
Brasil 247 – A Índia passará a presidência dos BRICS para a China e o presidente Xi Jinping está em Nova Déli, em sua primeira visita à Índia em sete anos. Estamos assistindo a um degelo das relações entre Índia e China? Qual é a importância da presença de Xi nesta cúpula?
Mauro Vieira – O fato de ele ter vindo é a prova da importância que a China dá aos BRICS, que, sem dúvida nenhuma, são um bloco muito importante.
A China foi também um dos países, um dos motores da expansão. Para todos isso foi importante.
Agora temos, por exemplo, dois países que vivem uma situação difícil, os Emirados Árabes Unidos e o Irã, dentro dos BRICS. Mas também é uma vantagem ter os dois, porque é um espaço em que você pode, mais facilmente, com um pouco mais de proximidade e informalidade, discutir.
Existem inúmeros projetos de cooperação, na área da saúde e em muitas outras, e existe um banco. Os BRICS têm um acervo importante de conquistas.
Se fosse uma organização enorme, se fosse nas Nações Unidas, seria muito mais difícil colocar os dois sentados. Nos BRICS, na reunião ministerial no meio do ano, estavam todos sentados, quando já havia começado a questão do conflito no Estreito de Ormuz.
Então, sem dúvida nenhuma, é do interesse de todos os membros. E a China tem grande interesse nos BRICS.
O primeiro-ministro Modi já esteve na China, já houve reuniões e encontros, e há também o nível do comércio entre esses países.
O comércio Brasil–China, por exemplo, é enorme: US$ 171 bilhões. O comércio da Índia com a China também é enorme.
E há outro fato importante, que mostra o empenho da Índia na organização e nas negociações: o presidente Vladimir Putin veio à cúpula, algo que ele não fazia nos BRICS havia algum tempo, exceto quando a reunião foi realizada na Rússia.
Índia e Rússia são dois países muito amigos, com uma relação de muitos anos. São países enormes, gigantescos, na mesma região, que concordam em muitas coisas e discordam em outras.
Brasil 247 – A Rússia sempre pareceu muito empenhada na expansão dos BRICS. Essa fase de expansão parou? Entramos agora num momento mais de organização e consolidação do que de ampliação?
Mauro Vieira – Eu acho que sim.
Foi decidido que a expansão foi boa e trouxe uma contribuição importante. O último membro foi a Indonésia. Ela havia sido convidada, mas pediu que se esperasse a posse do novo presidente, Prabowo, para que o novo governo tomasse a decisão, porque ser membro dos BRICS é uma decisão importante. Poderia haver uma orientação diferente.
A Indonésia, portanto, foi o último país daquele bloco inicial da expansão.
Mas acho que a decisão foi de que precisávamos de um período para consolidar um pouco o bloco e a agenda, inclusive para organizar melhor, porque não existe uma estrutura permanente.
Houve países que sugeriram criar um secretariado dos BRICS, mas não existe por enquanto. Cada país que assume a presidência pro tempore fica encarregado de programar as reuniões, preparar as agendas e manter os documentos que emanam dessas reuniões.
Então acho que precisamos consolidar a participação dos novos membros e também a relação com os parceiros. Há vários países parceiros e muitos deles querem ser membros plenos.
Todos eles nos pedem apoio. E eu digo: o Brasil dará apoio quando houver essa decisão de ampliar.
Agora é importante manter um diálogo entre os membros plenos e os países parceiros, porque isso vai estruturar melhor o grupo.
O que aparece mais talvez seja a articulação política e aquela ideia que ficou de que os BRICS seriam contra os Estados Unidos.
Eu estava em Washington quando houve a primeira reunião e todo mundo perguntava: “Vocês estão participando de um grupo que é contra os Estados Unidos? É para isolar os Estados Unidos?”
Não é nada disso.
Brasil 247 – Para terminar, qual é, na sua visão, a essência da política externa brasileira? E qual é a mensagem que o presidente Lula levará à Assembleia Geral das Nações Unidas?
Mauro Vieira – A essência da política externa é que o Brasil é um país que promove a paz, a integração e a convivência pacífica entre os Estados. Tudo isso está no artigo 4º da nossa Constituição, que estabelece os princípios que devem orientar a política externa.
O Brasil não é uma potência militar, nem quer ser. Quer viver em paz, quer usar a negociação e a construção de consensos.
E o presidente Lula é um grande promotor dessa política externa. Já foi nos dois primeiros mandatos e é neste mandato.
Eu trabalhei muito proximamente dele no primeiro mandato e no segundo mandato, quando fui embaixador. Ele me mandou para Buenos Aires e depois para Washington. Antes, eu tinha sido chefe de gabinete do Ministério por um ano e meio, chefe de gabinete do Celso Amorim, primeiro ministro das Relações Exteriores dele. Então tive muito contato com o presidente.
Desta vez, o contato é mais intenso porque estou em Brasília e o vejo constantemente. Há semanas em que me reúno com ele, vou despachar três vezes por semana.
E você vê a determinação dele de abrir novas fronteiras de relação política, mas também de relação comercial e de cooperação.
Ele teve iniciativas fantásticas. Teve a iniciativa da aproximação com a África. Houve uma reunião de ministros da Agricultura dos países africanos em Brasília. Vieram 51 dos 53 países.
Foi um programa muito bem feito para conhecer todas as técnicas desenvolvidas pela Embrapa para solos muito parecidos com os africanos e que contribuíram para transformar o Brasil nessa grande potência agrícola que é hoje.
Isso foi feito no espírito de cooperação, gratuitamente. Nós não cobramos nada e nem vinculamos a qualquer tipo de compra de equipamento. Nós queremos oferecer.
Então é uma política externa pacífica, de cooperação, de aproximação e de manutenção do diálogo.
Temos um total de 225 postos no exterior, contando consulados e missões, como as Nações Unidas, Genebra e outras.
Nós falamos com todos.
Temos 36 embaixadas na África. Na região da ASEAN, dos 11 países, só não temos embaixadas em Brunei e Laos. Temos nos outros nove.
Somos também um dos poucos países que têm embaixada na Coreia do Sul e na Coreia do Norte, em Pyongyang.
O Brasil é essa potência da paz.
É a potência da paz, do diálogo, da cooperação e do respeito às leis e ao direito internacional.
O Brasil tem um exemplo fantástico: tivemos nove casos de fronteiras resolvidos pela negociação e pela arbitragem internacional, aceitando os resultados. Ganhamos praticamente todos.
Houve um caso com o Reino Unido, na Guiana inglesa, em que não ganhamos integralmente. Ganhamos uma parte, metade do território que pleiteávamos.
O Brasil tem essa postura: os acordos são obedecidos, são seguidos. Nós nos submetemos à arbitragem internacional e aceitamos seus resultados.
O Brasil é necessário para o mundo.
Fonte: Brasil 247