Voto útil entra no radar e pode redesenhar reta final da eleição em Goiás
Por João Paulo Alexandre — Jornal Opção

Voto útil. Você sabe exatamente o que significa isso? Trata-se do comportamento do eleitor que abandona seu candidato de preferência por avaliar que não possui chances reais de vitória e, por isso, direciona o voto para um dos nomes mais competitivos. Na leitura política, é a substituição do “voto sincero” pelo “voto estratégico”. O objetivo, muitas vezes, é impedir a vitória do candidato que o eleitor mais rejeita.
O conceito ganhou força nos estudos sobre sistemas eleitorais a partir da percepção de que determinados modelos de votação tendem a concentrar a disputa em candidaturas mais competitivas, mesmo quando a sociedade possui diferentes projetos políticos em disputa.
Esse fenômeno pode ser observado a partir de dois efeitos. O primeiro é mecânico: o próprio sistema eleitoral favorece a concentração de votos nos candidatos mais competitivos e reduz o espaço dos menores. O segundo é psicológico: ao perceber esse movimento, parte dos eleitores deixa de votar no candidato de sua preferência sob a justificativa de não “jogar o voto fora”. É um cálculo — racional — feito antes mesmo de as urnas serem abertas.
Embora essa movimentação seja mais facilmente percebida em disputas de segundo turno, o voto útil também pode aparecer já no primeiro. Em Goiás, a configuração apresentada pelas pesquisas de intenção de voto abra espaço, na reta final, para discutir se parte do eleitorado pode adotar esse comportamento no domingo, 4.
Levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado em 28 de setembro, mostrou Daniel Vilela (MDB) com 45,6% das intenções de voto para o governo de Goiás. Wilder Morais (PL) apareceu com 18,5%, enquanto Marconi Perillo (PSDB) registrou 18,4%. Considerados apenas os votos válidos, Daniel chegou a 50,5% — percentual numericamente suficiente para uma vitória no primeiro turno. A pesquisa ouviu 1.352 eleitores, entre 25 e 27 de setembro, com margem de erro de 2,7 pontos percentuais.
Um dia antes da divulgação, o candidato à Presidência da República pelo PL, Flávio Bolsonaro, esteve na capital goiana para participar de uma motocarreata ao lado de Wilder Morais. O ato saiu das proximidades do Estádio Serra Dourada e seguiu até o Parque Flamboyant, reunindo também outras lideranças do partido.
A participação de Flávio Bolsonaro buscou associar as candidaturas presidencial e estadual do PL na reta final. A distância registrada entre Wilder Morais e Daniel Vilela na pesquisa divulgada no dia seguinte, porém, mostra o tamanho do desafio enfrentado pelo candidato do PL, embora não seja possível estabelecer uma relação causal entre o ato e os números do levantamento, cujo trabalho de campo havia sido realizado anteriormente.
Outro episódio que chamou atenção durante a campanha ocorreu com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Em uma primeira publicação com indicações de candidatos em Goiás, o parlamentar mineiro mencionou Gustavo Gayer e Oséias Varão para o Senado, Sanches da Federal para deputado federal e Flávio Bolsonaro para presidente, mas não citou Wilder para o governo. Dois dias depois, alertado do “ato falho”, o deputado publicou uma nova manifestação e declarou apoio ao candidato do PL ao Palácio das Esmeraldas. (Há um sentimento no PL de que a candidatura de Wilder Morais não fortalece os candidatos proporcionais — daí o esquecimento do jovem político da terra de Carlos Drumond de Andrade. Quem vai ao Vaticano faz o impossível para ver o papa. Nickolas Ferreira simplesmente esqueceu do candidato a governador.)
É nesse cenário que o voto útil entra na discussão. Um eleitor identificado com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, por exemplo, não necessariamente transfere automaticamente essa preferência para o candidato do mesmo partido ao governo estadual (remember: em 2022, apoiado diretamente pelo então presidente Jair Bolsonaro, Major Vitor Hugo ficou em terceiro lugar na disputa para governador, com menos de 15% dos votos válidos). Da mesma forma, eleitores de outras candidaturas podem reavaliar suas escolhas diante da configuração apresentada pelas pesquisas.
O cientista político José Paulo Silva Ferreira explica que essa percepção do eleitorado pode partir tanto do consumo de pesquisas de intenção de voto quanto da avaliação sobre as possibilidades de determinada candidatura chegar ao segundo turno e ser competitiva em uma eventual nova rodada de votação.
A segunda motivação apontada pelo cientista político está relacionada à rejeição. Nesse caso, o voto útil pode ser motivado menos pela adesão a um candidato e mais pelo desejo de impedir o avanço de outro.
Essa lógica ajuda a compreender por que os índices de rejeição são tão importantes na reta final. Um candidato pode possuir um eleitorado consolidado, mas encontrar dificuldades para crescer quando uma parcela significativa dos eleitores afirma que não votaria nele em nenhuma circunstância.
O histórico recente também pesa no cálculo do eleitor. Em 2022, Ronaldo Caiado foi reeleito governador no primeiro turno, com 51,81% dos votos válidos. Daniel Vilela compunha a chapa como vice-governador.
Quatro anos depois, Daniel disputa a permanência no Palácio das Esmeraldas como candidato à reeleição, enquanto seus adversários apresentam projetos “alternativos” para o Estado. Na reta final, portanto, o eleitor se depara não apenas com nomes distintos, mas com escolhas sobre continuidade, retorno de grupos que já governaram Goiás ou mudança de direção.
É justamente nesse momento que o conceito apresentado no início deste artigo deixa os livros de ciência política e chega à urna.
O voto útil não significa necessariamente entusiasmo com quem o recebe. Muitas vezes, nasce de uma comparação pragmática: quem tem condições de vencer, quem o eleitor deseja impedir que vença e qual resultado considera menos distante de suas próprias preferências.
No domingo, com as urnas apuradas, os goianos saberão se esse cálculo terá peso suficiente para alterar o comportamento do eleitor goiano. As pesquisas mostram apenas uma fotografia da reta final; a decisão efetiva será tomada individualmente diante da urna. Se houver uma migração significativa de votos estratégicos, ela poderá ajudar a explicar o resultado. Se não houver, ficará evidente que preferência partidária, identidade política e convicção pessoal falaram mais alto.
No fim, essa talvez seja a questão mais interessante sobre o voto útil: ele não elimina a escolha do eleitor. Apenas muda a pergunta. Em vez de votar somente em quem mais representa suas preferências, o eleitor passa a considerar também qual resultado deseja produzir, ou evitar, com o seu voto.
Há indícios de que o voto útil caminha de mãos dadas com Daniel Vilela. Se as urnas confirmarem a conexão, o líder do MDB ficará mais quatro anos no governo, entre 2027 e 2030.
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Fonte: Jornal Opção