Tarcísio tenta humanizar imagem em conversa com jovens, mas programas têm alcance restrito

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Por Leonardo SobreiraBrasil 247

247 – A campanha pela reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aposta em uma tática clássica de períodos eleitorais: aproximar a imagem do político ao público jovem e apresentar programas de governo como prova de resultados. Contudo, essa tentativa esbarra em uma questão incômoda — ao confrontar os números com o tamanho da rede estadual de ensino, o alcance de algumas iniciativas revela-se bastante restrito.

Um exemplo é o programa “Prontos pro Mundo”, criado pelo governo paulista para proporcionar capacitação intensiva em inglês e bolsas de intercâmbio internacional a alunos do Ensino Médio da rede pública, com vivências em países como Reino Unido, Canadá, Nova Zelândia, Austrália e Irlanda.

Enquanto a propaganda institucional exalta o programa como um vetor de transformação para a trajetória de jovens da rede pública, a realidade quantitativa contrasta com o discurso.

A rede estadual de São Paulo conta com cerca de 1,3 milhão de estudantes matriculados no Ensino Médio. Embora o “Prontos pro Mundo” contemple aproximadamente 70 mil alunos por ciclo na etapa de capacitação on-line, apenas 1.000 estudantes por ano são selecionados efetivamente para o intercâmbio, de acordo com uma fonte da oposição.

Isso significa que as bolsas internacionais atingem cerca de 0,1% dos alunos do Ensino Médio da rede estadual. Mesmo somando o público da formação on-line, o índice alcançado fica abaixo de 7%. Logo, embora o programa proporcione uma vivência excepcional aos contemplados, ele não se configura como uma política de impacto estrutural capaz de alterar a realidade educacional da grande maioria dos estudantes da rede.

Oportunidade, mas para poucos

A seleção para o intercâmbio não se dá de forma universal. Os candidatos precisam cumprir uma série de exigências, como altos índices de frequência, engajamento e desempenho em avaliações (a exemplo do Saresp e do Provão Paulista), além de comprovar proficiência no curso de idiomas.

Tais critérios tendem a beneficiar estudantes que já dispõem de melhores condições para acompanhar o ritmo escolar e manter notas elevadas. Em uma rede de ensino marcada por profundas desigualdades socioeconômicas e educacionais, questiona-se se um modelo desse tipo atinge justamente aqueles que mais necessitam de amparo estatal e inclusão. Alunos que trabalham, lidam com adversidades familiares, enfrentam limitações de acesso à internet e a equipamentos, ou carregam trajetórias marcadas pela vulnerabilidade encontram barreiras maiores para preencher os requisitos.

Na prática, gera-se um funil seletivo dentro da própria escola pública: uma fração mínima usufrui de uma oportunidade extraordinária, enquanto a imensa maioria permanece atrelada aos gargalos cotidianos da rede.

R$ 85 milhões para mil intercambistas

Outro ponto de relevo diz respeito ao custo da iniciativa. O governo paulista anuncia um aporte de cerca de R$ 85 milhões direcionado ao custeio de passagens, vistos, hospedagem e auxílios aos estudantes no exterior.

Se por um lado o investimento pode ser respaldado como uma estratégia de internacionalização da educação pública, por outro levanta um questionamento pertinente:

Qual é o retorno educacional sistêmico de R$ 85 milhões quando o benefício direto se circunscreve a cerca de mil alunos anualmente?

O cerne do debate não reside em anular a opção pelo intercâmbio, mas em ponderar se uma política voltada à juventude deve concentrar grandes somas em experiências de forte impacto individual para poucos ou priorizar medidas que reestruturem a base formativa de milhões de estudantes. Um jovem que passa três meses estudando fora certamente vivencia uma guinada pessoal, mas tal iniciativa não soluciona o déficit no ensino de inglês para os demais alunos da rede, tampouco transforma, por si só, as condições habituais de aprendizagem nas salas de aula.

A juventude como cenário eleitoral

É sob essa ótica que a engenharia de comunicação da campanha de Tarcísio ganha contornos que devem ser observados com atenção.

A exibição do governador em rodas de conversa com jovens busca lapidar uma imagem menos tecnocrática e mais integrada ao eleitorado. Sucede que a estética da proximidade nem sempre condiz com a envergadura das políticas públicas exibidas.

Enquanto a propaganda enaltece os rostos daqueles que conseguiram viajar e estudar no exterior, o fator omitido costuma ser a escala: 1.000 intercambistas frente a um universo de aproximadamente 1,3 milhão de estudantes do Ensino Médio.

Desse modo, evidencia-se um abismo entre a narrativa eleitoral de alto impacto e uma política pública cujo alcance prático se restringe a uma parcela minúscula da população estudantil.

Fonte: Brasil 247

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