O L, diariamente
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
Menu
Já é assinante?
Acesse sua conta e leia agora mesmo
Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil
Assine e contribua com a reconstrução democrática do Brasil
32 anos
assine e leia
Há 13 anos, Eduardo Maia percorre as ruas do Recife em defesa do presidente Lula
Em meio ao caos do trânsito, um homem atravessa as ruas centrais do Recife como quem carrega uma bandeira invisível. Sem carro de som, passeata ou palanque, ele caminha sério. Não distribui santinho nem pede voto. Apenas anda, sempre sozinho. Uma solidão que nem de longe passa despercebida. De vermelho dos pés à cabeça, o jornalista Eduardo Maia percorre, todos os dias, 3 quilômetros entre a sua casa e o trabalho, e outros 3 no caminho de volta. No fim da tarde, ainda caminha, dia sim dia não, outros 10 quilômetros em um parque na Zona Norte. Seu uniforme? Calça e boné vermelhos, camisa de Lula e, no pescoço, um rádio, também carmim.
O rádio tem uma função específica: amplificar as músicas históricas que marcaram as várias campanhas do presidente Lula. Às vezes, ele mescla com outros tipos de canções de domínio público, o que desperta, de imediato, a atenção dos transeuntes. Há quem buzine em apoio, acene com o “L”, pare para tirar uma foto, mas tem quem, uma minoria, o provoque com gritos de “É Bolsonaro!”, ou “Lula ladrão!”
A rotina de Maia começou em 2013, quando explodiram os protestos nas ruas do País, as chamadas “Jornadas de Junho”. Sem vinculação com qualquer político ou filiação partidária, o jornalista começou a caminhar no Parque da Jaqueira, reduto das famílias tradicionais do Recife. “Lá na Jaqueira você escuta de tudo. É um local de encontro da galera reaça. Comecei a identificar nas conversas que um golpe estava sendo gestado. Aí, eu disse: ‘Tenho que fazer alguma coisa, eu vou reagir’. Passei a andar todo de vermelho e com uma bandeira de Dilma”, relembra. Desde então, Maia percorreu mais de 3 mil quilômetros a pé, ora em defesa dos governos petistas, ora a divulgar as pautas da classe trabalhadora, como no período das reformas trabalhista de Michel Temer ou previdenciária de Jair Bolsonaro. Nessa época, ele andava com o boné da CUT e, no radinho, intercalava as músicas de Lula com discursos contrários à retirada de direito dos trabalhadores.
“O importante é seguir com um ideal, senão a vida perde o sentido”, diz o jornalista
“Já passei muitas vezes por ele e sempre me perguntei o que move alguém caminhar pelas ruas, diariamente, com o propósito de ser ouvido no que acredita? Ele passa pela gente silenciosamente, mas ao mesmo tempo grita para ser ouvido. Sem precisar parar diante dele, ao apenas olhá-lo, nos damos conta da causa que o acompanha”, observa a jornalista Ana Sadock.
Maia é, por si só, o próprio discurso, não precisa dizer nada. Mas, se ele se tornou um personagem conhecido e respeitado, nem sempre foi assim. No início de 2016, auge do processo do golpe contra Dilma, ele teve a bandeira quebrada e foi ameaçado de agressão por um grupo favorável ao impeachment. Outro episódio de intolerância ocorreu durante a pandemia, quando ele se restringia a caminhar nos arredores de casa, no Bairro dos Aflitos. “Foi uma tentativa de assassinato em um período que eu andava só no quarteirão do meu prédio, por conta da Covid-19. Um vizinho bolsonarista jogou o carro contra mim por seis vezes e só parou depois que eu o filmei. Disse que ele não era um cidadão, e sim um marginal, e que ele tinha de me respeitar. Essa foi a provocação mais séria.”
No Parque das Graças, o preferido de Maia no momento – “tem menos reaças” –, Chico, que ainda vai fazer 2 anos, pede aos avós para levá-lo todas as tardes. A intenção do bebê vai além de brincar no parquinho infantil. “Ele diz: ‘Bora ver Lula, vó’. Nosso netinho é admirador dele (Maia), porque já nasceu com Lula no coração, todo mundo em casa é lulista”, afirma o avô Josemilton Santos, que apoia o peregrino petista que compõe a paisagem das ruas do Recife. “Ele nos anima e fortalece a luta do povo brasileiro. Sem Bolsonaro, claro.”
Imagem: Fabíola Mendonça
Numa volta pelo Recife Antigo, cenário de alguns cartões-postais da capital pernambucana, Maia é abordado por vários pedestres, inclusive turistas, que querem tirar uma foto. José Nilson, vereador de Canapi, cidade do interior de Alagoas, passeava com a família pelo Marco Zero quando o avistou e não hesitou em abordá-lo. “Não poderia deixar de fazer uma foto com esse fã do presidente (apontando para Eduardo Maia). Ele me chamou atenção e eu quis chegar perto para parabenizá-lo. Vou postar a foto com ele nas redes sociais. O Nordeste vai fazer a diferença e eleger Lula nessas eleições, até porque a região só melhorou depois que ele virou presidente do Brasil”, dispara Nilson.
“No momento em que uma parcela grande da sociedade não avançou cognitivamente, alguém vestir uma camisa vermelha e caminhar com a trilha sonora de um operário que se tornou presidente três vezes, essa ação deixa de ser propaganda e torna-se um ato pedagógico. Faz com que os outros reflitam. Ele está fazendo história”, salienta Carlos Silva, comentarista da Rádio Cultura do Nordeste. A figura de Maia também angaria a simpatia de Diego Santana, crítico do governo Lula. “Sempre o vejo andando pelas ruas do centro. Mesmo eu não sendo do lado político dele, acho legal o jeito que externa o que defende, a forma como o respeitam, pedem para tirar fotos… Isso é muito interessante, porque a galera anda muito intolerante. Existe ao menos o respeito no caso dele.”
“Se a gente for pensar na reação dos outros, não faz nada. A mobilização é algo diferente do normal, você sai do seu habitual para fazer a diferença. Vai ter quem julgue negativamente e outros que veem como algo bom. O importante é seguir com um ideal, senão a vida perde o sentido. Estou fazendo a minha parte como cidadão, na defesa da democracia e da justiça social, sem esperar palmas de ninguém”, diz Maia, antes de continuar a caminhada. No rádio se ouve: “Olê, olê, olê, olá, Luuula, Luuula…!” •
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O L, diariamente’
Fabíola Mendonça
Repórter correspondente de CartaCapital em Pernambuco
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.
Desenvolvido por OKN Technology Agency
Fonte: Carta Capital