Deflação de agosto abre caminho para novo corte da Selic, enquanto Fed se prepara para subir juros
Por Paulo Gala — Brasil 247
O IPCA de agosto trouxe uma boa notícia: deflação de 0,32%, mais intensa do que a queda de 0,28% esperada pelo mercado. É o primeiro resultado negativo do índice cheio em alguns meses e reforça a percepção de que o cenário inflacionário brasileiro melhorou de forma consistente. Entre junho e agosto, a inflação acumulada ficou praticamente em zero.
O grande destaque do mês foi o bônus de Itaipu, o excedente financeiro da usina que é repassado às contas de luz dos consumidores quando os custos efetivos da geração ficam abaixo do previsto. O efeito foi expressivo: as tarifas de energia elétrica caíram 7,63%. As passagens aéreas também contribuíram, com recuo de 13%.
Com isso, a inflação em 12 meses, que estava em 4,44%, desceu para 4,22%, abaixo do teto da meta, de 4,5%. É verdade que o alívio de Itaipu é pontual e que ainda há pressões relevantes em serviços e alimentos. O mercado segue projetando um IPCA próximo de 5% para o fechamento do ano, acima do teto. Ainda assim, o quadro atual deixa a porta aberta para mais cortes de juros pelo Banco Central.
Serviços estagnados reforçam a desaceleração
A Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) do IBGE, divulgada ontem, também aponta nessa direção. O setor ficou estável em julho na comparação com junho, variação zero. O volume de serviços ainda está cerca de 20% acima do nível pré-pandemia e apenas 0,2% abaixo do pico histórico, o que mostra o quanto o setor avançou nos últimos anos, muito mais do que a indústria. Mas o dado confirma a estagnação que vínhamos observando.
Como os serviços respondem por cerca de 70% da economia brasileira, trata-se de mais uma evidência de desaceleração da atividade e de mais um argumento a favor do corte de juros.
Super Quarta: caminhos opostos
Na próxima semana teremos a chamada Super Quarta, com decisões simultâneas de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos. Por aqui, a grande aposta é de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, e considero possível pensar em novas reduções até o fim do ano.
Nos Estados Unidos, o movimento deve ser o oposto. A inflação ao consumidor (CPI) divulgada hoje veio salgada, com alta de 0,3% no mês e núcleo um pouco acima do esperado. Na véspera, a inflação ao produtor (PPI) já havia subido 0,4%. Com o petróleo novamente na casa dos US$ 100 o barril, os preços da gasolina voltam a contaminar o restante da economia americana.
O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, deixou claro no simpósio de Jackson Hole que está pronto para subir juros. O mercado agora aposta numa alta na semana que vem, levando os Fed Funds de 3,75% para 4%, e em mais uma elevação até dezembro, para 4,25%.
O resultado é um contraste marcante: duas altas de juros nos Estados Unidos e pelo menos mais um corte no Brasil. A semana termina, portanto, com uma boa notícia doméstica, a deflação, que aumenta muito a chance de alívio monetário por aqui, e com um sinal de cautela vindo de Washington, que deve se traduzir em juros mais altos por lá.
Fonte: Brasil 247