“Lula não é imperador: precisamos de um Congresso amigo do povo”

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Por Dafne AshtonBrasil 247

247 – A eleição de 2026 não deve ser tratada apenas como uma disputa pela Presidência da República. Para o deputado federal Jorge Solla (PT-BA), a composição da Câmara dos Deputados e do Senado será determinante para definir a capacidade de um eventual novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de aprovar sua agenda no Congresso Nacional.

Em entrevista ao Boa Noite 247, da TV 247, Solla afirmou que uma das principais tarefas da campanha será explicar aos eleitores que o presidente da República não governa sozinho e que a eleição parlamentar interfere diretamente na execução do programa escolhido nas urnas.

“Lula não é ditador. Lula não é imperador. Lula é um presidente num país que tem um sistema presidencialista, que tem um Legislativo bicameral”, afirmou.

Segundo o deputado, a experiência do atual mandato demonstrou os limites impostos pela correlação de forças no Legislativo. Solla estima que, entre os 513 deputados federais, o governo dispõe de cerca de 130 a 140 parlamentares com os quais pode contar de maneira mais consistente nas votações de maior conflito político.

Para ele, essa diferença entre a votação presidencial e a composição do Congresso ajuda a explicar as dificuldades enfrentadas pelo Executivo para aprovar parte de suas propostas.

“Quem aprova é o Congresso. Quem decide é o Legislativo. O Executivo propõe, trabalha para que isso aconteça, mas, se não tivermos o mínimo de composição na Câmara e no Senado para sustentar as propostas do Executivo, fica muito difícil”, disse.

Solla chamou atenção para um comportamento eleitoral que considera decisivo. Segundo o parlamentar, uma parcela dos brasileiros que escolhe conscientemente seu candidato à Presidência ou ao governo estadual dedica menos atenção à escolha dos representantes para a Câmara e o Senado.

O deputado citou como exemplo reuniões realizadas na Bahia. De acordo com ele, quando pergunta quem votou em Lula na eleição anterior, grande parte dos participantes se manifesta. Quando questionada em qual candidato a deputado federal essas mesmas pessoas votaram, porém, poucos conseguem se lembrar.

Para Solla, essa diferença revela um problema de formação política. “O cidadão, no geral, sabe a importância de votar para presidente. Ele sabe a importância de votar para governador e toma para si essa decisão. Para deputado, ele menospreza”, afirmou.

Na avaliação do parlamentar, esse comportamento pode produzir uma contradição: o eleitor escolhe um projeto político para o Executivo e, simultaneamente, ajuda a formar um Legislativo que atue contra as propostas desse mesmo governo.

Solla recordou que esse problema já apareceu em outros momentos da história recente. Ao tratar da relação entre Executivo e Legislativo, mencionou a legislatura iniciada em 2015, quando assumiu seu primeiro mandato na Câmara. Dilma Rousseff havia sido reeleita em 2014, mas passou a enfrentar um Congresso no qual encontrou resistência crescente até o processo de impeachment de 2016.

Para o deputado, a experiência reforça a necessidade de discutir a eleição parlamentar como parte da disputa pelo rumo do país. Não basta, segundo ele, conquistar a Presidência de Câmara e Senado, que são ocupados majoritariamente por forças contrárias ao programa escolhido pelo eleitorado presidencial.

Essa correlação também aparece nas negociações do governo Lula no atual Congresso. Solla afirmou que, em votações nas quais existe confronto entre governo e oposição, a base mais alinhada ao Planalto frequentemente faz parte de uma posição minoritária. Para formar maioria, o governo precisa negociar votos de parlamentares que não foram eleitos como integrantes de sua base.

O deputado apontou a aprovação da mudança no Imposto de Renda como exemplo da importância da pressão social sobre o Legislativo. Para ele, a mobilização fora do Congresso contribuiu para alterar a posição de parlamentares e viabilizar a aprovação da medida. “Se não fosse aquela pressão externa, não teríamos aprovação. Ali virou o jogo”, afirmou.

A mesma dinâmica, segundo Solla, apareceu na votação sobre a redução da jornada de trabalho. Em sua avaliação, a proximidade das eleições aumentou o custo político de votar contra uma proposta com apoio entre trabalhadores, levando parlamentares que resistiam à medida a apoiá-la no plenário.

O episódio evidencia, para ele, que a composição do Legislativo define não apenas quais propostas serão aprovadas, mas também quanto capital político o Executivo terá de gastar para construir maiorias.

É nesse contexto que Solla defende que a campanha de Lula vincule a disputa presidencial à eleição de deputados e senadores comprometidos com o mesmo programa. Na Bahia, afirmou, setores do PT vêm utilizando a orientação de não votar em candidatos contrários ao presidente e de estimular o eleitor a escolher uma chapa completa de aliados.

“Nós vamos ter que trabalhar muito no Brasil inteiro para mostrar à população brasileira que Lula não é ditador. Lula não é imperador”, reforçou.

Para o deputado, a campanha eleitoral também deve funcionar como momento de educação política. Isso significa explicar de maneira mais clara quais são as atribuições da Presidência, da Câmara e do Senado e como as decisões tomadas por cada Poder interferem na execução das políticas públicas.

“A campanha eleitoral não é o momento só de ganhar o voto. É também de educar os eleitores, criar oportunidade de aprendizado de como funciona a República em nosso país”, afirmou.

Na avaliação de Solla, portanto, o resultado de outubro terá duas dimensões inseparáveis: quem ocupará a Presidência e qual Congresso esse presidente encontrará a partir de 2027. Para ele, uma eventual reeleição de Lula acompanhada da manutenção de uma Câmara e de um Senado majoritariamente contrários ao governo poderá reproduzir as dificuldades enfrentadas no atual mandato.

A mensagem que o deputado pretende levar à campanha é que o eleitor considere essas duas escolhas como partes de uma mesma decisão política. “Não adianta depois o cara dizer: ‘Eu achava que Lula ia aprovar isso, ia aprovar aquilo’. Quem aprova é o Congresso”, concluiu.

Fonte: Brasil 247

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