Entre o deserto e as montanhas, surge a tecnológica e pulsante Urumqi
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
Quando se chega por avião em Urumqi, capital da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, na China, a impressão dada pelo caminho é tão monumental quanto desafiadora para o progresso econômico de qualquer sociedade: vindo das metrópoles do sul, sobrevoam-se por horas as regiões desérticas do noroeste chinês, uma imensidão arenosa.
Mais próximo ao pouso, a equação do desenvolvimento local começa a fazer mais sentido. Grandes infraestruturas de captação de energia solar e eólica circundam a cidade, acompanhadas por linhas de transmissão e outras estruturas que ajudam a sustentar a expansão econômica de uma região marcada pela distância dos principais centros industriais do país.
É nesse ambiente que surge Urumqi, uma cidade com mais de quatro milhões de habitantes e principal centro político, administrativo e econômico de Xinjiang. Ao sul estão as montanhas Tianshan; ao norte, a Bacia de Junggar e o deserto de Gurbantünggüt. A geografia que hoje condiciona seu desenvolvimento também ajuda a explicar uma história secular de circulação entre a China e a Ásia Central.
Xinjiang foi atravessada por diferentes ramificações das antigas Rotas da Seda, pelas quais circularam mercadorias, povos, religiões e culturas entre distintas partes da Eurásia. Urumqi, no entanto, não teve na Antiguidade a importância comercial de cidades como Kashgar e Turpan, também na mesma província. Sua consolidação urbana ocorreu sobretudo a partir do século XVIII, durante a expansão da dinastia Qing no noroeste chinês, quando a cidade passou a ganhar relevância militar, administrativa e comercial.
Essa condição de região de passagem permanece visível na composição de sua população. Urumqi reúne chineses han, uigures, hui, cazaques, mongóis e outros grupos. No conjunto de Xinjiang, o censo de 2020 registrou 25,85 milhões de habitantes, dos quais 44,96% eram uigures e 42,24% han.
A antiga posição de ligação entre a China e a Ásia Central ganhou um novo significado econômico nas últimas décadas. Depois de um ciclo de desenvolvimento fortemente concentrado no litoral, Pequim lançou, em 2000, a estratégia de Desenvolvimento do Oeste, com investimentos em infraestrutura, energia, urbanização e integração territorial.
Xinjiang tornou-se uma das regiões centrais dessa política. Além de reservas de carvão, petróleo e gás, reúne condições particularmente favoráveis à produção solar e eólica. O problema sempre foi a distância: a região está a milhares de quilômetros dos maiores mercados consumidores e dos principais centros industriais chineses.
A resposta passou pela construção de infraestrutura em grande escala. Ferrovias, rodovias, gasodutos, aeroportos e linhas de transmissão passaram a conectar Xinjiang de maneira mais intensa ao restante do país.
A partir de 2013, essa integração ganhou uma dimensão externa com a Belt and Road Initiative, a chamada Nova Rota da Seda. Xinjiang passou a ocupar posição central no corredor terrestre projetado pela China em direção à Ásia Central e à Europa.
Vista a partir de Pequim, Xangai ou Guangzhou, Urumqi está no extremo oeste do país. Quando o mapa é observado em direção à Ásia Central, sua posição muda. Xinjiang faz fronteira com oito países e funciona como uma das principais portas terrestres da China para Cazaquistão, Quirguistão e outros mercados da região.
Urumqi atua como centro logístico dessa estrutura, enquanto cidades fronteiriças como Horgos e Alashankou conectam as ferrovias chinesas às redes da Ásia Central. Em 2024, os dois principais portos ferroviários de Xinjiang registraram cerca de 16,4 mil viagens de trens China-Europa e China-Ásia Central.
A expansão aparece também nos indicadores econômicos. Em 2025, o PIB de Xinjiang chegou a 2,146 trilhões de yuans, com crescimento de 5,5%. A população regional, que era de 21,8 milhões em 2010, alcançou aproximadamente 26,4 milhões em 2025, com mais de 61% dos habitantes vivendo em áreas urbanas.
A energia é uma das bases desse processo. Ao fim de 2025, Xinjiang já possuía mais de 160 gigawatts de capacidade instalada nas chamadas “novas energias”, principalmente solar e eólica.
A própria paisagem ajuda a explicar essa expansão. O clima seco favorece a geração solar, grandes extensões territoriais permitem projetos de enorme escala e corredores entre montanhas e planícies oferecem boas condições para a geração eólica. Dabancheng, nos arredores de Urumqi, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos dessa estrutura energética.
Mas a eletricidade produzida em Xinjiang não serve apenas ao consumo local. Por redes de transmissão de longa distância, a região envia mais de 100 bilhões de quilowatts-hora por ano a outras partes da China, alcançando mais de vinte províncias e municípios.
Isso não significa, porém, que Xinjiang esteja simplesmente trocando combustíveis fósseis por fontes renováveis. A região continua sendo uma importante base chinesa de carvão, petróleo e gás natural. No planejamento de Pequim, a expansão solar e eólica ocorre ao lado, e não necessariamente em substituição imediata, dessas fontes.
É nessa combinação entre território, energia, infraestrutura e planejamento estatal que Urumqi ganha relevância para além de Xinjiang. A antiga periferia geográfica da China passa a funcionar simultaneamente como base energética, corredor logístico e ponto de conexão com a Ásia Central.
A paisagem vista do avião resume parte dessa transformação. A imensidão árida que inicialmente parece impor um limite ao desenvolvimento é também o espaço sobre o qual se instalam painéis solares, turbinas, ferrovias e linhas de transmissão em escala difícil de ignorar. Urumqi cresce no centro desse processo.
Fonte: Brasil 247