“Israel” ocupa, mata e destrói, mas não vence a resistência
Por Sayid Marcos Tenório — Brasil 247
Desde 7 de outubro de 2023, “Israel” mobilizou todo o seu poder militar para tentar reverter a derrota política, militar e psicológica imposta pela resistência palestina.
Para isso, contou com o apoio irrestrito dos Estados Unidos e a cumplicidade militar, diplomática, financeira e logística de governos europeus, regimes árabes e do Marrocos. Mesmo assim, não venceu a guerra contra o Hamas nem alcançou seus objetivos estratégicos fundamentais.
É necessário distinguir superioridade destrutiva de vitória política. “Israel” demonstrou capacidade para bombardear cidades, assassinar dirigentes e destruir hospitais, escolas, universidades e infraestruturas civis.
Mas não conseguiu eliminar o Hamas, libertar militarmente todos os prisioneiros, impedir a continuidade da resistência ou impor uma administração estável em Gaza. A devastação produzida não se converteu em vitória.
O projeto sionista pretendia ir muito além de Gaza. Seu objetivo era liquidar a resistência palestina, neutralizar o Hezbollah, desarticular o Eixo da Resistência, provocar o colapso da República Islâmica do Irã e estabelecer uma nova ordem regional comandada pelos Estados Unidos e “Israel”
Os países árabes seriam integrados definitivamente a essa arquitetura, enquanto a questão palestina seria enterrada pelos chamados Acordos de Abraão.
Nada disso se concretizou. O Hamas sobreviveu como força política e militar. O Hezbollah continua sendo um ator decisivo no Líbano. O Irã não colapsou, suas instituições permaneceram funcionando e sua capacidade de resposta foi preservada. A Palestina, longe de desaparecer da agenda internacional, voltou ao centro do debate mundial.
Esse fracasso torna-se ainda mais expressivo diante da coalizão mobilizada em defesa de “Israel”.
Os Estados Unidos forneceram armas, financiamento, inteligência, proteção diplomática e intervenção militar direta. Potências europeias legitimaram as agressões e bloquearam sanções. Governos árabes disponibilizaram espaço aéreo, bases, informações e estruturas logísticas, enquanto simulavam solidariedade aos palestinos.
A monarquia colonialista marroquina aprofundou a cooperação militar e de inteligência com “Israel”, em troca do reconhecimento norte-americano da ocupação ilegal do Saara Ocidental.
Essa associação demonstra que o colonialismo sionista na Palestina e o expansionismo marroquino contra o povo saaraui pertencem à mesma engrenagem de ocupação e negação da autodeterminação.
Apesar desse apoio, “Israel” tornou-se mais dependente dos Estados Unidos. Sua imagem de potência autossuficiente foi substituída pela realidade de um enclave colonial que necessita de pontes aéreas de armamentos, proteção diplomática permanente e participação militar norte-americana.
Quanto mais expande a guerra, mais perde autonomia estratégica e capacidade de definir sozinho o futuro da Ásia Ocidental.
Internamente, a guerra aprofundou as contradições políticas e sociais.
O governo do genocida Netanyahu enfrenta divisões, protestos e acusações de prolongar o conflito para assegurar sua sobrevivência.
O fracasso em alcançar os objetivos anunciados ampliou a desconfiança nas instituições e nas próprias Forças Armadas. A sociedade permanece marcada pelo medo, pela militarização e pela ausência de uma perspectiva real de segurança.
No exterior, o desgaste é ainda maior. “Israel” passou a ser identificado por parcelas crescentes da opinião pública mundial como um Estado colonial, genocida e de apartheid.
A proteção dos Estados Unidos ainda impede punições proporcionais aos crimes cometidos, mas não consegue recuperar sua legitimidade. Até entre os norte-americanos, especialmente os mais jovens, cresce a rejeição ao regime sionista e ao apoio incondicional de Washington.
Essa derrota estratégica não elimina os danos gigantescos impostos aos povos agredidos. Gaza foi devastada, dezenas de milhares de palestinos foram assassinados e famílias inteiras desapareceram.
No Líbano, os ataques provocaram mortes, deslocamentos e destruição.
No Irã, instalações civis e militares foram atingidas, deixando vítimas e perdas materiais.
Uma análise anti-imperialista consequente não pode transformar a resistência em uma abstração heroica que apague seus mortos. A resistência impediu a realização dos objetivos estratégicos dos agressores, mas pagou um preço humano imenso.
O fracasso de “Israel” não diminui seus crimes, mas revela que a violência genocida foi utilizada para compensar sua incapacidade de produzir uma vitória política.
Essa é a contradição fundamental: “Israel” pode destruir, mas não consegue construir uma ordem regional estável.
Pode ocupar territórios, mas não conquistar legitimidade.
Pode assassinar dirigentes, mas não eliminar as causas históricas da resistência.
Pode ampliar a guerra, mas não recuperar a invulnerabilidade destruída em 7 de outubro.
“Israel” não venceu o Hamas e tampouco conseguiu reorganizar a região sob sua hegemonia.
Ao contrário, aprofundou suas contradições internas, isolou-se na opinião pública internacional, perdeu legitimidade e tornou-se ainda mais subordinado aos Estados Unidos.
Sua superioridade militar produziu devastação, mas não segurança, autonomia ou vitória estratégica.
Fonte: Brasil 247