1,4 milhão na frente: esse Rio de amor que se perdeu
Por Ricardo Mezavila — Brasil 247
Carta ao Tom, escrita em 1974 por Vinicius de Moraes, é uma canção que nasceu como uma verdadeira carta musical enviada a Tom Jobim — que na época morava em Nova York. O tema central é uma profunda saudade dos anos de ouro da Bossa Nova vividos na década de 1950.
A letra também faz um contraste melancólico entre a Ipanema romântica e simples do passado e as rápidas e frias transformações urbanas pelas quais o Rio de Janeiro passava nos anos 1970.O pano de fundo das “transformações” estava sendo pintado pelas mãos e armas de militares que impuseram uma ditadura que cassou a liberdade — avançando na repressão contra quem produzia arte, cultura e manifestos contrários ao regime.
Como carioca da gema, assim como Tom e Vinícius, caminho pelas ruas do Rio — que há muito não é o da Garota de Ipanema, mas que vinha se consolidando como território progressista em tempos de redemocratização.
O início da escalada para o declínio social e moral que atingiu grande parte do Brasil foi 2013 — com a “Jornada de Junho”, também conhecida como a revolta dos 20 centavos.
No ano seguinte, o ódio na sociedade foi estimulado — primeiro com a infiltração de grupos de extrema-direita no movimento “Não Vai Ter Copa” e, logo em seguida, na campanha presidencial que colocou a presidenta Dilma Rousseff e Aécio Neves no segundo turno.
A reeleição de Dilma veio com o avanço da Operação Lava Jato, que abusou da autoridade com falsos depoimentos e prisões arbitrárias — sendo responsável pelo forte impacto destrutivo na indústria, na construção civil pesada e no setor de óleo e gás.
De carona nessa onda veio Jair Bolsonaro disseminando homofobia, racismo, xenofobia e misoginia nas tardes dos programas de TV — que viram sua audiência crescer diante de uma hipnose que transformava preconceito em graça, criando um coletivo psicológico de sugestões negativas e despertando o mau-caratismo latente, que contribuiu para que famílias e amizades fossem abaladas. Dali para uma aventura inimaginável foi um pulo.
De volta ao Rio de amor que se perdeu — nascedouro do bolsonarismo — as pesquisas apontam 7% a favor do herdeiro do neofascismo. Isso, em números absolutos, representa aproximadamente 1,4 milhão de eleitores.
Não estou pleiteando a maioria absoluta em favor de Lula, embora seja esse o meu desejo — mas 50 a 50 estaria menos distante da essência de um povo acostumado com a alegria e com a festa de viver numa Cidade Maravilhosa. 1,4 milhão dá a possibilidade de esbarrarmos com 11 “patriotas/cidadãos de bem” em cada 100 eleitores.
São Paulo — que o mesmo Vinícius declarou ser o “túmulo do samba” — deu este ano uma virada à esquerda muito importante na votação final; e Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral, está dando uma folga considerável a Lula nos dois turnos. Temos de confiar na máxima política que diz: quem ganha em Minas, ganha no Brasil.
Na retaguarda de um Brasil plural e soberano está o Nordeste — intransponível para quem chega apenas com pão e circo. Eles têm lá seus coronéis levantando cercas, mas não vão além de seus territórios. O candidato para vencer na região precisa ser transparente, sem filtro, verdadeiro — assim como é o sertanejo, filho de Dona Lindu.
É, meu amigo, só resta uma certeza — é preciso acabar com essa tristeza, é preciso eleger de novo o amor.
Fonte: Brasil 247