Eleição de Flávio Bolsonaro seria uma nova granada no bolso do servidor

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Por Leonardo Miazzo — Carta Capital

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Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

Durante os quatro anos do governo de Jair Bolsonaro, o funcionalismo público federal ficou sem reajustes. Somente os militares se refestelaram

A eleição presidencial de 2026 se aproxima do desfecho com as pesquisas apresentando um empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula. A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira 21 mostra o filho de Bolsonaro com 50,5% dos votos válidos, contra 49,5% do atual presidente. A perspectiva de vitória de um projeto autoritário da extrema-direita segue concreta, mas a reação democrática da sociedade nas redes e nas ruas impulsionou uma onda em favor de Lula. A virada é possível. 

Parte desta onda é movida pela denúncia dos riscos e perigos embutidos em uma vitória de Flávio para diversos segmentos sociais e políticas públicas. A ameaça concreta contra a política de valorização do salário-mínimo, contra o vínculo entre o valor das aposentadorias do INSS e o salário-mínimo, contra o piso da educação e da saúde, e de retorno da escala 6 x 1 são alguns dos temas que mais têm fortalecido a mobilização social contra o bolsonarismo. 

Todavia, é preciso aprofundar mais nessa reta final o perigo que Flávio Bolsonaro representa para o serviço público e para os servidores. Além do risco de real de não ter reajustes por quatro anos, como já ocorreu de 2019 a 2022, o modelo Paulo Guedes de governar, elogiado pelo candidato bolsonarista, também coloca em xeque a estabilidade, as condições de trabalho e os planos de saúde dos servidores públicos brasileiros. 

A frase foi dita pelo então ministro da Economia, Paulo Guedes, em 22 de abril de 2020, durante a reunião ministerial gravada em meio à pandemia e que veio a público por ordem do Supremo Tribunal Federal. Como diz o ditado, relembrar é viver. Naquela época, os servidores já estavam há dois anos sem qualquer reajuste. A granada estava no bolso. E nada mudou até o fim do mandato de Bolsonaro, em dezembro de 2022.

Os servidores federais ficaram quatro anos sem um centavo a mais no contracheque. Eles colocaram a granada. E ela explodiu. Só os militares se salvaram e isso não deve ser surpresa para ninguém. Enquanto o funcionalismo civil acumulava as perdas com a inflação, as Forças Armadas tiveram reajustes que chegaram a 76% sob a batuta de Jair Bolsonaro.

Realidade bem diferente do tratamento que os servidores públicos federais passaram a ter com o presidente Lula tão logo ele assumiu a Presidência da República, em janeiro de 2023. Logo de cara, tiveram 9% de reajuste para todos os servidores civis do Executivo. Percentual que se repetiu em 2025 e 2026. Categorias que tiveram acordos específicos, registraram alta de 17% a 69% durante o terceiro mandato do petista.

A matemática não deixa margem para dúvidas: com Bolsonaro, reajuste zero. Com Lula, ganho real acima da inflação. Vale lembrar que a lógica de promover ganho real valeu para os servidores e, também, para o salário-mínimo. No governo Bolsonaro, o zero se repetiu. Com Lula, o poder de compra cresceu.

Flávio Bolsonaro já deixou claro que dará sequência ao modelo de Paulo Guedes. Seu plano, na prática, é espalhar mais do que granadas, mas sim verdadeiras bombas contra os direitos do povo em geral e dos servidores públicos em particular. A questão é Flávio Bolsonaro não ameaça apenas o salário do funcionalismo. Ameaça a estabilidade e outros direitos.

O Labmundo lançou agora, em 2026, o Atlas da Política Externa com um compilado de todas as denúncias de assédio moral e violências físicas e psíquicas contra servidores públicos durante a gestão Bolsonaro. Houve uma explosão de casos em áreas estratégicas tais como Meio Ambiente, Educação, Ciência e Tecnologia e Saúde, com toda ordem de pressões e retaliações contra posições técnicas e científicas que contrariavam a orientação ideológica do bolsonarismo. 

Outro exemplo são os planos de saúde mantidos por autogestão, como Assefaz, Cassi, Geap e Postal Saúde. Todos eles entrarão na mira do tesouraço da equipe econômica que ressuscita o jeito Paulo Guedes de governar. Entre os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, a saúde suplementar do funcionalismo enfrentou anos de congelamento da participação da União, enquanto os custos da assistência médica cresciam de forma acelerada.

Quem acabou pagando a diferença foram os próprios servidores, por meio de reajustes cada vez maiores. Ou seja, salários sem reajustes por quatro anos e o plano de saúde ficando cada vez mais caro. Realidade que mudou drasticamente com a chegada do presidente Lula. O alívio que os servidores públicos precisavam sentir não só no bolso, mas nas condições de trabalho como um todo. 

Um serviço público fortalecido é fundamental para qualquer projeto democrático. E não existe isso sem servidores estáveis e com remuneração e direitos condizentes com sua formação e com suas tarefas.

O serviço público brasileiro resistiu ao primeiro governo Bolsonaro e ajudou a construir as políticas públicas e as instituições nos últimos anos. Mas é sabido pela ciência política que um segundo governo autoritário é muito pior que o primeiro. Todos os casos globais mostram isso, tais como o atual segundo governo de Donald Trump. 

Contra o risco autoritário que ameaça a democracia e os direitos de todos, é preciso que os servidores públicos se somem à mobilização das redes e das ruas que vem mudando a história das eleições de 2026. 

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Josué Medeiros

Cientista político e professor da UFRJ e do PPGCS da UFRRJ. Coordena o Observatório Político e Eleitoral (OPEL) e o Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB)

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Fonte: Carta Capital

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