11 de setembro de 1893: o dia em que Vivekananda fez seu discurso histórico no Parlamento das Religiões em Chicago
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 — No dia 11 de setembro de 1893, um jovem monge indiano de apenas 30 anos levantou-se diante de uma audiência reunida em Chicago, nos Estados Unidos, e pronunciou palavras que atravessariam gerações. Swami Vivekananda iniciava sua participação no Parlamento Mundial das Religiões com uma saudação simples: “Irmãs e irmãos da América”. Começava ali um dos episódios mais importantes da história moderna do diálogo entre religiões e também um momento decisivo para a projeção internacional do pensamento espiritual da Índia.
Realizado durante a Exposição Mundial de Chicago, o Parlamento das Religiões pretendia reunir representantes de diferentes tradições espirituais. Vivekananda chegou aos Estados Unidos como discípulo de Ramakrishna, o mestre espiritual que defendia que diferentes caminhos poderiam conduzir à mesma realidade divina.
Mas havia algo ainda mais profundo no significado político e cultural daquela presença. A Índia de Vivekananda estava submetida ao domínio colonial britânico. O pensamento europeu do século XIX estava profundamente marcado por concepções de superioridade racial, cultural e civilizacional do Ocidente. Foi nesse contexto que um indiano, vestindo os trajes de um monge hindu, apresentou-se diante de uma grande audiência ocidental como representante de uma das mais antigas tradições filosóficas e espirituais da humanidade.
Mais do que tolerância
Uma das ideias mais poderosas apresentadas por Vivekananda naquele 11 de setembro foi a distinção entre simplesmente tolerar outra religião e reconhecer sua legitimidade.
“Orgulho-me de pertencer a uma religião que ensinou ao mundo tanto a tolerância quanto a aceitação universal”, afirmou. E foi além: “Não acreditamos apenas na tolerância universal, mas aceitamos todas as religiões como verdadeiras”.
Era uma afirmação extraordinária para sua época — e continua sendo no século XXI. Vivekananda não propunha a construção de uma religião única nem defendia que as diferentes tradições abandonassem suas identidades. Sua concepção era outra: diferentes experiências espirituais poderiam representar caminhos distintos para uma realidade última compartilhada.
Para expressar essa ideia, recorreu a uma imagem que aprendera desde a infância. Assim como rios que nascem em lugares diferentes acabam encontrando o mesmo oceano, os seres humanos podem seguir caminhos diferentes em direção ao divino.
A diversidade, portanto, não precisava ser entendida como ameaça. Poderia ser uma expressão da própria unidade.
Um indiano diante do Ocidente
O impacto da presença de Vivekananda também precisa ser compreendido à luz do colonialismo. Ele não chegou a Chicago pedindo que o Ocidente reconhecesse a Índia como uma civilização digna de respeito. Falou a partir da convicção de que representava uma tradição espiritual milenar capaz de oferecer uma contribuição essencial à humanidade.
Sua participação no Parlamento ajudaria a despertar no próprio povo indiano uma nova consciência sobre o valor de sua cultura e de sua tradição filosófica.
Vivekananda tornou-se, assim, não apenas um mestre espiritual, mas uma das figuras fundamentais do renascimento cultural da Índia moderna. Sua influência ultrapassaria os limites da religião e chegaria a diferentes correntes do movimento nacional indiano.
Havia em sua mensagem uma ideia poderosa: um povo submetido politicamente não precisava aceitar também uma condição de inferioridade espiritual ou cultural.
A crítica ao fanatismo
O momento talvez mais profético daquele primeiro discurso ocorreu no final.
Vivekananda denunciou o sectarismo, a intolerância e o fanatismo como forças que haviam coberto a Terra de violência e sangue. E expressou a esperança de que o sino que havia anunciado naquela manhã a abertura do Parlamento pudesse também anunciar o fim do fanatismo e das perseguições entre pessoas que, por caminhos distintos, procuravam um mesmo destino espiritual.
Mais de um século depois, suas palavras conservam uma atualidade impressionante.
Guerras continuam sendo justificadas por diferenças religiosas, culturais e civilizacionais. Nacionalismos excludentes voltaram a ganhar força. Em diferentes partes do planeta, identidades religiosas são novamente utilizadas como instrumentos de divisão política.
A mensagem pronunciada por Vivekananda em 1893 oferece uma resposta radicalmente diferente: nenhuma civilização precisa desaparecer para que outra possa florescer.
A unidade não significa uniformidade
Essa concepção ficaria ainda mais clara nas demais intervenções de Vivekananda durante o Parlamento.
Em seu discurso de encerramento, em 27 de setembro, ele rejeitou explicitamente a ideia de que a unidade religiosa pudesse nascer da vitória de uma religião sobre todas as outras. Um cristão não precisaria tornar-se hindu ou budista, assim como um hindu ou budista não precisaria tornar-se cristão.
Cada tradição deveria crescer segundo sua própria natureza e, ao mesmo tempo, absorver aquilo que houvesse de elevado nas demais.
A síntese proposta por Vivekananda poderia ser resumida em três princípios que ele apresentou no encerramento: ajuda em vez de conflito, assimilação em vez de destruição e harmonia em vez de discórdia.
Trata-se de uma visão na qual unidade e diversidade deixam de ser conceitos opostos.
A Índia como civilização do pluralismo
A mensagem de Vivekananda também ajuda a compreender uma ideia que continua presente na forma como a Índia procura apresentar sua contribuição ao mundo: Vasudhaiva Kutumbakam, expressão sânscrita que significa “o mundo é uma só família”.
A ideia atravessa séculos da tradição indiana e ganhou renovada projeção internacional no século XXI. Ela parte do princípio de que fronteiras políticas, identidades religiosas e diferenças culturais não eliminam uma condição humana compartilhada.
É justamente essa perspectiva que torna o discurso de Chicago tão contemporâneo.
Vivekananda não defendia o desaparecimento das diferenças. Defendia algo mais sofisticado: aprender a enxergar a unidade que existe por trás delas.
Em outra intervenção no Parlamento, ao explicar o hinduísmo, utilizaria uma imagem particularmente bela: a verdade seria como uma mesma luz atravessando vidros de diferentes cores. As manifestações mudam, mas a fonte permanece a mesma.
Uma mensagem que atravessou 133 anos
O 11 de setembro tornou-se, no imaginário mundial, uma data associada sobretudo à tragédia dos atentados de 2001. Mas existe também este outro 11 de setembro, ocorrido 108 anos antes.
Em 11 de setembro de 1893, um jovem indiano falou ao mundo sobre o perigo do fanatismo e a necessidade da convivência entre diferentes tradições.
Sua mensagem não nasceu de uma tentativa de apagar as diferenças entre os povos. Nasceu justamente do reconhecimento de que a humanidade pode ser plural sem deixar de ser uma.
Cento e trinta e três anos depois, em um planeta novamente atravessado por guerras, disputas religiosas, rivalidades geopolíticas e discursos sobre choques de civilizações, talvez seja justamente essa a dimensão mais profunda da mensagem de Vivekananda.
Existem muitos rios.
Mas o oceano é um só.
Fonte: Brasil 247