Quintal
Por Luis Cosme Pinto — Brasil 247
Outro dia eu estava distraído, chupando um caju na varanda, e fiquei com a castanha na mão, sem saber onde botar. Perto de mim havia um vaso de antúrio; pus a castanha ali, calcando-a um pouco para entrar na terra(…) Na semana seguinte a empregada me chamou a atenção: a castanha estava brotando.
Rubem Braga escreveu assim, com admirável simplicidade, na página 209 do livro “Ai de ti Copacabana”. Era o verão carioca de 1960.
Rubem Braga, talvez o mais brilhante cronista do Brasil, era e ainda é daqueles que causam a boa inveja aos cronistas sobreviventes. A gente lê e se belisca: “por que eu não tive essa ideia?”.
Descobri tênue semelhança minha com Braga. Claro que não é o texto. Muito menos o olhar refinado para mundo. Também nada tem a ver com o currículo. Rubem Braga escreveu em uma infinidade de jornais e revistas, era um campeão de vendas, foi correspondente de guerra, se destacou como editor, ainda morou em diversos países, foi embaixador e o melhor: entre a política e a Literatura, não titubeou.
O ponto comum é que nós, com mais de 50, conquistamos nossos quintais urbanos. O dele na cobertura de um apartamento duplex, o meu em uma área nos fundos do prédio, um confortável puxadinho no primeiro andar.
O meu canto é na rua das Palmeiras, na Vila Buarque, vizinho ao Minhocão.
O dele era na Barão da Torre, em Ipanema, com vista pro mar e pra janela de Millôr Fernandes.
Entrei no meu, que é alugado, em 2019.
Braga se mudou pro dele em 1964.
Se no quintal de Braga, chamado de Jardim Voador, Burle Marx deu preciosos palpites; no meu recebi sábios conselhos de uma comissão de mulheres inteligentes: Sylvia, Regina, Ana, Débora e Márcia. Apesar de nem sempre lembrar, aprendi sobre exposição ao sol, poda e rega.
Nunca recebi as visitas de Vinícius de Moraes, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, como Braga. Quem bate ponto aqui é um bem-te-vi parrudo e esfomeado, sanhaços azulados, Sabiás.
Sabiá, esse cutucava nosso cronista. O escritor fundou uma editora chamada Sabiá e ele mesmo era conhecido como o Sabiá da Crônica.
Voava alto, o Braga.
Não ligava para espécies ou tamanhos, contava histórias de tuins, rolinhas; e também de gaviões e gaivotas; de pavão e corrupião. Em uma crônica confessou: “Eu quisera ser um urubu”.
Braga plantou frutíferas e eu segui o mestre. Aqui nesse gelado fim de inverno, abundam jabuticabas. Amoras se multiplicam. O limão Taiti tem o tamanho de uma bola de sinuca. Seus companheiros de galho já viraram limonada.
Meu pequeno-imenso-jardim tem muitas flores, que sem avisar a ninguém, combinaram um revezamento. Depois da florada da Azaléia, explodem Alpínias, brotam Camélias, floresce o Manacá Cheiroso, despontam as Primaveras.
Vem a seca. É a vez da Alamanda, dourada como gema de ovo caipira. O Jasmim Manga acena. A orquídea abre.
Tem Pau Brasil. Tem Clusia. Tem Palmeira. Tem Boldo. Tem Bromélia. Tem Cheflera. Tem muito mais do que sei contar.
Um tico de Mata Atlântica cercada de poluição. Pode uma miniatura de bosque fincar raízes em ambiente tão hostil? Tanto pode que cresceu, ora, ora.
Junto com pássaros pousam abelhas. Borboletas visitam, lagartas e minhocas passeiam.
Perguntei a outro mestre qual o segredo da fertilidade. O professor e engenheiro agrônomo, Takanoli Tokunaga, ensina: “deixe a planta à vontade. Observe o comportamento das folhas, se estão retraídas troque de lugar. Uma hora a planta vai sorrir. Água da chuva e adubo natural, à base de casca de fruta e folhas secas, é o alimento preferido”.
Conto das minhocas e fico sabendo que as bichinhas perfuram túneis subterrâneos, isso torna a terra mais fofa e rica em nutrientes, a planta se fortalece. Minhoca atrai passarinho, que fertiliza o solo, que germina. É a vida.
Dois mestres. Um da escrita, outro do verde.
A medida certa para uma crônica, dessas de ler no quintal.
Fonte: Brasil 247