Coragem, Fachin
Por CartaCapital — Carta Capital
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Como se portará o presidente do STF diante da encruzilhada?
Nos momentos de encruzilhada do Brasil, e não foram poucos em mais de 70 anos de jornalismo, quando os responsáveis pelos caminhos ou descaminhos do País eram postos à prova, Mino Carta sacava da algibeira uma frase: “Os homens se medem nas circunstâncias”, combinado das reflexões de pensadores de épocas distintas. Ao contrário do que se imagina, Mino era um otimista incorrigível e nunca seguia a recomendação de depositar as esperanças no chão antes de cruzar o umbral de mais um círculo do Hades brasileiro. A esperança durava pouco, pois, em geral, a coragem dessas personagens nos momentos decisivos se media em centímetros, como os habitantes de Lilliput. A reação seguinte, óbvio, era de indignação, aliviada por meio de impropérios cujo mais sonoro era “CREEEETIIIIINOOOOS!” Também não podia faltar o “bando de corja”, expressão que poderia ter saído das páginas de Manuelzão e Miguilim, mas é da lavra do pai de Políbio. Mundialmente conhecido como Dó, Políbio foi o Sancho Pança do cavaleiro errante Mino nas intermináveis batalhas contra os moinhos de vento.
Diante da grave crise no Supremo Tribunal Federal, a mais grave da história, dizem os especialistas, o presidente da Corte, Edson Fachin, diria Mino, será medido “nas circunstâncias”. A série de decisões do ministro na quarta-feira 9 deriva de pressões externas e dos pares. A escolha por levar ao plenário, antes das eleições, o pedido de investigação de Alexandre de Moraes encaminhado por André Mendonça jogará mais gasolina na fogueira, seja qual for o resultado. Fachin demonstra, como de hábito, sua suscetibilidade às pirraças da “opinião pública”. Magistrados que preferem o clamor das ruas à letra da lei praticam justiçamento, não Justiça.
Fachin parece mais preocupado em salvar sua biografia. Os discursos inspirados em Augusto Cury tentam esconder um raciocínio trivial e o medo da própria sombra. Não por outra razão, ele sofre, ao lado da colega Cármen Lúcia, o assédio dos cidadãos de bem. Nos minguados protestos de 7 de Setembro, em que Mendonça foi ungido o Moro do momento, ficou claro o roteiro do golpe. “Neutralizar” o Supremo, para usar uma palavra do gosto da extrema-direita, é o primeiro passo para obliterar qualquer resistência. Assim como o presidente da Corte, Cármen Lúcia demonstrará se sua estatura moral é liliputiana ou alcança o Everest.
Quanto à vontade popular e à opinião pública, sabemos do que se trata. Alguns empresários, organizados pela Federação das Indústrias de São Paulo, que, nas mãos de Paulo Skaf, voltou a ser o bunker do pato amarelo, têm expressado, de forma veemente e por escrito, indignação com a desmoralização do Judiciário e o sequestro da República. Endossaram um abaixo-assinado parcial e ameaçam até ocupar as ruas. Quiçá até entoem a Marselhesa. Justo. Mas não custa perguntar. Onde estavam todos os legalistas durante o horror da pandemia e a infame tentativa de golpe de Estado? •
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Coragem, Fachin’
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Fonte: Carta Capital