200 mil barris com resíduos radioativos ficaram no fundo do mar por várias décadas, agora cientistas fizeram uma descoberta incomum nas profundezas

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Por Vinicius FerreiraCatraca Livre

Nas profundezas remotas do Oceano Atlântico, centenas de milhares de recipientes metálicos repousam sobre o leito marinho desde meados do século passado. Pesquisadores mobilizados pelo projeto NODSSUM documentaram a degradação física dessas estruturas, confirmando a presença de resíduos nucleares em áreas abissais bastante vulneráveis.

Qual é a origem dos tambores depositados no fundo do mar?

Durante a Guerra Fria, nações europeias adotaram o despejo marítimo como solução técnica para se desfazer de refúgios atômicos industriais e científicos. Essa prática sistemática resultou no descarte de milhares de recipientes blindados com cimento, gerando um passivo de contaminação radioativa prolongada.

As antigas estratégias de descarte consideravam que a imensidão das águas oceânicas seria capaz de neutralizar qualquer vazamento com o tempo. Esse conceito desconsiderava o comportamento químico de longo prazo no leito oceânico, onde elementos radioativos persistem sem sofrer dispersão imediata.

Como a expedição NODSSUM conseguiu alcançar o local?

Com o navio oceanográfico Pourquoi Pas, trinta cientistas navegaram até as coordenadas exatas dos antigos depósitos no Atlântico. Utilizando sonares de alta tecnologia, a tripulação localizou os conjuntos de barris por meio de detalhado mapeamento acústico do solo marinho.

O lendário submersível tripulado Nautile realizou vinte descidas sucessivas até ultrapassar a marca de quatro mil e setecentos metros. Nessa profundidade extrema, os operadores coletaram amostras físicas e capturaram registros visuais dos cilindros metálicos sob severa pressão hidrostática.

O submersível Nautile investiga carcaças de barris radioativos a mais de quatro mil metros de profundidade.

O que as câmeras encontraram nas carcaças submersas?

Imagens obtidas pelo submarino científico revelaram que a corrosão salina destruiu grande parte dos invólucros metálicos submergidos. O desgaste prolongado causou fraturas evidentes na blindagem, permitindo o vazamento visível de sedimentos e resíduos que formavam o antigo recheio industrial.

Diversas formas de vida marinha colonizaram ativamente a carcaça enferrujada dos contêineres atômicos nas planícies abissais. Populações da anêmona (Actinoscyphia aurelia) cresceram diretamente sobre o metal deteriorado, utilizando as estruturas industriais abandonadas como um raro substrato sólido artificial.

A equipe oceanográfica catalogou as seguintes constatações biológicas e estruturais no local:

  • Fixação bentônica: anêmonas e pequenos corais aderiram às paredes metálicas dos recipientes.
  • Presença de crustáceos: caranguejos e outros animais móveis circulam livremente pelos restos expostos.
  • Fissuras estruturais: fendas visíveis indicam ruptura quase total do confinamento mecânico inicial.

Qual é a velocidade de dispersão dos radionuclídeos?

Pesquisas com amostras de água indicaram que isótopos artificiais foram liberados diretamente no sedimento circundante das carcaças. Medições espectrométricas identificaram traços de cobalto e césio, confirmando a transferência gradual de partículas radioativas para o meio físico profundo.

A dinâmica sedimentar descrita na pesquisa sobre acúmulo de sedimentos no Atlântico indica que o soterramento dos contaminantes ocorre lentamente. Esse ritmo reduzido impede a fixação mineral rápida, mantendo os elementos tóxicos em contato constante com a fauna bentônica.

Os cientistas destacaram fatores determinantes para a movimentação das substâncias no fundo marinho:

  • Bioturbação biológica: animais que escavam a lama, revolvem os sedimentos e redistribuem as partículas.
  • Correntes abissais: fluxos de água fria transportam frações solúveis para além do perímetro inicial.
  • Adsorção mineral: argilas do fundo retêm temporariamente parte dos radionuclídeos liberados.
Anêmonas e outros organismos marinhos colonizam contêineres corroídos no fundo oceânico.

Quais são os desdobramentos para a segurança ambiental?

Novas campanhas oceanográficas serão organizadas para quantificar se a radioatividade está sendo transferida através da cadeia alimentar marinha. Laboratórios especializados analisam tecidos biológicos coletados na missão para determinar o nível real de contaminação e avaliar a segurança ecológica do ecossistema.

O monitoramento contínuo do leito oceânico segue indispensável para antecipar impactos causados pelo legado industrial do século passado. Os dados obtidos reforçam a necessidade de acordos internacionais rígidos para proteger as profundezas marítimas e mitigar ameaças ambientais nas próximas gerações.

Leia mais: um submarino soviético afundado estaria liberando radiação, e o vazamento reacende temores sobre destroços da Guerra Fria que ainda contaminam o oceano.

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Fonte: Catraca Livre

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