Vorcaro ocupa os caminhos que antes levavam a Roma
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
Antes de frequentar páginas policiais e ocupar incontáveis minutos nos telejornais em horário nobre, tráfico designava comércio, trato, circulação. A palavra veio do italiano traffico e foi mudando de companhia até se instalar entre drogas, armas e pessoas.
Ficou uma ideia antiga: alguém domina o caminho, conhece quem guarda a entrada e transforma essa vantagem em dinheiro. No caso do Banco Master, essa definição ganhou endereço atualíssimo.
Daniel Vorcaro aparece nas investigações cercado por políticos, magistrados, advogados e parentes de autoridades. Surgem contratos, mensagens, jatinhos, hospedagens, camarotes, encontros e pedidos.
O mais grave no caso Master é a capacidade vorcariana de aprofundar rapidamente relações úteis em ambientes onde fiscalização, julgamento e decisões públicas com força de lei acontecem e rendem cifras bilionárias, inclusive em operações envolvendo a compra de banco público.
Nikolas Ferreira procurou Vorcaro para pedir ajuda na liberação de um ativo de minério ligado a um ex-assessor. Disse depois que buscava orientação. O áudio mostra um deputado federal recorrendo a um banqueiro porque acreditava que ele pudesse interceder em uma questão privada. Essa naturalidade diz muito sobre a reputação de influência que Vorcaro construíra. A voz melosa de Nikolas, de alguém que parece ter acabado de acordar, revela muito sobre o nível de intimidade pessoal entre os personagens.
Com Flávio Bolsonaro, a relação ganhou outra musculatura.
A Polícia Federal o descreve como interlocutor direto do banqueiro nas negociações de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Vorcaro repassou cerca de R$ 61 milhões ao projeto, e Flávio continuou cobrando recursos. Nos áudios, fala da pressão da produção, pede novas parcelas, chama Vorcaro de “irmão” e, na véspera da prisão, promete estar com ele “sempre”.
Ouvindo esses áudios, impressiona a posição assumida por Flávio diante do banqueiro. O senador surge dependente do dinheiro para manter o projeto de pé, insistindo e pedindo que Vorcaro resolva a situação. A cena constrange. E é humilhante.
Em janeiro de 2025, Flávio e a família viajaram da Flórida a Brasília em uma aeronave cuja propriedade incluía empresa ligada a Vorcaro. Meses depois, com o banqueiro procurando investidores em Dubai, Flávio ofereceu acionar Eduardo Bolsonaro para encontrá-lo. Eduardo afirma que jamais falou com Vorcaro. Mensagens também mencionam seis encontros entre Flávio e o banqueiro.
De todos os personagens, destaca-se a questão sobre o que pode ter levado o banqueiro preso a fazer tantas extravagâncias milionárias com certos CPFs da República. Um deles será presidente da Suprema Corte daqui a um ano. O outro está empatado na disputa das eleições presidenciais do país.
No entorno de Kassio Nunes Marques, mensagens encontradas no celular de Vorcaro mencionam R$ 500 mil mensais associados a Kevin Marques, filho do ministro. Kevin nega ter recebido dinheiro do Master. A chamada “Turma do KN” surge ainda ligada a contrato de até R$ 427 milhões com o escritório da mulher de um juiz do TRF-1, além de hospedagens e favores. Kassio nega favorecimento. Mas são investigados votos de Kassio que beneficiam o Master. E, ao que tudo indica, são vários os processos que contaram com seu beneplácito.
Familiares de magistrados aparecem próximos de contratos enormes, pessoas ligadas a tribunais recebem facilidades e o mesmo banqueiro preserva relações em um ambiente no qual decisões podem valer centenas de milhões. Para o jornalismo, há matéria suficiente para investigar até que ponto dinheiro e acesso passaram a frequentar os mesmíssimos ambientes.
Alexandre de Moraes exige precisão. O escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, assinou contrato de R$ 131 milhões com o Master. Metadados indicaram que o ministro e a mulher também utilizaram aeronaves ligadas a empresas de Vorcaro, e o escritório sustenta ter contratado regularmente serviços de táxi aéreo.
Até agora, não veio a público voto, decisão ou ato de Moraes no Supremo favorável ao Banco Master ou a Daniel Vorcaro. O ministro afirma jamais ter julgado causa do banco. Contrato e viagens levantam questões sobre prudência e aparência de independência.
Governadores, senadores e deputados, além de diretores do Banco Central e do Banco de Brasília, se lambuzaram para valer nas arcas do Banco Master e na lábia do banqueiro preso.
O Master acabou oferecendo um retrato muito realista de como o dinheiro procura companhia no poder brasileiro.
Flávio pedindo recursos e jurando irmandade; o entorno de Kassio atravessado por contratos e pagamentos mencionados em mensagens; Moraes ligado ao contrato milionário da mulher e a voos de empresas do banqueiro; Nikolas procurando o “Dani” para resolver interesse de terceiro, um ativo minerário, como ele o chamou, e fazendo várias viagens pelo país no jatinho do agora banqueiro em desgraça.
Repetem-se famílias, contratos, favores, aviões, encontros, acessos e a confiança de que determinado nome abre determinada porta.
Tráfico de influência começa nessa conversão da proximidade em ativo. O crime será definido pelos autos; a suspeita jornalística nasce antes, na observação de relações úteis demais para continuarem tratadas como mera sociabilidade.
Vorcaro perdeu o banco e a liberdade. Deixou um catálogo de proximidades que ajuda a entender como o dinheiro procura caminho dentro das instituições. Na antiga linguagem do comércio, chamava-se tráfico. No Brasil de hoje, continua sendo negócio de passagem — e a mercadoria, muitas vezes, é chegar a quem decide.
Aquele provérbio muito antigo, segundo o qual todos os caminhos levavam a Roma, recebeu uma atualização tropical: todos os caminhos passam por Daniel Vorcaro.
Fonte: Brasil 247