A territorialização do voto no ES para além da disputa entre esquerda e direita

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Publicado em 12 de Setembro de 2026 às 04:30

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Outro dia registrei aqui o fato de que nestas eleições capixabas de 2026 será muito relevante a força dos municípios e do poder local como influências nas razões de votos e decisões de votos.

De certa forma, é um fato novo. Trata-se da territorialização do voto, para além do olhar para a direita e esquerda. Depois de algumas eleições, desde 2018, com a predominância da polarização ideológica (direita versus esquerda) impulsionada pelos algoritmos das redes sociais, temos um retorno ao chão de fábrica: o município e o poder local.

Significa menor influência das mudanças políticas nacionais e da polarização nacional entre o lulopetismo e o bolsonarismo. Agora, com a tendência de voto ser muito mediada por prefeitos, vereadores, famílias políticas, redes locais, vizinhanças locais.

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Não ocorre apenas no Espírito Santo. Temos exemplos deste fato novo de retorno ao chão de fábrica no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, em Alagoas, em Pernambuco e no Ceará.

A fonte da mudança é, sim, o cansaço do eleitorado com a polarização de narrativas ideológicas de estilo populista. Mas é também a nova realidade do crescimento das emendas parlamentares impositivas para senadores, deputados federais e, em menor grau, deputados estaduais.

Emendas robustas direcionadas para obras e serviços nos municípios pelos deputados federais, pelos senadores e, em menor escala, pelos deputados estaduais. Com esse novo cenário, os municípios e as forças políticas locais ganharam mais força política e eleitoral.

Vai ficando mais nítida a mudança nas razões de voto dos eleitores. Cresce a preferência pela entrega de serviços públicos e pela boa gestão, mais do que por narrativas ideológicas. Eleições do tipo pão com manteiga, comida na mesa e sossego.

As bases locais voltaram a ter força política na conquista do voto. Chão de fábrica. Pé no chão.

O papo eleitoral é a entrega de obras e serviços nos bairros e vizinhanças. Contendo, é claro, o foco na segurança, na educação, na saúde e na infraestrutura.

Com as campanhas já iniciadas, os candidatos vão constatando que não bastam apenas as redes sociais e o horário gratuito no rádio e na televisão como formas de comunicação com os eleitores. Todos se movimentam pelos municípios e se conectam com os prefeitos, os vereadores, as redes locais de influência e vizinhança. Mais do que antes.

Os candidatos já sabem que vão precisar gastar mais sola de sapato e criar empatia com o novo eleitor mais desconfiado. Com a ajuda e o apoio das bases locais.

Como já registrei aqui, os eleitores estão mais desconfiados, mais escolarizados e mais descrentes com os promesseiros. Com mudanças demográficas que tornaram bem maior o peso dos idosos (mais de 60 anos) no eleitorado. Eleitor experiente que se informa mais pela televisão do que pelas redes sociais. Serão decisivos.

Mudaram-se as razões de votos. Para além dos clichês e rótulos das redes sociais. É preciso ter propostas reais e concretas conectadas com as aspirações e demandas locais. Criar empatia com as redes locais de vizinhanças, mediadas por prefeitos, vereadores e lideranças locais.

Em olhar panorâmico, já é possível ver que as eleições para governador do Espírito Santo estão muito competitivas e devem ir para um segundo turno. Mas ainda há um nível relevante de indecisão. São os tais sinais de desconfiança do eleitor e das novas razões de voto.

Em olhar panorâmico, as eleições para o Senado no ES estão ainda em aberto –  como já é praxe nesta altura da campanha. São neste ano escolhas mais difíceis, pois são duas vagas e muitos eleitores nem sempre percebem. 

Para a primeira vaga, as pesquisas mostram o favoritismo do ex-governador Renato Casagrande (PSB). Para a segunda vaga, há uma disputa acirrada entre onze candidatos. Nem com bola de cristal, a esta altura. 

Quanto às dez vagas para a bancada de deputados federais, há também uma disputa acirrada. E o fato de que os atuais deputados federais que vão para a reeleição têm bases locais sólidas cultivadas pela aplicação de emendas parlamentares em obras e serviços.

 A renovação da bancada é estimada pelos especialistas em torno de 50%. Também porque alguns atuais deputados federais, como Evair de Melo (Republicanos) e Paulo Foletto (PSB), não vão disputar a reeleição para a Câmara Federal.

Quanto às 30 vagas para a bancada de deputados estaduais, os especialistas na estatística dos votos não cravaram ainda uma previsão do nível de renovação. Há que se aguardar ainda mais um pouco o desenrolar das campanhas.

Mas aqui há um fato novo já verificado, que se relaciona com o MDB. Depois de algum tempo praticamente ausente da Assembleia Legislativa, o MDB articulou uma chapa robusta para a disputa deste ano. E poderá voltar a ter representantes na ALES.

Tudo somado, em eleições territorializadas as decisões e eleições virão da garimpagem no chão de fábrica.

Antônio Carlos de Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços nessas áreas

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