Uma leitura filosofante das eleições
Por Luis Mauro Filho — Brasil 247
1.
Estão se fazendo as mais variadas análises das eleições brasileiras com a ascensão surpreendente da extrema direita, geralmente com categorias de uma sociologia integral. Elas são necessárias. Entretanto a gravidade da crise brasileira que é também planetária é de tal envergadura que nos faltam categorias adequadas para entendê-la. Estimo que precisamos de uma ótica filosofante, pois se trata de ir às raízes para encontrar alguma luz esperançadora.
Parto da percepção generalizada de que o mundo assim como está não pode continuar. Há demasiadas e graves ameaças ao futuro da vida. A continuar, advertia Zygmunt Bauman “vamos engrossar o cortejo dos que estão rumando na direção da vala comum”.
Já antes em 1930 escreveu Freud em O mal estar da cultura concluindo, na última página, com esta frase sombria: “Agora os homens avançaram tanto no domínio das forças da natureza que com sua ajuda será fácil exterminar uns aos outro até o último indivíduo”. Atualmente com o arsenal destrutivo existente, acrescido pela Inteligência artificial autônoma, pode se tornar uma realidade. Há, pois, um mal-estar coletivo no mundo que encontra na ascensão trepidante do fascismo e da extrema direita no Brasil, especialmente nos EUA e alhures, sua inegável comprovação.
De minha parte, diria, como hipótese, que esta atmosfera inimiga da vida e da convivência fraterna entre os humanos e com a natureza, deriva de uma radical decepção que degenerou numa profunda depressão.
A decepção residiria no fracasso de todas as promessas feitas pelas grandes narrativas nos últimos séculos: o iluminismo, o capitalismo, o socialismo, as democracias, as tecno-ciências da comunicação (internet, twitter, facebook etc.) e a Inteligência artificial. As promessas não foram cumpridas.
A decepção generalizada redundou numa grande depressão coletiva: uma onda terrível de ódio, de raiva, de fake news e de violência estão cobrindo o planeta e o Brasil. A depressão nos rouba a alegria de viver.
Crises sempre houve e haverá em todas as culturas. A nossa é singular, por ser planetária. Haverá alguma luz na imensa obra de 12 tomos do historiador inglês Arnold Toynbee, A Study of History? Nela ele mostra como as culturas surgem, se desenvolvem, chegam a seu ápice e morrem substituídas por outras.
Maneja duas categorias básicas: desafio (challange) e resposta (response). Quando o desafio é de pouca monta a civilização responde a ela e florece. Quando o desafio é maior que sua capacidade de resposta, a civilização entra em crise, pode prolongar sua agonia, mas, no fim desaparece. Essa é uma exposição simplificada de uma obra complexa e extremamente erudita.
Talvez seu limite consista em não ter considerado a luta de classes que, queiramos ou não, sempre ocorre em sociedades complexas. Agora estamos sob a regência da incapacidade de resposta, pois o desafio ultrapassa esta nossa capacidade. Irrompe, então, a depressão.
2.
Há alguma saída para esta enroscada? Ou chegou a nossa vez de encerrarmos o nosso ciclo dentro da cosmogênese e vamos desparecer? É notório que todos os seres, depois de terem vivido por milhões de anos sobre este planeta, chegaram ao seu clímax e desapareceram. Também nós teríamos o mesmo destino? Deixo a questão em aberto pois não nos parece improvável nem impossível, pois já nos demos os meios de nos autodestruir.
Meu sentimento do mundo me diz que quando desfalecem as utopias – mesmo as mínimas, de melhoria dentro do sistema imperante – só nos resta voltarmo-nos sobre nós mesmos. Somos uma fonte inesgotável de virtualidades e de uma capacidade ilimitada de relações e de criatividade. Apesar de sermos contraditórios, feitos de luz e de sombras (C. G. Jung), sapientes e dementes (Edgar Morin), (eros:vida) e (thánatos:morte, Freud) podemos potenciar de tal forma nossa positividade, capaz de definir um novo rumo e uma nova esperança.
Nesse sentido é inspiradora a teoria do caos, formulada pelo russo-belga Ilya Prigogine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977 (Order out of Chaos,1948) e de Lorenz/Gleick. O universo se originou de um fantástico caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos originário, criando ordens cada vez mais altas e complexas até irromperem no ser humano com inteligência, sentimento, amor e cuidado.
A natureza do caos é de ser destrutivo e generativo. Ele destrói uma ordem vigente que esgotou suas virtualidades, mas guarda dentro de si seminalmente uma nova ordem. Concluído o processo de destruição, irrompe a nova ordem. Ela inaugura uma outra história até que ela mesma se extenuar e mostrar-se caótica/destrutiva. Mas guarda dentro de si o novo a irromper.
Na atual fase histórica global estamos sob a energia destrutiva do caos, mas dentro dele está germinando uma nova ordem, um novo mundo, que cremos será amigo da vida, da irmandade universal também com os seres na natureza, justo e terno que permitirá melhor conviver e amar. Superaremos o caos destrutivo bolsonarista-fascista, expresso pelo resultado do primeiro turno, pelo caos generativo de Luiz Inácio Lula da Silva que, esperamos, triunfará para levar avante o projeto de inclusão dos pobres.
Então, não desesperemos. Esta leitura que se propõe filosofante, pode nos infundir um renovado esperançar.
Fonte: Brasil 247